A queda do muro de Berlim, o fato. Dissonância cognitiva, as crenças

Aguimon Alves, 16/03/2022

 

E o Muro caiu

Em novembro de 1989 caiu o Muro de Berlim. Assisti tudo pela TV e lendo jornais, tentando interpretar o fato sob o olhar da geopolítica. Tinha pouco tempo de graduação em Geografia (agosto de 1986).

Também em 1989 ocorreu no Brasil a primeira eleição direta para a Presidência da República após o regime militar (31/03/1964 a 15/03/1985).

O que esses dois fatos históricos de uma mesma época nos revelam? Há alguma relação entre eles?  Que desdobramentos políticos e sociais podemos perceber a partir daquela época?

O primeiro fato, a queda do Muro de Berlim em 1989, nos revelou a prova cabal do fracasso de um regime altamente corrupto, cerceador das liberdades individuais, políticas e econômicas. Estou falando do regime imposto pelo partido comunista da então URSS, decorrente da Revolução Russa de 1917.

Com o término da Segunda Guerra Mundial a Alemanha foi dividida em duas: a parte ocidental ficou nas mãos dos EUA, Reino Unido e França e a parte oriental ficou sob a tutela da URSS. Mas a capital da Alemanha, Berlim, ficou totalmente dentro do território dominado pelos soviéticos. A cidade também foi dividida em duas: o lado ocidental capitalista e o lado oriental socialista. O muro isolava todo o lado ocidental formando uma ilha capitalista cercada pelo regime de partido único por todos lados.

O segundo fato, a primeira eleição direta após o regime militar para a Presidência da República em 1989, disputada entre o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Affonso Collor de Mello, nos revelou o empenho político de membros de categorias profissionais formadoras de opinião (artistas, escritores, jornalistas e professores e até uma parte da igreja católica) que apoiavam o referido sindicalista, candidato do PT – Partido dos Trabalhadores.

Tais categorias se inspiravam na matriz ideológica do mesmo regime que mantinha o Muro de Berlim em pé. De fato, isto é uma dissonância cognitiva. Enquanto os países do Leste da Europa lutavam contra as ditaduras comunistas, aqui no Brasil a classe dita esclarecida lutava para eleger um governo cujos mentores sonhavam com o entulho político rejeitado por vários países europeus. Infelizmente o desmoronamento do Muro de Berlim não beneficiou a América Latina. O entulho ideológico atravessou o Atlântico e se reinventou na América Latina. Felizmente naquela época o petista não venceu, embora o candidato vencedor (Collor) não representasse as mudanças necessárias. Mas era o que se tinha naquele momento.

O que é dissonância cognitiva? 

Mas, antes de prosseguir, convém explicar para o leitor o que é dissonância cognitiva. Em rápidas palavras, trata-se de uma teoria desenvolvida pelo psicólogo Leon Festinger em 1956 que consiste na discrepância entre o que uma pessoa acredita e o que de fato aconteceu ou acontece no mundo real. Mesmo quando são apresentadas ou surgem evidências contrárias as suas crenças, o indivíduo encontra uma forma de resolver a dissonância cognitiva da seguinte forma: justifica que a teoria embasadora de seu pensamento nunca foi colocada em prática ou, simplesmente, nega os fatos. Mais aprofundamento veja a obra “Teoria da Dissonância Cognitiva” (Leon Festinger – editora Zahar, 1975).

Também é comum a busca por culpados pelo fracasso da teoria defendida. Culpa-se os capitalistas, os neoliberais, a sociedade patriarcal, os fascistas e assim por diante. Desta forma, as coisas viram uma espiral infinita de justificativas sem nexo quando não se deseja rever conceitos e mudar comportamentos. Novos culpados abstratos vão sendo incorporados à medida que surgem novas necessidades para justificar o injustificável.

Agora que o caro leitor já tem uma ideia, ainda que em poucas palavras, sobre dissonância cognitiva, retorno ao tema.

Em dezembro de 1990 o povo polonês elegeu o líder sindical Lech Walesa, reconhecendo sua luta contra o regime comunista. Foi a primeira vez que os poloneses votaram após quase cinquenta anos de ditadura tutelada pelo partido comunista da União Soviética (URSS). Mas, diante deste cenário aqui no Brasil, as classes mais esclarecidas lutavam para colocar no poder um sindicalista cuja ideologia partidária provinha da mesma raiz ideológica ditatorial que o povo da Polônia tinha derrubado naquela época.

