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A vez dos candidatos sem noção

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Deonísio da Silva

No Confiteor, “eu confesso”, oração criada ainda no primeiro milênio de nossa era, aparece a expressão mea culpa, por minha culpa, traduzida em algumas línguas como “por meu problema”.

O Latim está onde menos esperamos, não apenas em habeas corpus, data venia e outras famosas expressões do Direito, como assegura e dá exemplos desta afirmação a professora e linguista tunisiana Henriette Walter, de 89 anos, em livro ainda inédito em português cujo subtítulo é nós todos falamos latim sem saber.

Estas expressões latinas, assim como os lemas de tradicionais universidades internacionais, devem-se a que a maioria delas nasceu de antigas faculdades de teologia.

E por que precisamos fazer mea culpa? Porque os cidadãos brasileiros, sobretudo de megalópoles e metrópoles, parecem presos em seus respectivos domicílios e sem habeas corpus, semelhando pecadores ou os próprios presidiários impedidos do sagrado direito de ir e vir. Somente é livre a ida para os infernos da desesperança.

Os candidatos prometem mudar esta situação. Mesmo aqueles que nos levaram a isso. E nós agora temos como resolver o problema.

Todavia, a ladroagem e a corrupção alcançaram tais patamares que o eleitor rebaixou suas exigências e requer apenas que os prováveis eleitos não integrem quadrilha nenhuma para roubar a pátria, que é a casa de todos, dos que neles votam e dos que neles não votam. A quadrilha e não a crise é a origem óbvia da maioria dos males que nos afligem, pois os ladrões tiram dinheiro de tudo, inclusive de remédio e de merenda.

Esta casa, a pátria, tem dependências indispensáveis e sagradas, tão importantes quanto a cozinha, a sala, os quartos e os banheiros de qualquer residência. Estas dependências são a educação, a saúde, a segurança, a cultura e demais quesitos que constituem o bem-estar de pessoas civilizadas.

Ainda que diante de gente honesta, ouvintes e leitores ficam horrorizados com o português de milhares de candidatos, mesmo diante de currículos e não de prontuários, como tem sido comum. E não são questões de ortografia (escrever direito) ou de ortoepia (falar direito) apenas, embora graves.

Tal é o despreparo de tantos que muitos eleitores podem questionar: como haverão de gerir a coisa pública (no Executivo) ou representar os cidadãos (no Legislativo), inclusive gerir e legislar para aqueles que lhes negaram o voto, em instâncias que vão do município onde moram, passando pelas esferas estaduais e chegando às federais?

Provavelmente milhões de eleitores não se expressam melhor do que aqueles que lhes pedem votos, mas têm a seu favor que não querem e não se propõem a representar ninguém. Querem ser representados.

Deixemos claro mais um dos quesitos, já rebaixados também no âmbito da educação e da cultura. É o seguinte: o eleitor já tolera clamorosos erros de português, na fala e na escrita dos candidatos, desde que saibam ao menos comunicar os seus projetos e dizer de que modos pretendem torná-los factíveis.

Mas uma pergunta se impõe: com o português que apresentam, eles conseguirão? Na fala ou na escrita, a língua portuguesa será a principal ferramenta de trabalho dos eleitos. Eles precisarão ouvir, falar, ler e escrever com clareza, concisão, objetividade, competência e demais requisitos de convívio, que incluem, aliás, as regras da boa educação.

A escola antiga do ensino primário e ginasial foi abolida e não restam mais do que ruínas do que ela foi outrora, já incluídas as três séries dos antigos clássico e científico na designação atual de ensino médio, que resumiu tudo a um minimum minimorum insuportável. A continuar assim, daqui a pouco, se o falante não gritar, não ameaçar e não agredir fisicamente o interlocutor, já estará de bom tamanho.

Caso estivessem em vigor o ensino fundamental e médio de outros tempos, um simples ditado ou redação eliminaria boa parte dos candidatos que se apresentam no rádio, na televisão e nas redes sociais. Destaquemos que o mercado ainda utiliza os velhos critérios, embora também rebaixados.

A experiência nos ensina que outro tipo de candidato – a um emprego, por exemplo -, que tenha desempenho insuficiente no português, obtém, por norma, desempenho ainda pior em outros campos, sobretudo em questões entendidas como de conhecimentos gerais, mas também de matemática e de lógica.

Por isso, os testes e entrevistas para emprego procuram avaliar o raciocínio lógico, a capacidade de comunicação, a expressão corporal, a atitude e o perfil do candidato a integrar-se ao grupo ou equipe que irá enriquecer com sua presença, seu currículo, seu trabalho e sua capacidade de resolver problemas e não de criá-los apenas.

A falta de domínio do português acaba por mostrar que o currículo apresentado não é obra do interessado, como, aliás, já ocorria no drible de provas com a tradicional cola, que o levava a ser aprovado em diversas disciplinas, sem mérito, semelhando o chupim, ave que põe seus ovos no ninho de outros pássaros. Esta prática hoje manifesta-se em nova tecnologia: a operação recorta e cola da internet, o que tem aumentado os novos febeapás, os imortais festivais de besteira que assolavam o País ao tempo do jornalista Sérgio Porto, que escrevia sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta.

Paira no ar melancolia adicional. Todos esses candidatos frequentaram escolas e tiveram professores, muitos dos quais foram coagidos a não reprová-los para que pudessem passar de ano e hoje fossem candidatos, não a aprender conosco, mas a mandar em nós.

Todos nós fomos alunos. Portanto, se erramos no passado, todos nós, o povo da escola, professores ou alunos, cuidemos em não errar mais no presente para que nosso futuro seja melhor. Comecemos por reprová-los nas urnas.

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