|sábado, 21 abril 2018
(Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Apaixonado por astronomia, físico peruano da UFMT estuda constelações indígenas

Desde que viu o cometa Halley passar no céu de Lima, Pablo Solorzano tem driblado a falta de recursos para admirar (e pesquisar) as estrelas junto de seus alunos

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O céu amplo e sem poluição luminosa do subúrbio de Lima, no Peru, tornou-se o parque de diversões do pequeno Pablo. O entusiasmo com as estrelas ficou ainda maior quando ele viu pela primeira vez o cometa Halley, em 1986.  “Não recebi aulas de astronomia na escola e eu senti muita falta” diz.  Mas o cometa aguçou sua curiosidade e motivou a formação em física pela Universidad Nacional Mayor de San Marcos, 13 anos depois.

Pablo Edilberto Munayco Solorzano, hoje professor da UFMT, não mudou muito desde então. O mestrado e o doutorado no Rio de Janeiro aumentaram ainda mais o seu amor pela astronomia. Em Cuiabá, diante de um céu menos limpo e aberto como o de Lima, o professor criou seu próprio grupo de observação e dedica seu tempo a pesquisa das “constelações indígenas”.

Professor posa em frente a nuvem da Via Láctea/Foto: Pablo Solorzano

Mencionadas pela primeira vez pelo missionário capuchinho francês Claude d’Abbevill em 1612, as constelações indígenas são a forma como os índios brasileiros viam as estrelas. “Quando a constelação de Oregon, que os índios chamam de Homem Velho, aparece no céu é sinal de que começa os tempos da chuva”, ensina o professor peruano.

O físico pretende entender quais foram as ligações deste conhecimento com o que foi produzido sobretudo pelos Incas do Peru e da Bolívia, cuja compreensão sobre as estrelas era mais avançado. Para isto, os registros de eclipses em pinturas rupestres como os encontrados no sítio Santa Elina, em Jaciara, poderiam dar pistas sobre como foi a evolução desta ciência antes de Colombo.

“Eu sou peruano, então me interesso por este conhecimento”, acrescenta Solorzano como se invocasse seus ancestrais incas. “Eles eram grandes astrônomos, eu gostaria de saber se conseguiram passar esta ciência para os vizinhos”, acrescenta. Na prática, é como se o professor que veio a Cuiabá fizesse a mesma transferência de conhecimento que seus ancestrais teriam feito aos indígenas do Brasil.

“Quando eu cheguei aqui tentei alavancar a astronomia e tentei divulgar nossas observações. Porque a astronomia está praticamente perdida, nas escolas ninguém leciona astronomia e o público tem pouco acesso a telescópios em Mato Grosso”, comenta.

O trabalho é viabilizado por meio da astrofotografia em que o físico peruano e seus alunos adaptam as câmeras ao telescópio usado pelo grupo. As imagens captadas, mesmo assim, causam uma sensação de estar diante de um mundo incrivelmente sublime: a envergadura da constelação da ema, da anta e do veado brilham nos olhos do espectador.

“As constelações indígenas ficam no miolo da Via Láctea, elas começam a ficar mais visíveis em Maio.  Agora elas estão mais difíceis de ver e nosso trabalho fica limitado por isso. De Maio a Setembro é a época que podemos fazer este tipo de fotografia, as outras constelações são mais visíveis durante o ano”, explica.

Longa espera

As fotografias e os eventos de observação são uma forma encontrada para driblar a falta de orçamento. Sem um espaço ideal para as atividades, um sítio de uma das alunas tem sido adaptado para os trabalhos. Tudo isto porque há um ano a pesquisa aguarda liberação de recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa Do Estado de Mato Grosso (Fapemat) para poder ir até às aldeias concluir o trabalho.

“Mas se a gente não conseguir vamos fazer com recursos próprios, só que aí vai mais lentamente, vamos comprando equipamentos aos poucos, por que é caro e difícil de comprar”, diz o pesquisador com um tom ainda assim otimista. Se tudo der certo, o dinheiro sai antes da próxima passagem do Halley, marcada para acontecer em 2061, quando Pablo terá 84 anos.

 

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