O ano de 1989 e seguintes foram marcados pela rejeição das ditaduras comunistas no Leste Europeu, tais como, Hungria (junho de 1989); Alemanha Oriental (novembro de 1989); Romênia (dezembro de 1989); Bulgária (janeiro de 1990); Lituânia (março de 1990); Tchecoslováquia (julho de 1990); Letônia e Estônia (agosto de 1991); Ucrânia (agosto de 1991); Albânia (1992); desintegração da Iugoslávia (1992) etc. Todos esses países viviam sob o modelo de economia socialista.

A despeito dessas realidades do outro lado do Atlântico, 13 anos depois daquela primeira eleição direta no Brasil (1989), os brasileiros elegeram em 2002 o número 13 que ficou 13 anos no poder (de 2003 a 2016). É um paradoxo que, em plena democracia, tenha sido eleito um governante de um partido (PT e legendas apoiadoras) cuja matriz ideológica remeta aos ditadores de regimes comunistas. Claramente os líderes desse partido e de outros similares se identificavam (e ainda se identificam) com vários ditadores (Stálin, Mao Tsé-Tung, Fidel Castro, Muammar al-Gaddafi, José Eduardo Santos, Hugo Chaves etc.). Inclusive silenciam sobre as atrocidades praticadas por Vladimir Putin ao invadir a Ucrânia (fev/2002), não por razões diplomáticas, mas por simpatia e desejo do ressurgimento da antiga União Soviética.

A classe formadora de opinião (inúmeros artistas, intelectuais, professores em geral e também muitos jornalistas) não se importou com esta incoerência. Será que tais formadores de opinião não percebiam que a oposição ao então regime militar aqui no Brasil (1964-1985) nunca teve por objetivo implantar a democracia? Se isto não fosse verdade, por que existia (e ainda existe) tanta admiração pelo ditador Fidel Castro e pela então União Soviética ao mesmo tempo que se fazia (e ainda se faz) a demonização dos Estados Unidos? O objetivo real naquela época era a implantação de outro tipo de ditadura, infinitamente mais repressora.

Todo o julgamento ao regime militar tem que ser feito à luz da geopolítica das décadas de 1960 e 1970. Não considerar os fatos daquela época significa analisar as coisas com total parcialidade. Não se trata de defender ou condenar aquele regime, mas de analisar o contexto da época para entender ambos os lados.

Mudou o contexto histórico, mudou também as estratégias

O tempo passou, o contexto histórico mudou a partir da queda do Muro de Berlim, novas estratégias foram adotadas: apropriar-se do discurso democrático para tomar o poder e acelerar o aparelhamento das estruturas estatais (sobretudo instituições de ensino). Tal empreitada, já em curso muito antes da queda do Muro de Berlim, tem por objetivo colocar o máximo possível de obstáculos e até mesmo impedir a divulgação de qualquer outra visão de mundo diferente do progressismo, termo que passou a ser adotado por conta do desgaste político dos termos “socialismo” e “comunismo”. Não há melhor território para colocar o plano em prática do que as escolas e universidades. Todos os formadores de opinião passam pelas instituições de ensino (jornalistas, escritores, artistas, promotores, juízes, advogados, políticos, professores etc.).

Desde a primeira tentativa de eleição em 1989 do partido simpatizante das ditaduras de estimação, a referida classe formada de opinião ainda continuou ao longo de mais três eleições para reeleger seus preferidos, a despeito dos escândalos do mensalão, do petrolão e de todos os esquemas de corrupção que migrou do varejo para a corrupção no atacado, conforme revelados nas diversas operações da Lava Jato (mar/2014-fev/2021) que resultou em inúmeras condenações e devolução aos cofres públicos de vultosa verba. Mas o mecanismo é muito forte. Parece que 13 anos no poder foram suficientes para aperfeiçoar a dissonância cognitiva. (Sobre o petrolão sugiro o livro “A Lava Jato e os Petroladrões”, Ivo Patarra).

Após tanto tempo desde a queda do Muro de Berlim (1989) boa parte da classe formadora de opinião ainda continua sonhando com a matriz ideológica de um regime que os países do Leste Europeu rejeitaram há décadas. Para explicar porque o regime de economia socialista fracassou, já surgiu um contorcionismo linguístico para narrar que o verdadeiro socialismo nunca existiu.

