Alexis, o russo cuiabano que dizia ser filho do czar Nicolau II

Marinheiro, imigrante e torneiro mecânico: ele foi quase tudo e dizia ser ainda mais

O imigrante russo morreu aos 92 anos repetindo ser filho de Nicolau II (Foto: O Cruzeiro/Arquivo Francisco Chagas)

A riqueza do czar Nicolau II era tamanha que, no dia da execução da família pelo Exército Vermelho, as jovens princesas Anastásia, Maria e Tatiana tiveram de ser mortas com baionetas porque os tiros dos comunistas não ultrapassaram os vestidos costurados com mais de um quilo de diamantes. A morte da família real naquela noite de 17 de julho de 1918 daria fim a mais de 300 anos da dinastia Romanov.

É desta Rússia em ebulição que fugiria “Seu” Aléxis, imigrante que viveu em Cuiabá por quase toda a vida, trabalhando como torneiro mecânico e repetindo para quem quisesse ouvir que ele era Aléxis Nicolaievich Romanov, o único filho homem do czar, criança cujos restos mortais jamais foram encontrados. A confiança na própria nobreza lhe rendeu fama e Aléxis foi personagem de diversas reportagens e entrevistas.

Aos 92 anos, depois de três atropelamentos, ele faleceu em uma cama no Pronto Socorro de Cuiabá, a mais de 14 mil quilômetros da pequena sala onde foram assassinados os Romanov. Deixaria ouvintes fiéis na família, como o bisneto Manoelito Pires da Cunha Júnior, que jamais deixou de acreditar no avô. Ele conta que Alexis aventurou-se como marinheiro ao fugir da Rússia e que chegou ao Brasil em 1925 desembarcando do navio “Oriente”. Na capital de Mato Grosso se estabeleceu e começou a trabalhar.

O suposto herdeiro do trono russo morreu em 1996. A história de sua nobreza foi repetida desde os anos 30, quando Aléxis chegou cidade vindo do Uruguai. De lá até aqui, o imigrante russo casou-se, montou o próprio negócio e viveu sonhando em retornar a Rússia.

Seu Alexis com uniforme de marinheiro (Arquivo Pessoal/Manoelito Júnior)

Filhos, netos e bisnetos foram confidentes absolutamente crédulos de Aléxis. Manoelito Júnior, hoje funcionário de uma concessionária em Várzea Grande, jamais esqueceu as histórias do bisavô.  “Eu queria escrever um livro sobre isso, já fiquei um mês parado só pesquisando sobre a história”, diz ele empolgado. Júnior diz que a história do bisavô nunca foi contestada pelos parentes. “Minha avó, meu pai, todos acreditavam, não tinha como ser mentira, ele falava detalhes da história, detalhes do palácio onde morava”, garante.

DNA e decepção

Mas a relação de credulidade não se repetia com os jornalistas que procuravam Aléxis. O primeiro deles, o repórter João Martins da revista O Cruzeiro, classificou o relato do russo como “enrolado”. “Quem quiser que acredite. Eu, porém, não acredito”, escreveu ele. Em outras ocasiões a desconfiança se repetiu. No programa do apresentador Jô Soares o tom de brincadeira ladeou os relatos do autoproclamado herdeiro dos Romanovs.

“Se eu estivesse lá eu teria arrancado ele na hora, ao vivo, porque o Jô é gozador”, relembra irritado Manoelito. Reação semelhante o bisneto de Alexis teve ao ouvir minha proposta de entrevista por telefone. “Se você quiser conversar eu até falo, mas não boto muita fé nisso”, resumiu. Segundo Júnior, os jornalistas acabam desistindo de contar a história depois que descobrem o resultado do exame de DNA, feito em 1996, mesmo ano da morte de Aléxis.

O velho mecânico reagiu com indignação ao resultado – que deu negativo. “Se eu não me engano ele mesmo que jogou fora o resultado”. Em reportagem publicada no Diário de Cuiabá, os filhos de Alexis diziam que o pai considerava que houve uma “conspiração” para impedi-lo de receber a herança. Manuelito, porém, diz que existia um segundo exame, segundo o qual Aléxis era filho apenas da czarina Alexandra Feodorovna, mulher de Nicolau II.

“Depois que acharam as ossadas da família encontraram um baú da rainha e naquela época o povo trocava muitas cartas e em uma dessas cartas descobriram que ela tinha um amante que era general. O marido descobriu o caso, mandou matar o general e ficou quieto esperando ela ter o filho homem, que era meu bisavô”, afirma.

Os homens de preto

Manuelito diz ter ganhado mais confiança com a história do bisavô depois de uma suposta visita oficial, feita por um diplomata russo. “Ele era vice-cônsul da Rússia no Brasil. O nome dele era Eugene Voronin, é quase como se fosse Eugênio em português” explica Júnior enquanto anoto o nome. O bisneto diz que o diplomata confirmou a identidade do avô.  O diálogo é o próprio Júnior que descreve:

“Em uma dessas conversas meu bisavô falava que queria ir para a Rússia.  E eu perguntei ‘Ele pode ir para Rússia?’ e o vice-cônsul respondeu: ‘Ele pode, mas não pode falar nada, ele tem que ir e voltar depois”. Foi aí que eu perguntei: “É uma curiosidade de família: ele é o príncipe?’ e o vice-cônsul respondeu: ‘Ele é, este é.’ “. Mesmo com o pacto de silêncio a família preferiu não permitir a viagem. “Ele era muito falante, poderia acabar contando a história”, diz Manoelito.

A chegada do diplomata oferecendo uma volta ao país soviético confirmava uma antiga brincadeira entre Alexis e seu neto Manoelito Pires da Cunha, pai de Júnior. Ele costumava assustar o avô anunciando a chegada dos russos que viriam buscá-lo. “Os homens de preto estão vindo, se arruma aí”, delirava-se o neto. A frase foi repetida inclusive no leito de morte de Aléxis, quando ele foi visitar o avô em coma.

“Meu pai dizia ‘levanta velho, vamos acordar, os homens de preto estão aí para buscar você’ “, relembra Júnior. “Eu vi a conversa do lado de fora do quarto, quando meu bisavô ouviu a frase, mesmo em coma, deu um salto na cama, achou que ia voltar finalmente para a Rússia”. Mas os homens de preto não vieram e Aléxis, um humilde torneiro mecânico contador de histórias, morreria sem voltar ao país de sua nobreza.