A “Religião da Humanidade” guiando a “Política da Fé”

A "religião da humanidade" foi levada às últimas consequências por falsos profetas

Dentro do Cristianismo a fé é necessária para que busquemos a santificação, mesmo sabendo que somos pecadores e portadores do Pecado Original. Também nos ajuda a suportar as provações e as tentações, em prol da ascensão ao Reino de Deus, que não é deste mundo.

Em suma, exercemos a autocontenção sobre nossas paixões, abrindo mão de diversos prazeres sensuais e pecaminosos, e nos arrependemos quando perdemos essa batalha, nos esforçando para não repetir tal erro, por temor a Deus e para entrar no Céu.

Claro que é um “resumão” sobre aquilo que permeia a mentalidade popular, após milênios de educação cristã e civilizadora, mas essa diferenciação se faz necessária para não se confundir com o que Michael Oakeshott[1] chama de ‘Política da Fé’, uma antítese da Fé em sentido cristão.

Aqueles que agem de acordo com esse modo de “fazer” política, possuem uma crença fanática e fantasiosa de que é possível tornar os seres humanos perfeitos e a partir da ditadura de uns poucos iluminados sobre todos os demais – um dos pontos centrais nas ideologias por trás de regimes totalitários como da União Soviética, o Terceiro Reich, o Khmer Vermelho, o Estado Novo, etc., -, ou como definiu Vladimir Ilich Ulyanov[2] (vulgo Lênin), a ditadura de uma vanguarda revolucionária que dirigirá todas as ações do movimento revolucionário e controlar cada aspecto da vida de cada indivíduo[3].

A ‘Política da Fé’ também possui uma religião que serve de guia, atualmente a que foi anunciada e defendida pelos iluministas, de Voltaire[4] a Pombal[5], aprofundada por sentimentalistas como Rousseau[6] e levada às últimas consequências lógicas – Karl Marx, Friedrich Engels, Lafargue, Gramsci, Marcuse[7] – e práticas – Stalin, Hitler, Mussolini, Pol Pot, Fidel Castro, Maduro, Kim Il-Sung, Mao Tsé Tung[8] – por falsos profetas.

Essa é a ‘Religião da Humanidade’, identificada em sua primeira aplicação experimental na Revolução Francesa, por pragmáticos como Danton e autoproclamados sacerdotes como Robespierre – este a defendia como a religião do Ser Supremo.

Foi Christopher Dawson[9], em seu Os Deuses da Revolução[10], quem assim nomeou essa “nova” religião, que prega a possibilidade de uma sociedade perfeita, baseada em idéias comuns e no progresso material; em contraposição ao Cristianismo, que prega a elevação espiritual, a imperfeição do ser humano e deixa claro que o Reino de Deus não é deste mundo.

Foi Jean-Jacques Rousseau[11] quem primeiro incutiu princípios “transcendentais” na nova religião que se levantava, introduzindo sua doutrina jusnaturalista e sentimentalista do Bom Selvagem – para a qual o homem é naturalmente bom e é a sociedade, com seus costumes e tradições, que o corrompe.

Logo, basta que alguns seres humanos não corrompidos usem da força necessária para impor a “perfeição”[12] e, depois, deixem as massas exercerem controle sobre cada indivíduo, mantendo esse arranjo “democrático” perfeito. Qualquer semelhança que terá com a doutrina comunista de ditadura do proletariado e fusão de Estado e sociedade – de forma a não serem mais diferenciáveis e alcançar a perfeição na Terra -, não é mera coincidência; apesar de que Rousseau não era um socialista, tampouco simpatizaria com o Comunismo, mas um sentimentalista e idealista utópico.

A fé numa política de promoção dos ideais da religião da humanidade, guia as ações e teorizações revolucionárias desde o período da Renascença, passando pelo iluminismo, até os dias atuais.

A idéia de que seres humanos seriam capazes de forçar outros seres humanos a alcançarem a perfeição, ou ainda de pela força discricionária e bruta humana, elevar estes a tal condição, soará absurda a quaisquer pessoas com um mínimo de bom senso e um cepticismo saudável (dosado). Mas aos ouvidos de elementos desejosos de se entregarem libertariamente às próprias paixões e promoverem a quaisquer custos os próprio interesses, e/ou de sua classe, soará como a Nona Sinfonia de Beethoven[13].

Não nego que nesse meio haverá os bem intencionados, que acreditam realmente que promoverão o Bem Comum, ajudando ao próximo, mas são iludidos e, no máximo, compartilham do sentimentalismo de Rousseau – lembrando que nem mesmo este podemos afirmar que estivesse imbuído de boas intenções, parecendo mais o desenvolvimento de um sentimentalismo advindo de ressentimento e autocongratulação. Essas pessoas contribuirão com o processo revolucionário em maior ou menor grau, sendo geralmente os Peões nesse tabuleiro de xadrez, ou poucas vezes exercendo a tarefa de proteção das sólidas Torres, mas raras vezes os Bispos da “Religião da Humanidade”, como o tão citado Rousseau.

