Antes de decidir por delação, Silval se sentia “abandonado” por aliados

Ednilson Aguiar/O Livre

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Ex-governador Silval Barbosa, saindo da Defaz: afastamento de aliados após a prisão

No final de 2016, quando havia completado mais de um ano preso no Centro de Custódia de Cuiabá, o ex-governador Silval Barbosa recebeu uma visita inesperada do senador Valdir Raupp (PMDB-RO), à época presidente nacional de seu partido.

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Até então, segundo afirmou em delação à Procuradoria Geral da República (PGR), o único aliado político a aparecer por lá havia sido o deputado federal Carlos Bezerra, em duas oportunidades.

Em ambas, Silval pediu que o cacique peemedebista intercedesse por ele em Brasília, entre os deputados da bancada federal, e também com o governo Taques, para que este não permitisse a abertura de novas CPIs relacionadas ao seu mandato.

Silval lembrou a Bezerra que o partido havia conseguido eleger três deputados estaduais (Romoaldo Junior, Silvano do Amaral e Baiano Filho) e que a coligação que apoiou detinha 14 dentre as 24 cadeiras da Assembleia.

“Carlos Bezerra prometeu ao Declarante que ajudaria, mas o Declarante não sabe dizer nenhum ato concreto de ajuda”, relatou o ex-governador.

Quando Valdir Raupp visitou o CCC, Silval disse que se sentia “abandonado” por seu grupo político. “O Declarante relatou ao Senador Valdir Raupp que, em mais de um ano de prisão, o Declarante não havia recebido a visita de praticamente ninguém, o que Valdir Raupp também achou um absurdo”.

Marcos Vergueiro/Secom-MT

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Solenidade de posse de Silval Barbosa na Assembleia Legislativa, em 2011

Na delação, Silval disse que pediu a Raupp que não “comentasse com ninguém” seu desabafo. Uma semana depois, porém, o ex-governador contou ter recebido pela primeira vez a visita do senador Wellington Fagundes.

“Que nessa visita Wellington Fagundes ouviu o mesmo desabafo do Declarante, no sentido de ter sido abandonado, momento em que Wellington Fagundes se colocou à disposição para ajudar no que fosse preciso e que ele precisava ser demandado para poder ajudar”, lembrou Silval.

Outro aliado que apareceu depois de muito tempo foi o deputado Gilmar Fabris. Mas apenas no dia 11 de janeiro de 2017, após a publicação das primeiras especulações na imprensa nacional sobre um possível acordo de delação premiada entre Silval e a PGR.

Bruno Abbud/O Livre

Silval por uma fresta

Centro de Custódia de Cuiabá, onde Silval ficou quase dois anos preso: visitas aumentaram após rumores de delação

Segundo Silval, Fabris disse a ele que havia passado férias em Santa Catarina, ocasião em que se encontrou com o senador Blairo Maggi para discutir seu caso. “Gilmar Fabris relatou ao Declarante que Blairo Maggi e Valdir Piran ajudariam o Declarante a sair da prisão”, afirmou o ex-governador, na delação.

Depois de Fabris, Silval disse ter recebido a visita de Romoaldo Junior e que, nesta ocasião, “reclamou muito” do afastamento dos aliados, que só o teriam procurado em 2017 por temerem uma delação.

O descontentamento também se estendia aos deputados estaduais de sua coligação, que, na avaliação do ex-governador, não se articularam em sua defesa. “Ainda por cima, abriram pelo menos 04 CPIs (Obras da Copa, Sonegação Fiscal, Saúde, Frigorífico), cujo objeto de apuração só reforçava as irregularidades praticadas durante o governo do Declarante”, relatou.

Silval lamentou ainda que parlamentares mais próximos a ele (Wagner Ramos, José Domingos Fraga e Silvano do Amaral) tenham tentado extorqui-lo durante a análise das contas do último ano de seu governo.

A delação relata outras visitas ao longo do primeiro semestre. Carlos Bezerra voltou para afirmar que estava a fazer “articulações políticas” por Silval, mas o ex-governador avaliou que o trabalho, se estava de fato sendo feito, não tinha “resultado prático nenhum”.

Wellington Fagundes voltou a aparecer, desta vez acompanhado por um advogado, que ouviu Silval e tomou nota sobre “onde estavam sendo julgados os processos”.

Em março, com o fortalecimento dos rumores sobre uma possível delação, Silval passou a se preocupar com os desdobramentos do caso e pediu que seu filho, Rodrigo Barbosa, lhe conseguisse um gravador -com o qual gravaria um diálogo com o senador Cidinho Santos.

Silval encerra essa parte do depoimento relatando que, embora Cidinho não tenha voltado ao CCC, uma “pessoa de sua extrema confiança”, Renato Ferreira Santa Lara, esteve três vezes no CCC à sua procura sem, contudo, concretizar a visita. Na última, presenteou Silval com um exemplar do livro “Uma vida com propósito”, do pastor americano Rick Warren.

Na dedicatória, do dia 6 de maio, Renato chama Silval de “meu caro irmão” e diz que ele é um “iluminado por Deus” e que “nasceu para vencer”. “O tempo é o senhor da razão e os humilhados serão exaltados”.

Reprodução/O LIVRE

livro silval

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