Apenas sinta

Ilustrativa/Pixabay

Já é sabido por todos que o coronavírus veio pra tumultuar as nossas vidas. E já chegou querendo impor duras regras. Porém, lidar com tais regras, tem sido a grande dificuldade da sociedade. Principalmente entre as famílias desestruturadas, e sem fronteiras muito bem estabelecidas, cujos membros não sabem qual função exercem dentro do sistema familiar.

Os subsistemas estão com os sentimentos à flor da pele. São tantas notícias e informações que não sabem bem ao certo o que vão filtrar. A única coisa certa é: que é preciso aprender a se permitir, a sentir, para posteriormente escolher (ou não) a se adaptar ao novo.

Não se desespere e tampouco se sinta incapaz se não conseguir se adaptar. Não dê ouvidos ao senso comum que sempre nos diz: “Um isolamento familiar deveria ser uma benção. Uma dádiva se ter uma família. Vou ter tempo para conversar, brincar com meus filhos, ajudá-los nas tarefas de casa, ter a nossa intimidade, cozinhar finalmente todos os dias pra minha família para suprir a minha falta enquanto estava fora, ser uma exímia dona de casa, professora, cuidadora e melhor esposa”.

A relação familiar, quando é bem estruturada, realmente nos proporciona muitos momentos prazerosos. Mas não se engane: a grande maioria das famílias não é tão coesa e estruturada assim. Não é tão fácil lidar com as nossas teias familiares.

Às vezes, a relação é motivo de muitos percalços e adoecimentos. E não podemos nos esquecer que, antes da crise do coronavírus, algumas famílias já estariam passando por outras crises que são comuns enquanto processo de existir. Crises como por exemplo: divórcio, comunicação violenta com os pais, doenças, filhos na adolescência que trazem uma disfunção na estrutura familiar, famílias com filhos pequenos, desemprego, abuso de álcool ou entorpecentes, crises naturais do ciclo de vida, como quando a família tem um membro que está passando pelo estágio tardio da vida e que, certamente, também mexe com as relações. Violência psicológica, pobreza extrema e tantas outras.

O confinamento trará, nas relações, um desgaste maior – um calçado fora do lugar, uma comida que não ficou tão ao seu agrado, filho que não acordou na hora de costume, o esposo que está trabalhando em home office e que, por conta de não suportar os trabalhos domésticos e ter dificuldade de estabelecer uma função dentro de casa, estende-se no trabalho além do necessário; quarto bagunçado, xixi do cachorro.

É possível que essas coisas sejam motivo de uma grande discussão acalorada.

Assim sendo, as crises ficarão mais exacerbadas. O motivo talvez não seja a comida, nem o calçado fora do lugar, nem o cachorro; mas, sim, o desgaste já estabelecido nas relações diante das crises citadas acima.

Mesmo que os membros tenham tendência à resiliência à capacidade de serem empáticos, em algum momento, o convívio certamente será afetado por conta das outras funções que também estabelecemos diante das nossas vidas e que, por conta delas, fomos obrigados bruscamente a nos distanciar.

Amizades, redes de apoio, trabalhos…infelizmente, o que está sendo passado é que o coronavírus também tem esse poder, de fazer com que as famílias mudem de uma hora para outra a forma de relacionar-se, do que há anos fora estabelecida emocionalmente.

E tal possibilidade de poder não existe. Existe a possibilidade de adequação. E é sobre ela que podemos refletir. Como por exemplo, o respeito e a individualidade. Seria uma ótima oportunidade para tentarmos compreender que regras, às vezes, não são possíveis de se encaixarem em nossas perspectivas, e tudo bem.

Vamos ter que tentar lidar, sem sentir o peso do fracasso que assombra. Vamos nos sentir mais ansiosos, cansados, desiludidos, é claro que vamos. Isso é ruim? É. E leva um tempo para compreendermos que através das crises podemos evoluir emocionalmente e nos tornarmos mais sábios.

Quem sabe com esse aprendizado possamos também modificar o que foi imposto e que, pensava-se que era o certo.

Quem sabe com essa convivência familiar forçada, a gente compreenda que não é preciso dar conta de tudo, e tampouco nos sentirmos obrigados a tolerar ou se forçar a uma mudança de hábitos.

Responsabilidade mútua

Na medida que a comunicação for mais respeitosa e a individualidade de cada indivíduo preservada, talvez os membros compreendam que a colaboração pode ser apreendida e valorizada.

Se, em algum momento, um membro familiar não consegue colaborar com nossa forma de agir, que a gente possa ter mais paciência pra explicar, ou se permitir aceitar o que ele fez (mesmo dentro de suas limitações). E isso já é motivo de evolução.

Muitas lições serão extraídas deste caos emocional coletivo. Teremos uma oportunidade única para lidar com o sentimento próprio e, também, com o do próximo, que, assim como você, está também perdido e confuso, com  dificuldades para entender e aceitar que é somente pelo viés do SENTIR que chegaremos a um lugar onde haja espaço para um movimento com mais de empatia, resiliência, compaixão e respeito mútuo, além de várias outras possibilidades para percebermos que o processo de estarmos todos juntos poderá também provocar mudanças importantes na estrutura familiar e impactar de alguma forma o comportamento e o relacionamento de seus membros.

Sílvia Pilon é psicóloga, formada pela Universidade de Cuiabá (UNIC), Especialista em Terapia de Famílias, Casais e Indivíduos pelo CEFI de Porto Alegre (Centro de estudos da família e do indivíduo).

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