A reinserção social por meio da arte: conheça a história da ex-presidiária que virou atriz

Regina Queiroz, 21 anos, foi presa em dezembro de 2017, cumpre pena de 5 anos e 10 meses por tráfico de drogas

(Foto: Assessoria / TJMT)

Abandono, desrespeito, falta de dignidade, invisibilidade, são alguns dos sentimentos relatados por mulheres enquanto cumprem pena no cárcere. Este é o pano de fundo da peça teatral “Beréu”, do Grupo Cena Onze, em cartaz no Cine Teatro Cuiabá, até o dia 7 de novembro, que se propõe a debater a ausência de políticas públicas e a falta de investimento na educação como fatores que contribuem para o aumento da inserção de mulheres no mundo do crime.

Os diálogos da peça são baseados em fatos reais e transbordam dores e aflições dessas mulheres. Uma das 10 atrizes que participam do espetáculo sabe muito bem como é essa realidade. Regina Queiroz, 21 anos, foi presa em dezembro de 2017, cumpre pena de 5 anos e 10 meses por tráfico de drogas. Em 2019, por bom comportamento, progrediu para o regime aberto e atualmente é monitorada por tornozeleira eletrônica, o que possibilita que estude e trabalhe, o que nem sempre é fácil, já que o preconceito social se torna uma barreira para oportunidades.

Para se sustentar foi buscar ajuda com o grupo de teatro Cena Onze, que conhecia desde a adolescência das oficinas que participou quando estava em Casas Lares.

“Tive muitos conflitos com o meu pai, que era usuário de drogas e violento com minha mãe. Meu sonho era conseguir dinheiro para me mudar com ela. Aos 12 anos saí de casa para nunca mais voltar. Para sobreviver trabalhei de garçonete, vendia mousse nas ruas, mas o dinheiro não dava e para pagar aluguel da quitinete e comer comecei a vender drogas”, lembra emocionada.

(Foto: Assessoria / TJMT)

Em uma das cenas mais emocionantes da peça, Regina, que interpreta a reeducanda Melissa, faz um longo desabafo sobre o abandono social e a falta de empatia com mulheres que estão presas. “Tudo que falo na peça eu já vivi. A gente perde tudo, até a família fica mais restrita e tudo o que a gente pensa é o que será quando sair”.

Regina lembra que ao colocar o monitoramento eletrônico recorreu ao Cena Onze, pois no presídio voltou a ter contato com eles. Apesar da vergonha de já ter tido oportunidade com o grupo, buscou ajuda e conseguiu uma vaga para serviços gerais no Cine Teatro Cuiabá. Beréu já estava sendo montada, mas não havia previsão da sua participação.

”Como eu tinha muito interesse em participar comecei a ver os ensaios e conversar com os diretores e acabei conseguindo o papel. Hoje sou recepcionista e atriz do Cena Onze”, comemora.

A arte salvou Regina por diversas vezes e hoje é seu ofício. Após sair da prisão, ela conseguiu terminar o ensino médio e irá prestar vestibular para o curso de Produção Cultural ofertado pelo MT Escola de Teatro da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat). “Se Deus quiser vai dar tudo certo. Achei o meu propósito”, conclui.

(Foto: Assessoria / TJMT)

De acordo com o diretor da peça, Flávio Ferreira, Beréu é uma gíria usada nas prisões que significa bilhete, recado ou carta, por meio do qual as pessoas privadas de liberdade se comunicam dentro do presídio ou com o mundo exterior.

“Beréu não foi uma peça planejada, ela nasceu após mais de 10 anos de convivência com mulheres no presídio feminino Ana Maria do Couto May, onde o grupo realiza oficinas de teatro, dança e figurino até hoje”, explica.

Flávio Ferreira, que também é advogado, preside a Comissão de Direitos Humanos da OAB-MT e é secretário geral da Ordem, entidade parceria do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e do Sistema de Execução de Medidas Socioeducativas (GMF) do TJMT.

“Em uma das nossas visitas ao presidio, ficamos estarrecidos com as reclamações das reeducandas sobre o tratamento dispensados a elas, comentários machistas. O fato delas terem furtado, roubado, traficado não tira a dignidade. Elas estão pagando pelos crimes”, criticou.

(Foto: Assessoria / TJMT)

O diretor informa que há oito anos, o grupo e a OAB-MT empregam mão de obra de egressos, por meio da Fundação Nova Chance, instituição do governo do Estado que tem como objetivo a reinserção social de pessoas que estão em privação de liberdade e os egressos do Sistema Penitenciário.

“Esta junção de esforços do Executivo, Legislativo e Judiciário, e aqui não poderia deixar de citar o presidente do GMF, desembargador Orlando Perri, que transformou o Sistema Penitenciário do Estado, eu penso que farão toda a diferença”

Reinserção social

O Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) implantou em abril de 2019 a Rede de Atenção à Pessoa Egressa do Sistema Prisional (Raesp), mais uma ação do Programa Justiça Presente do CNJ. A Raesp é composta por 29 membros fundadores (Associação Mais Liberdade – representante dos egressos -, Pastoral Carcerária, GMF), e tem por objetivo auxiliar egressos do sistema prisional e seus familiares a terem acesso a serviços e políticas públicas, assim como a um trabalho digno.

(Da Assessoria)

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