Os agentes da vanguarda sabem o que estão fazendo e o porquê estão fazendo, possuindo por objetivo a implantação de sua ‘Religião da Humanidade’, e estão dispostos até a eliminarem 90% dos seres humanos se for necessário. Em nome do Reino do Ser (Humano) Supremo, não se incomodam em promover carnificinas que façam Robespierre,[14] parecer um açougueiro de quinta categoria – e basta observar factos históricos como o Holodomor, o Holocausto, a Grande Fome de Mao[15], o Genocídio em Ruanda, o Massacre no Camboja, etc.

Para essa imposição do conjunto de circunstâncias que os adeptos dessa política acreditam que significaram a “perfeição”, é necessário destruir a ordem existente e substituir por outra na qual o governo controlará cada aspecto da vida de cada indivíduo. Portanto, enxergam como principais inimigos o Cristianismo, a Família, a Livre Associação, e todos os seus representantes, portadores e protetores de nossas cultura, civilização e liberdades.

Devido a essas necessidades de destruição e imposição, a ‘Política da Fé’ é um meio de ação inerente a atividade de governar; sabendo que essa atividade não se resume a macroestrutura, mas também a micro, ou seja, desde uma associação de bairro, clubes e grêmios, até os governos municipais, estaduais e nacionais. Através desta atividade, os adeptos desse tipo de política conseguem infiltrar a Barbárie desde as bases da sociedade civil organizada até as principais posições dentro do Estado.

“A maior causa de violência, morticínio, opressão e tirania é a crença de que é possível inventar um futuro melhor para toda a humanidade ou para uma parte significativa dela e realizá-lo através do poder político […] Sem a promessa utópica, não atrairia multidões de militantes. Sem a concentração do poder político, não teria meios de ação. Poder concentrado em torno de uma promessa de futuro: eis a fórmula infalível do genocídio” – Professor Olavo de Carvalho [16], ‘Nas origens do morticínio’.

Oakeshott afirma que as condições para a aplicação da ‘Política da Fé’ surgem ao final do século XVI, sendo seu principal entusiasta e organizador o filósofo Francis Bacon[17], contudo, o significado que Oakeshott a priori dá à ‘Política da Fé’ inclui a capacidade dos governos de concentrarem poder e organizarem sua autoridade numa forma que permitisse, ou desse a sensação de ser possível, controlar cada atividade de seus “súditos” – essas condições de facto começam a surgir apenas ao final do século XVI.

Porém, dados os experimentos fracassados dessa política, pois mesmo havendo a concentração de poder, os meios – principalmente tecnológicos, pois é uma política que encontrará nos materialistas e tecnocratas seus maiores adeptos – e os representantes detentores de ambos, sempre encontrou o colapso em suas consequências últimas, é perceptível que essa política, em si mesma, significa: tentar “salvar a humanidade” através da atividade de governar e tendo um ideal próprio de “perfeição” baseado numa idéia abstrata de “Bem Estar Social” – e nisto Oakeshott concorda -, mesmo que as condições básicas para se tentar assim (ou melhor, achar essa utopia possível) não existam – neste ponto que divergirei do filósofo britânico.

Há duas fases da ‘Política da Fé’, a primeira, na qual não havia as condições necessárias sequer ao auto-engano e na qual os agentes eram idealistas, que buscava alteração do caráter de cada indivíduo, e a segunda, onde começa a haver essas condições e os agentes passam de idealistas para materialistas[18], estes buscando moldar a matéria humana ao que chamam de  perfeição da sociedade, e aqueles tentando moldar o espírito ao que crêem ser a perfeição do caráter, ambos pela atividade de governar.

O tipo ao qual se prende Oakeshott é exclusivamente o materialista, que terá seu caráter econômico:

“No que chamei de versão econômica da política da fé, os poderes de governo são empregados (e se entende que sejam empregados de maneira correta) na direção e na integração de todas as atividades dos indivíduos, de modo que convirjam na busca de uma condição das circunstâncias humanas denotada por expressões como “bem estar” ou “prosperidade” e representada como o tipo adequado de perfeição a ser buscado pela humanidade.” – Michael Oakeshott, A política da fé e a política do ceticismo, É-Realizações, primeira edição, São Paulo, 2018, página 107.

Por fim, devemos nos atentar ao facto de que a ‘Política da Fé’ existe como meio de ação inerente à atividade de governar desde antes do desenvolvimento da ‘Religião da Humanidade’, materialista, de “Bem Estar Social” e “prosperidade”, mas que é a versão atual dessa política, que é guiada por essa “religião”, a qual Oakeshott chama de ‘versão econômica’ e se debruça – acertando ao dizer que surge e se estabelece a partir do final do século XVI -, que analisamos neste artigo.