Definitivamente o aprendizado no Brasil é muito demorado. Será que a aula de história, lecionada em 1989 a céu aberto em Berlim, ainda não surtiu efeitos do lado de cá do Atlântico? Será que os livros de história do ensino básico não contaram a verdadeira história do Muro de Berlim?

O tal Muro teve sua construção iniciada no dia 13/08/1961 pelo regime comunista da Alemanha Oriental. O objetivo era cercear o direito de ir e vir dos indivíduos, pois milhares de pessoas já tinham migrado de um lado para o outro. A fim de impedir que esse fluxo escancarasse as assimetrias entre os modelos de economia capitalista e socialista, restou aos ditadores a construção de um muro iniciado rapidamente a noite e de surpresa, deixando famílias e amigos separados. Os habitantes de Berlim Oriental ficaram impedidos de terem acesso às informações divulgadas em Berlim Ocidental que ficou totalmente murada e passou a ter contato com o mundo exterior por meio de ponte aérea. Muitos que tentaram fazer a travessia do Muro foram fuzilados.

Será que muita gente por aqui ainda vive no lado oriental do Muro de Berlim? Será que nunca tiveram a curiosidade de dar uma olhadinha para o outro lado? Infelizmente ainda existe um muro imaginário quando vejo autores não alinhados com a esquerda (ou progressismo) sendo depreciados pelo que escrevem. Depreciar o autor sem ler os seus textos é uma tática desonesta praticada por quem cerceia a liberdade de leitura com visões não marxistas. Quem sofre de dissonância cognitiva tenta resolver o problema ridicularizando ou depreciando o autor que diverge de suas convicções. Não se argumenta contra as ideias, mas contra o autor. Odiar uma pessoa é um ato cognitivo primário, facilmente exercitado. Mas refutar as ideias de alguém exige-se complexidade de raciocínio.

Os regimes comunistas liderados pela então URSS eram predadores que aniquilavam seus opositores, seja nos campos de trabalhos forçados (Gulags), seja nos paredões cubanos. Trata-se de um padrão de conduta que elimina os adversários e isto não se justifica para alcançar o desenvolvimento econômico. Já nos territórios fora dos domínios totalitários, a tática é apropriar-se dos meus culturais para não divulgar outras visões de mundo. A julgar pelo palavreado que partem de supostos educadores, parece-me que ainda não nos livramos de quem acalenta o prazer pelo cerceamento às liberdades de pensamento. Para os amigos, tudo se justifica; já para os adversários, cabe uma dialética negativa em qualquer direção. É por isso que só os muros dos outros são demonizados nos livros didáticos, nos noticiários e nas salas de aula.

A construção de um muro invisível, a metamorfose e a dialética negativa

O Muro de Berlim caiu em 1989. A URSS desapareceu oficialmente em 1991. Mas aquele socialismo que desmoronou com o Muro se reinventou e está mais vivo do que se imagina. O regime apenas trocou de aparência e estratégias. Os súditos se autodenominam de “progressistas”. Só os mais fundamentalistas conservam orgulhosamente os termos originais.

As palavras socialista e comunista estão desgastadas por razões óbvias, e agora a tendência é a migração para o termo “progressista”. À medida que se percebe o desgaste de um termo, substitui-se por outro. Quando você reencontrar um velho amigo que se dizia socialista ou comunista, ou até mesmo de esquerda e disser que agora é progressista, não significa que ele tenha mudado de ideia. Pelo contrário, ele é apenas um seguidor de uma cartilha que talvez nem saiba de onde vem.

O termo “progressista” aparentemente não se identifica com uma ideologia, pois transmite a ideia de avanços defendidos pelo liberalismo econômico, que busca a transformação da sociedade em algo melhor, mas sem rupturas que possam desaguar em regimes totalitários. Por outro lado, a apropriação do termo pela esquerda, em substituição ao termo “socialista”, defende que o progresso depende da tomada do poder estatal como solução para os males sociais. Que o progressismo significa o enfrentamento de todos os males provocados por liberais e conservadores.

De forma engenhosa a esquerda se apropriou de um nome bonito para iludir as novas gerações que desconhecem os dois lados da história. A velha narrativa de luta de classes entre burgueses e proletários sucumbiu diante dos avanços positivos da economia de mercado, por isso o foco dos discursos saiu da economia e se concentrou na cultura. Daí as críticas que ridicularizam o cristianismo, a família tradicional, o hétero, a escola conteudista e tudo onde for possível identificar algum traço de uma suposta cultura opressora. Tudo isto tem forte apelo emocional junto às novas gerações.

