Alfabetização de adultos: professores tentam driblar a evasão diariamente

Método diferenciado e empatia fazem a diferença na educação de adultos

“A diversidade instalada”, assim Flávia Gilene Ribeiro define o público do Programa de Educação de Jovens e Adultos em Mato Grosso.

Com histórias diferentes e sem padrão de faixa etária, todos têm em comum a vontade de recuperar o tempo perdido, mesmo com todas restrições da vida adulta.

“Eles são pais, mães, filhos e trabalhadores, sendo que qualquer um destes títulos podem levá-los à evasão”.

Segundo a profissional, que é líder do núcleo de Educação de Jovens e Adultos na Secretaria de Estado de Educação (Seduc), os educadores usam um método diferenciado e regras específicas – como as relacionadas à frequência – e, assim, tentam manter o estudante motivado.

Uma tarefa árdua, independentemente da área em que a escola esteja: urbana, rural, quilombola ou indígena.

Dados da Seduc mostram que o programa reúne 64.151 alunos frequentes, dos quais 28.672 estão nas séries fundamentais e 35.479 no ensino médio.

Mato Grosso tem hoje 190 unidades do Eja e 21 Cejas. A diferença entre as duas é que o Eja é oferecido dentro de uma escola regular. Já o Ceja é uma unidade especializada para o público.

Como funciona na prática

O professor Joaquim Ventura Lopes trabalha no Centro de Educação de Jovens e Adultos (Ceeja) Almira de Amorim Silva, no CPA 3, considerada referência no estado. Ele lida desde 2008 com adultos e assegura que é preciso ter metodologia diferenciada e percepção aguçada para conseguir resultado.

“Grande parte chega cansada do trabalho ou dos bicos que estão fazendo, levando em consideração o número de desempregados. Não dá para fazer uma aula expositiva e pronto. Fica cansativo”.

Lopes trabalha com a fusão de textos sobre algum tema e a avaliação crítica dos materiais.

“Eles ficam muito preocupados com a quantidade de conteúdo porque se sentem culpados por não terem estudo. Muitos não enxergam que foram vítimas de políticas públicas falhas e falta de acesso. Tenho que parar e explica que não é assim. Não adianta pressa. O importante é entender”.

Desta forma, o professor tenta compartilhar a importância de saber como ler e pesquisar. Ferramentas essenciais para entender qualquer matéria.

Cada um com seu limite

O professor de história conta que trabalha muito com leitura e nesta hora é preciso ter sensibilidade para saber que tem habilidade e quem não tem.

“Pedir para uma pessoa sem habilidade ler em público pode levá-lo ao constrangimento e posterior desistência. Então, tento fazer primeiro um atendimento individual e depois formar uma roda e fazer atividades conjuntas”.

Além disso, é preciso saber trabalhar com questões econômicas como o desemprego e os obstáculos, como filhos pequenos, por exemplo.

“Em nossa escola temos até um bebê conforto disponível na diretoria para ajudar as mães. Fazemos o possível para ninguém desistir”.

Lopes conta que um dos problemas comuns entre os alunos é a forma com que se contabiliza a presença dentro de uma escola regular. Alguns são caminhoneiros ou desenvolvem atividades que precisam se ausentar por dias.

“Não tem como cobrar a presença em 75% das aulas como na rede regular. E, de acordo com as novas diretrizes, cobramos o tempo do aluno em sala de aula. Ele precisa cumprir a carga horária”.

Outra mudança no sistema de ensino são as matérias, que no sistema são divididas por área de conhecimento.

Dificuldades

Desde 2008, muitas mudanças foram absorvidas pela Educação de Jovens e Adultos e novos desafios foram apresentados, sendo que o principal deles a falta de investimentos.

Os livros, por exemplo, não chegam desde 2014 e, como os alunos não podem comprar, o que resta é improvisar.

“Estamos trabalhando com um grupo que foi alvo de todo tipo de exclusão. Eles não têm dinheiro para um livro, nem sequer uma xerox”.

E, com cópias compartilhadas nos grupos, o professor segue a aula.

Ele conta que as primeiras atividades no período noturno começam às 18h. Os professores chegam mais cedo para ficar à disposição para aulas de reforço e de leitura.

Em seguida, seguem para sala de aula às 19h, quando os estudantes começam a chegar. Muitos se atrasam porque chegam do serviço tarde, mas os professores relevam porque sabem a dificuldade que passam.

São 3 horas de aula, 1 de oficina (onde trabalham o conteúdo de forma prática e temas atuais).

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