* Publicado originalmente pela Gazeta Conservadora

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Notas:

[1] Michael Oakeshott (1901-1990) foi um filósofo inglês e teórico político conservador.

[2] Lênin (187-1924) foi o líder dos Bolcheviques durante a Revolução Comunista de 1917, na Rússia, e um dos principais teóricos do marxismo;

[3] Que fazer?, Lênin, Vladimir Ilich, Ed. Hucitec, 1975, primeira edição;

[4] François-Marie Arouet (1694-1778), conhecido por seu pseudônimo Voltaire, foi um filósofo iluminista e ensaísta francês;

[5] Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782), Marquês de Pombal e Conde de Oeiras, foi um nobre e estadista português, anti-eclesiástico, perseguiu as ordens religiosas católicas, extinguindo algumas, como dos Jesuítas, e foi defensor ferrenho da ‘Religião da Humanidade’;

[6] Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) provavelmente o maior nome do iluminismo francês, foi um filósofo idealista, ensaísta e escritor. Suas idéias influenciaram consideravelmente os principais expoentes da Revolução Francesa;

[7] Karl Marx (1818-1883) foi um filósofo e economista alemão, escritor de ‘O Capital’ e principal influência do Movimento Comunista Mundial. Friedrich Engels (1820-1895) foi um industrial, burguês e filósofo alemão, que junto com Marx fundou o ‘Socialismo Científico’ (Marxismo). Paul Lafargue (1842-1911) foi um jornalista cubano, genro de Marx, casado com Laura Marx, influente no movimento comunista, ele e sua esposa cometeram suicídio em 1911. Antonio Gramsci (1891-1937) foi um político, jornalista e filósofo marxista italiano, e principal estrategista e intelectual do chamado “Marxismo Cultural”, que pretende subverter toda a ordem cristã e ocidental através de infiltração cultural e destruição dos alicerces (Família, Igreja e Livre Associação). Herbert Marcuse (1898-1979) sociólogo alemão da Escola de Frankfurt (marxista) e um dos ‘Pais’ do Progressismo moderno;

[8] Foram ditadores socialistas/comunistas: Joseph Stalin na União Soviética, Adolf Hitler na Alemanha, Benito Mussolini na Itália, Pol Pot no Camboja, Fidel Castro em Cuba, Nicolás Maduro (atualmente) na Venezuela, Kim Il-Sung na Coréia do Norte e Mao Tsé -Tung na China;

[9] Christopher Dawson (1889-1970) foi um historiador, escritor e pesquisador galês, entre os mais respeitados;

[10] Os Deuses da Revolução, Dawson, Christopher, É-Realizações, primeira edição, 2018, São Paulo;

[11] Ver nota 6;

[12] Quanto à política da fé, devemos entender “perfeição” como “[…] integração de todas as atividades dos indivíduos, de modo que convirjam na busca de uma condição das circunstâncias humanas denotada por expressões como “bem-estar ou “prosperidade”e representada como o tipo adequado de perfeição a ser buscado pela humanidade”, citado no parágrafo 15 deste artigo (Oakeshott, Michael, A política da fé e a política do ceticismo, É-Realizações, primeira edição, São Paulo, 2018, página 107);

[13] Última sinfonia completa composta por Ludwig van Beethoven (1770-1827) foi um compositor alemão, considerado um dos maiores gênios da música;

[14] Maximilien François Marie Isidore de Robespierre (1758-1794) foi um advogado e ditador francês, tendo governado durante a Revolução Francesa, no período conhecido como ‘O Grande Terror”, quando milhares de franceses foram condenados à morte por guilhotina, por serem considerados “inimigos da revolução”. Ironicamente, o próprio Robespierre morreu guilhotinado por seus colegas revolucionários;

[15] Ler Dikötter, Frank, A Grande Fome de Mao, Record, primeira edição, 2017, São Paulo;

[16] Olavo de Carvalho (1947-) é um filósofo, escritor, jornalista e professor brasileiro, autor de diversos livros sobre filosofia, história e política, além de organizador do Curso Online de Filosofia. A maior influência do pensamento conservador brasileiro no século XXI;

[17] Francis Bacon (1561-1626), britânico, considerado o “fundador” do conceito moderno de ciência, 1°. Visconde de Alban, também referido como Bacon de Verulâmio foi um político, filósofo, cientista, ensaísta inglês, barão de Verulam e visconde de Saint Alban;

[18] Materialistas por se tratar da versão econômica da política da fé, que é a abordada neste artigo e por Oakeshott, mas também ditada pela Religião da Humanidade, que guiará o pensamento materialista em suas versões – diversas apenas pelo nível maior ou menor de autoritarismo.