A síndrome de boreout e o seu impacto na vida do trabalhador

(Foto: Andrea Piacquadio / Pexels)

             Carla Reita Faria Leal

Amanda Cristina Campos Almeida

 

A síndrome de boreout, assim como a síndrome de burn-out sobre a qual já tratamos aqui, pode gerar consequências negativas à saúde mental do trabalhador.

O nome desse transtorno advém do termo inglês “bored” que significa “entediado”, isto porque a síndrome se caracteriza pelo tédio crônico causado pela falta de perspectivas e de motivação no trabalho.

Ao contrário da síndrome de burn-out que decorre do excesso de demandas no ambiente de trabalho, na síndrome de boreout o desequilíbrio é causado pela escassez de carga laboral, que pode ser de quantidade ou de qualidade do trabalho. Há uma profunda falta de entusiasmo e de prazer do trabalhador no desenvolvimento das suas tarefas laborais, problemas que podem ser tão perigosos quanto o excesso de trabalho.

Vários fatores podem dar origem à síndrome de boreout, tais como: o cumprimento de tarefas inferiores às capacidades do trabalhador; a imposição de atividades repetitivas e/ou monótonas diariamente e por horas seguidas; a ausência de oportunidades de crescimento na empresa; a discrepância entre as expectativas do trabalhador e a posição em que ele se encontra; a impossibilidade de promoção ou de aumento de salário; a falta de estímulo ou de reconhecimento pelos superiores; o recebimento de menos responsabilidade do que se entende merecer; e a limitação de ideias e de sugestões inovadoras.

Em consequência dessas problemáticas, o trabalhador passa a sentir profundo aborrecimento, exigindo pouco de si mesmo e realizando apenas o necessário para não perder o emprego. Ele se sente sem desafio no trabalho, não se interessa pelas atividades laborais e sente tédio extremo no ambiente laboral.

A falta de desafio no trabalho se caracteriza pela percepção do trabalhador de que suas atividades são escassas, pouco estimulantes, sem relevância ou aquém da sua capacidade intelectual. O desinteresse no trabalho, por outro lado, ocorre quando o trabalhador não se identifica com a natureza do seu trabalho, da organização em que trabalha, da atividade desenvolvida ou da sua situação dentro da empresa. O tédio no trabalho, por fim, se caracteriza pelo total desânimo e desorientação do trabalhador que se encontra perdido sobre o que fazer para preencher o seu tempo de trabalho.

Em relação aos efeitos na saúde do trabalhador, a síndrome de boreout pode causar prejuízos físicos, mentais e emocionais, como, por exemplo, irritabilidade, insônia, déficit de atenção, doenças de pele e instabilidade psíquica, que pode se manifestar na forma de depressão, ansiedade ou estresse crônico. Para a organização, por outro lado, a maior consequência da síndrome é a queda da produtividade do trabalhador. Um estudo da Universidade de Lancashire, da Inglaterra, demonstrou que as pessoas entediadas têm um desempenho profissional precário e comentem mais erros.

Como o desenvolvimento da síndrome de boreout relaciona-se a aspectos da cultura organizacional, o trabalhador pode buscar a resolução do problema estabelecendo um diálogo aberto com seus superiores hierárquicos em busca de oportunidades e de projetos disponíveis, demonstrando interesse e capacidade de desenvolver novas e diferentes tarefas. A empresa também deve reconhecer o seu papel neste processo, criando estratégias e ações para evitar o sentimento de tédio no ambiente laboral. Alinhar de forma clara as expectativas dos trabalhadores com as necessidades da empresa e valorizar o profissional e sua autoestima também são atitudes necessárias.

É preciso estar atento, portanto, para um provável aumento da incidência da síndrome de boreout durante a pandemia do novo coronavírus em razão do isolamento social e do trabalho à distância. Deve-se ter em mente que sentir um pouco de tédio no trabalho é normal, contudo, quando este problema é crônico e afeta negativamente a vida pessoal e/ou vida profissional do trabalhador, faz-se necessária a procura de atendimento psicológico ou psiquiátrico. O ideal é buscar sempre um equilíbrio saudável entre o desafio e a motivação, evitando-se tanto a sobrecarga quanto a subcarga de trabalho.

 

*Carla Reita Faria Leal e Amanda Cristina Campos Almeida são membros do grupo de pesquisa sobre o meio ambiente do trabalho da UFMT, o GPMAT.

 

Use este espaço apenas para a comunicação de erros





Aceito que meu nome seja creditado em possíveis erratas.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Artigo anteriorOperação Et Caterva: Servidor afastado do TRE nega participação em fraudes
Próximo artigoPolícia prende homem procurado por estuprar crianças cuidadas pela esposa