A Revolução Francesa e a opressão do politicamente correto

Nas muitas vezes em que, na história, sociedades eliminaram a moral religiosa, o que a substituiu foi uma implacável imposição estatal do que é considerado virtude ou não

“A história não repete a si mesma, mas faz rimas, às vezes até tem soluços…” Assim começa um artigo interessante publicado no Wall Street Journal no dia 25 de julho. A autora Peggy Noonan tece uma comparação da Revolução Francesa com o que se vive hoje na América. Gostei da comparação e acredito que a semelhança da França de 1789 e o Brasil é ainda maior do que o que se vê no panorama cultural americano.

Muitas pessoas pensam que uma vez eliminada a religião, também acaba a noção do certo e errado. Afinal é o cálice (cale-se) da moral cristã o pai de todas as repressões. A sociedade utópica ideal, ao deixar de cultivar moralismos “medievais” como o códex cristão, seria completamente livre. Como queria o nosso Raul Seixas na letra de “Viva a Sociedade Alternativa:” –“Faz o que tu queres, Há de ser tudo da Lei, Viva A Sociedade Alternativa” Ou como na música Imagine de Lennon, “nem céu nem inferno, apenas o firmamento” – nada de ideias metafísicas que sustentem a moral, só existe o universo físico acima de nós.

A verdade é que, nas muitas vezes em que na história sociedades eliminaram a moral religiosa, o que a substituiu foi uma implacável imposição estatal do que é considerado virtude ou não.

Alguns poucos governantes decidem para todos o que é o comportamento adequado naquela sociedade e impõem sanções fortíssimas aos transgressores. Estabelece-se uma moral Estatal arbitrária, gerada por uma elite intelectual, imposta sobre o povo sob a égide da lei civil. Moral deixa de ser uma decisão do indivíduo para ser uma obrigação sancionada pelo poder coercivo do Estado autoritário.

Foi assim na Rússia de Lênin e Stalin e foi assim na França do psicopata que liderou a revolução francesa, Robespierre. Uma vez eliminada a noção de uma consciência moral individual como uma necessidade sine-qua-non para a construção de uma sociedade melhor, entre outras palavras, religião, a única esperança se torna a imposição coerciva de uma moral coletiva. Robespierre acreditava piamente que iria criar um reino de virtude, de acordo com a ideia de virtude definida por ele e seus correligionários. É dele a ideia de que a educação conduz à liberdade: “O segredo da liberdade está em educar as pessoas e, o do tirania, em mantê-las ignorantes”.

Mas ele não usa a palavra educação como nós a usamos. De acordo com seu projeto, os indivíduos seriam doutrinados para se enquadrarem ao que ele e seus comparsas definiam como sendo virtude. O truque é que o Estado não se limita a si mesmo. Enquanto os cidadãos obedecem, o Estado se dá o direito de se impor por meio do terror. Virtude e terror seriam mesma coisa desde que tivessem como alvo a “liberdade.”

Liberdade para viver debaixo da nova república, mas não para examinar a república e questioná-la. Ele não promovia uma educação para a emancipação do individuo, mas uma espécie de adestramento para a nova ordem instaurada por ele. Qualquer semelhança com a doutrinação sugerida mais tarde por Gramsci não é mera coincidência.

A religião cristã se coloca como a inimiga natural deste doutrinamento, porque ela tende a conectar o crente com a realidade humana além dos limites da cultura criada pela revolução.

Ela desmascara a falsa esperança produzida pelos revolucionários ao inspirar uma leitura diferente do que seja a natureza humana e do que seja o mundo. A ideia de que eu faço a minha parte e você faz a sua para construir uma sociedade melhor implica em algumas pressuposições.

Primeira: eu sei qual é minha parte – que se refere à consciência individual. E segundo, a minha ideia do que é certo, ou do que seja a minha parte, é a mesma que a sua. Parte-se de um alicerce moral comum ao qual eu e você temos acesso. Esta noção de sociedade é possível onde existe uma fé religiosa comum.

Robespierre e seus comparsas tinham como alvo destruir a civilização francesa que consideravam podre até a raiz e, ao invés de reformar a monarquia, rota escolhida pelos ingleses, decidiram eliminá-la. Guiado por impulsos messiânicos junto com seus intelectuais Jacobinos, queria criar uma nova cultura com novas imagens simbólicas que substituíram a velha ordem derivada da religião. Até o calendário eles se determinaram a mudar.

E aqui está o paralelo claro com a esquerda de hoje no mundo ocidental, o soluço histórico como sugere a autora do artigo do WSJ. A intenção dos “neo-Jacobinos” atuais é mudar todas as referências da cosmovisão judaico-cristã para o novo código virtuoso elaborado pelos intelectuais de plantão.

Países como o Canadá, Suécia, Islândia, e muitos outros vão sucumbindo devagar ao peso do moralismo estatal. O assassinato dos fetos portadores de síndrome-de-Down e de outras deficiências físicas, a prática da eutanásia para os depressivos e velhos, a liberação do incesto e da pedofilia – que são as últimas barreiras a serem transpostas para o fim completo de todas as regras que restringem o comportamento sexual –, todas estas são imposições da “virtude” idealizada pelo Estado nesses países.

Um dos exemplos mais absurdos disto é a obsessão como os pronomes “corretos” que agora se impõe no espaço público. Um website sustentado por um destes grupos pseudo-virtuosos, por exemplo, sugere 63 pronomes que devem ser usados no dia-a-dia, substituindo os odiados pronomes binários ele/ela, eles/elas. Imagine a dificuldade que nos será imposta na comunicação uns com os outros.

O resultado da revolução moral de Robespierre foi a implantação de um reino do terror responsável por derramar rios de sangue nas ruas da França. Só nos resta orar, enquanto nos for permitido, para que esta sandice morra no berço antes de nos atacar a todos, porque, nos revela a história, a moral implantada pelo Estado certamente mata.