Alexandre, Párias

Qualquer semelhança com nomes ou fatos reais não passa de mera coincidência

(Photo by Aditya Rathod on Unsplash)

Filho do deus das temeridades – Temérius – com a rainha da estupidez – Dilmares –, Párias foi separado de seus incontáveis irmãos logo que nasceu: em consulta aos oráculos, seus pais souberam que o menino viria um dia a motivar a destruição da grande ilha de Pátria – e que obviamente ele deveria ser sacrificado e enviado ao Hades o quanto antes.

Com dó da criatura, seus pais pediram a moradores de uma região bucólica chamada Ministérios, abundante em benesses e livre de intempéries, para que cuidassem do menino.

Em Ministérios, Párias ficou sob os olhares atentos de Kassabirus e Alckminion – entidades evanescentes nascidas no Reino dos Mornos. Ali, Párias recebeu o nome indevido de Alexandre (“protetor dos homens”), para que mais tarde ninguém ligasse seu nome à pessoa malvista desde a tenra idade pelo oráculo.

Alexandre cresceu favorecido pelos deuses, que sem desconfiarem da origem semidêusica do rapaz, viam nele um algo a mais, não encontrável nos reles humanos. Não era muito dado ao trabalho braçal e, ao mesmo tempo, desleixado em relação aos estudos.

Mas sua descomunal vaidade – e o espírito ambicioso – despertavam de tal modo a admiração dos habitantes do Supremo Olimpo que alguns, ao observarem Alexandre, era como se mirassem um espelho.

Também foi muito agradável aos olhos dos deuses a demonstração de coragem de Alexandre, quando este defendeu em praça pública uma das legiões titânicas usadas pelos deuses quando há a necessidade de instalar o caos em Pátria, para castigo dos humanos.

Os deuses viviam no Supremo Olimpo, construído no topo da montanha mais alta de Pátria. Era a região mais fria e inacessível do país – o que vinha a ser muito conveniente para os deuses, já que não havia entre eles qualquer tolerância para com os problemas meramente mundanos, ou meramente humanos.

O único meio de acessar o Supremo era escalando altíssimas árvores de mogno para, de lá, subir nas costas de pássaros gigantescos e bicos proeminentes (Advogadus constitucionalis), cuja principal característica era fazerem seus ninhos apenas na emblemática montanha. A viagem, no entanto, poderia durar décadas, custava uma fortuna e não havia qualquer garantia de que, em lá chegando o peregrino, os deuses dariam ouvidos a ele.

Ora, deu-se que naqueles dias os deuses do Supremo estavam a celebrar o casamento entre o rei de Foro (Molusco) e a princesa de Mornos, Ramfasta, que havia passado uma temporada no Império do Oriente e poderia trazer riquezas e prestígio de lá, beneficiando as corporações de Pátria. Mas a alegria durou pouco.

Não convidado para a festa regada a whisky e caviar, Bairroso, deus supremo da Discórdia, sentiu-se injustiçado e perpetrou sua vingança na forma de um concurso entre seus pares. Desafiou ele que o deus supremo que tivesse a maior fama entre os habitantes de Propina, cidade próxima a Ministérios, ganharia o direito de criar leis contra os humanos sem que estes percebessem, ou, se percebessem, não reclamassem… e caso reclamassem, também não faria qualquer diferença.

O embate animou sobremaneira a vida por vezes melancólica no Olimpo – fazendo os deuses esquecerem-se por completo das demandas vindas das zonas inferiores de Pátria, como aliás era costume entre eles. Para encurtar a história, depois de uma série de peripécias que não convém mencionar, os deuses decidiram, por fim, que Alexandre, por sua notória esperteza, seria o juiz do concurso.

Nos dias que se seguiram, cada um dos onze supremos procurou secretamente Alexandre para convencê-lo a trocar seu voto pelos mais diversos presentes ou poderes.

Por exemplo: Gilmarius (deus do Escárnio) ofereceu-lhe fazendas incrivelmente maiores do que aquelas que ele já havia visto em Ministérios; Ricardus (deus da Ingerência) ofereceu-lhe a habilidade de tripudiar e depois apagar a memória dos humanos sem que eles percebessem; Aurelius (deus da Vaidade Suprema) disse que, se vitorioso fosse, Alexandre ganharia prestígio eterno (ainda que forçado) e seria chamado de “excelência” por todos os habitantes de Pátria.

E assim por diante: a cada deus, uma tentativa de conquistar a simpatia de Alexandre. Antônimo (deus dos Vermelhos) daria ao jovem o poder da invisibilidade. E há boatos de que a deusa Cárminas tenha oferecido beleza e convicção a Alexandre – mas isto jamais foi comprovado.

O fato é que Alexandre acabou optando por Teori, um deus que ofereceu a ele o poder de decidir, dali por diante, sobre quais assuntos os seres humanos poderiam falar, seja em debates públicos, seja em conversas privadas. Ele também poderia reivindicar direitos de propriedade em Imprensa, cidade recém-abandonada pela grande maioria dos humanos, onde viviam os Histhericus. As ofertas agradaram sobremaneira Alexandre, que viu nelas a oportunidade de atingir diversos de seus interesses.

A partir de então, virou lei em Pátria que todas as críticas aos deuses supremos – ou a algum de seus aliados – deveriam ser punidas com rigor. Ora, nenhuma outra lei causaria mais revolta nos estultos moradores de Pátria.

O rapto de seus esportes prediletos, como por exemplo o de esculachar os habitantes de Propina, falar mal das legiões de Comandos e principalmente o de praguejar contra a tirania dos deuses, fez com que os humanos se revoltassem em definitivo contra todos os supremos.

A consternação foi tal que Alexandre passou a ser odiado em todos os cantos de Pátria e os supremos tiveram que dar a ele um lugar no Olimpo, onde ele estaria bem seguro e protegido até que as coisas se acalmassem. Mas o fato é que, por 10 anos seguidos, os humanos (em muito maior número, porém desarmados) sitiaram o monte Supremo, impedindo os deuses de descer para um simples passeio que fosse.

Alexandre foi dentre os que ali estavam o que menos se incomodou com isso. Pelo contrário, achava divertida a situação e se sentia um verdadeiro semideus.

Como a Pátria ia de mal a pior, já que os humanos estavam ocupados demais com os assuntos do sítio ao Supremo, os deuses olímpicos chegaram a pensar se aquilo tudo tinha valido a pena, mas em nenhum momento deram o seu divino braço a torcer.

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