Ao invés de evitar, lockdown pode causar mortes, diz estudo

Pesquisa aponta que lockdown trouxe resultado quase inverso à intenção de reduzir o contágio diário e, consequentemente, pode causar mortes

(Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Estudo de pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco diz que o lockdown (fechamento total) das atividades econômicas pode ser uma das causas de aumento de mortes pela covid-19.

Eles levam em conta o registro de internações e mortes pela doença entre 30 e 40 dias após a adoção da medida no Amazonas. A pesquisa aponta que houve resultado quase inverso à intenção de reduzir o contágio diário e, consequentemente, as mortes.

A pesquisa é assinada pelo doutor em psicologia Bruno Campello de Souza e pelo PhD Fernando Menezes Campello de Souza. A avaliação é baseada em dados do Mapa Brasileiro da Covid-19, do Google Mobility Reports sobre Geolocalização, e OpenDataSUS, mantido pelo Ministério da Saúde.

Segundo os pesquisadores, esses compilados formaram um banco de dados de 82.241 brasileiros que morreram de covid-19 entre março de 2020 e julho do mesmo ano e de mais de 60 milhões de pessoas no Brasil que baixaram aplicativos monitorados pela localização.

O estudo aponta três períodos distintos de “excesso de mortes” pela covid-19 no Brasil. O primeiro parece acompanhar o aumento do isolamento social, após a implementação de medidas restritivas. Ele dura até que o percentual de indivíduos que ficam em casa caia para menos de 46%.

O segundo coincide com a chegada da pandemia ao Sul do Brasil (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) e o terceiro vem depois de um segundo período de aumento no isolamento social, que começou em outubro de 2020. Neste caso, houve aumento no Brasil como um todo, incluindo a Região Sul.

“A evidência disponível indica claramente que, ao menos no Brasil, uma tendência do maior distanciamento social se faz acompanhar de um aumento substancial nas futuras mortes”, dizem os pesquisadores.

Tem explicação?

O processo, segundo os pesquisadores, teria a ver com a alta contagiosidade do Sars-Cov 2, sigla científica para o novo coronavírus. Esse fator, combinado com a interação prolongada entre pessoas numa mesma casa, tornaria a carga viral entre esses habitantes mais alta e, consequentemente, também maior a taxa de transmissão domiciliar.

Em outras palavras, se um morador da casa sai e se contamina, ele passa a transmitir o vírus exclusivamente para outros moradores da mesma casa, que ficam expostos a uma “quantidade maior” da doença já que a carga viral não é “compartilhada” com mais pessoas. 

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Ainda conforme o estudo, houve aumento de morte no período do primeiro lockdown no Amazonas, entre abril e maio de 2020, com a linha de excesso de morte ficando acima da das hospitalizações.

No período do segundo lockdown, tanto a hospitalização quanto o excesso de morte voltaram a subir, desta vez, havendo mais internação que mortes. Nos meses entre os dois lockdowns (da segunda metade de maio ao fim de dezembro), quando as medidas de isolamento foram mais flexibilizadas, houve menos internações e menos óbitos.

“Entre as duas datas em que as medidas de bloqueio foram adotadas, houve uma data intermediária em que tais medidas foram relaxadas, mas não houve aumento nas hospitalizações da covid-19 e excesso de mortes nos três meses seguintes ou mais”, diz o estudo.

Dados das últimas quarentenas

Quando se fala em isolamento social, o Estado de São Paulo é o que mais tem se destacado no país pela adoção de medidas rígidas. Nessa sexta-feira (9), o governo estadual anunciou resultados positivos daquilo que chamou de fase emergencial ou fase roxa – uma ainda mais restritiva que a fase vermelha, pensada em março de 2020 para ser adotada na pior situação da pandemia.

Implantada no último dia 15 de março, a fase roxa limitou atividades econômicas – inclusive redefinido o que seriam atividades essenciais, de acordo com decreto do governo federal – fechou espaços públicos de lazer, proibiu atividades esportivas e boa parte do comércio só pode trabalhar por meio do sistema delivery.

Naquela data, de acordo com o portal mantido pelo próprio Governo de São Paulo com dados sobre a pandemia, o Estado registrou 5.259 novos casos da covid-19 e 100 mortos pela doença.

A média de novos casos na semana imediatamente anterior (do dia 8 ao dia 15 de março) havia sido de 11.813 diagnósticos. Já a média de mortos estava em 345 óbitos.

Na primeira semana das medidas restritivas da fase roxa (do dia 16 ao dia 23 de março), os paulistas viram esses números aumentarem: a média de novos casos foi de 15.475 e a de mortes chegou aos 550 óbitos.

E embora seja preciso levar em conta que a covid-19 tem uma fase de incubação e que os sintomas – e, consequentemente, o diagnóstico – levam dias para serem notados, a quarta semana a fase roxa (do dia 1º a 8 de abril) apresentou praticamente as mesmas médias da primeira. Foram, em média, 15.939 novos casos e 761 mortes pelas doença.

No anúncio desta sexta-feira, quando o Plano São Paulo regrediu para a fase vermelha – ou seja, uma mais branda – o governo sustentou, no entanto, que houve uma queda no número de internações. A média diária caiu cerca de 18% na última semana.

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