Afinal, com quem está o dinheiro que parou de circular por causa da crise?

O LIVRE ouviu dois especialistas que explicaram por que temos a impressão de que ele simplesmente sumiu

(Foto: Agência Brasil)

O receio de perder o emprego faz as famílias consumirem menos. Consequentemente, as empresas que ofertam os produtos que seriam comprados vêem seus faturamentos caírem. Diante disso, consideram cortar funcionários ou salários porque os números apontam que não será possível pagá-los.

E aparentemente – mas só aparentemente – fora dessa equação, os governos também vêem suas receitas reduzirem porque, sem consumo, boa parte dos impostos pagos nas transações de compra e venda simplesmente não têm como serem cobrados.

É um relato bem simplista do que vem ocorrendo em Mato Grosso, no Brasil e no restante do planeta, mas que ajuda a ilustrar – de uma forma quase didática – a pergunta: se não está com o trabalhador, com o empresário e nem com os governos, onde foi parar o dinheiro de todo mundo?

Segundo o economista Pablo Muniz – membro do Conselho Regional de Economia de Mato Grosso –, ele continua onde sempre esteve, só que parou de circular. E conforme a professora de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Aniela Carrara, é exatamente esse o problema.

“Não é que o dinheiro desapareceu. É que ele já cumpriu a função dele, rodou no ciclo econômico e o problema é que os elos que formam esse ciclo estão sendo quebrados, então o dinheiro não consegue mais se movimentar como antes”.

Em outras palavras, conforme explica Muniz, todos continuam tendo uma parcela do dinheiro, mas evitam gastá-lo e, dessa forma, os negócios não acontecem. Consequentemente, “o dinheiro (lucro) que seria gerado nessas negociações também deixa de existir”.

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Uma crise exógena

Segundo a professora da UFMT, o grande problema na crise econômica em que mundo está entrando é que a causa dela não é econômica.

A recessão – que deve ser a maior da história moderna da humanidade, conforme previsão do Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgada nesta terça-feira (14) – veio no rastro do novo coronavírus.

Foi o isolamento social, necessário para reduzir o número de pessoas infectadas, que rompeu os elos que formam o ciclo econômico natural. E no lugar dele, um círculo vicioso tem nascido.

As empresas demitem seus funcionários, esses funcionários perdem sua renda e, por isso, deixam de consumir como antes. E sem demanda de consumo, as empresas não faturam e acabam tendo que demitir ainda mais.

O que também afeta os governos que, como mencionado anteriormente, vivem dos impostos cobrados principalmente sobre essas relações de compra e venda.

Há cerca de três semanas o comércio de Cuiabá está impedido de funcionar (Foto: Ednilson Aguiar / O LIVRE)

Colchão de proteção

Para Aniela Carrara, diante desse cenário a distribuição dos R$ 600 para trabalhadores – que já começou a ser colocada em prática pelo governo federal – é fundamental. Assim como vai garantir um nível mínimo de sobrevivência para as famílias, o dinheiro vai assegurar um movimento também mínimo da roda da economia.

Não é o ideal, mas já é alguma coisa. “Havendo o mínimo de demanda [por produtos], teremos o mínimo desse ciclo funcionando”, ela diz.

Outra eventual solução que vem sendo apontada, conforme Pablo Muniz, é “imprimir” mais dinheiro.

“A teoria é que o dinheiro vai “rodar” menos, mas em quantidade maior. Mas como nada sai de graça, a consequência provável é um aumento da inflação. Mais dinheiro em menos negócios, significa preços maiores”, ele pondera.

E quando tudo voltará ao normal?

Previsões são quase impossíveis de ser feitas, na avaliação da professora da UFMT. O principal motivo, segundo Carrara, é que não há previsão sequer de quando o problema que causou a crise financeira – o coronavírus – será solucionado.

“As previsões no campo da saúde são de que a gente chegue a um pico da doença no começo de maio, então, se a doença estará no pico, obviamente a economia vai continuar bastante retraída”.

Carrara não tem grandes expectativas para 2020. A estimativa dela é que no último trimestre do ano comece a haver uma retomada, mas ainda muito lenta, que provavelmente não vai compensar as perdas sofridas até lá.

“A gente vai depender do caminhar do contágio. E após o caminhar do contágio é que a gente tem que começar a pensar como reativar esse ciclo”.

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