O crítico, que está a serviço da causa, é um dialético negativo, e se apresenta como alguém progressista adepto da modernidade e dos avanços sociais, alguém entrincheirado lutando contra os valores retrógrados do conservadorismo. Mais adiante retorno ao dialético negativo.

Naquele ano de 1989 caiu um muro físico e ergueu-se um muro invisível, mais eficiente porque silencia as vozes do contraditório para impedir que as pessoas fujam para o outro lado. Impedir o antagonismo no território (sistema educacional) onde o dialético crítico está entrincheirado é uma forma de manter de pé o Muro de Berlim. Sem o princípio do contraditório todos se submetem ao mesmo discurso e se tornam adeptos do pensamento único. Sem parâmetros referenciais não se forma o próprio pensamento.

Aliás, o princípio do contraditório só é invocado pelos progressistas (esquerda) quando se trata de defender quem tenha o mesmo alinhamento. Mas quando se trata de reconhecer o direito de alguém pensar diferente dentro ou fora dos territórios das instituições de ensino, então nega-se o contraditório. Na melhor das hipóteses dificulta-se manifestações com outras visões de mundo. Em regra, a militância progressista (esquerdista) invade o espaço onde ocorre a palestra e com fortes alaridos ofensivos repetem a palavra “fascista”. Ou qualquer outro termo igualmente pejorativo. Só a esquerda se acha no direito de promover palestras e seminários dentro das instituições de ensino e ainda tem a audácia de chamar de debates as palestras em que só há palestrantes convergentes. Sem contraditório não há debate. Há apenas um público cativo concordando ou apenas silenciando sobre o que escuta.

O fato é que estamos lidando com um regime que troca de aparência e linguajar a cada cenário histórico. Se antes era ateu, agora finge ser religioso; se antes era homofóbico, agora defende os homossexuais; se antes era sexista, agora defende as causas feministas; se antes era indiferente aos danos ambientais, agora são ambientalistas; se antes matava criminosos, agora defende os direitos humanos dos bandidos, se antes prendia seus opositores, agora se diz perseguido quando seus líderes são levados à justiça e são presos, e assim por diante.

Mas esta metamorfose tem como suporte a dialética negativa. Trata-se de um método criado pela escola de Frankfurt que pregava o enfrentamento de tudo que existe sob o aspecto negativo. Como não era mais possível explorar a velha luta de classes entre burgueses e proletários, tendo em vista a fase distributivista do capitalismo, então se começou a procurar contradições no âmbito cultural. Critica-se o casamento, a família tradicional, a maternidade, o heterossexual, a classe média, a educação tradicional, o cristianismo, o trabalho, a lei, a moral etc., tudo onde for possível encontrar alguma falha a ordem não é dialogar em busca de correções dos defeitos, mas destruir, transformar em algo totalmente ruim. Criou-se o crítico que está acima da realidade, o crítico que censura quem o critica.

O dialético negativo não tem como primeiro plano o reconhecimento de direitos, por exemplo, de quem prefere outro formato de família ou de quem se reconhece sexualmente diferente do hétero ou, ainda, a crítica do dialético negativo não visa apontar erros em pessoas específicas e nas instituições para depois cobrar correções e ajustes, já que vivemos numa sociedade baseada nas liberdades individuais. Sendo assim, o papel do dialético negativo é ridicularizar todas as instituições e condutas morais supostamente vistas como obstáculos a sua própria visão de mundo.

Vejamos um exemplo: a família, que passou a ser pejorativamente chamada de “tradicional”, é uma instituição conservadora porque preza pela conservação dos elos entre os seus membros ao estabelecer certas regras de conduta. A primeira proteção ao ser humano emana da família. Os erros ou excessos de rigidez não podem ser utilizados como pretexto para ridicularizar ou destruir a instituição como um todo. Estimular propositadamente o conflito de gerações e colocar filho contra pai, estimular as diferenças e conflitos entre homens e mulheres como se a regra fossem os conflitos, são métodos utilizados para corroer a instituição “família”, chamando-a de tradicional ao acusá-la de intolerante para com outros modelos familiares. E nesse pacote os héteros recebem todas denominações pejorativas possíveis.

Nada contra outros modelos familiares. Entretanto, numa sociedade baseada nas liberdades individuais as pessoas não têm o direito de fazer propaganda de suas vidas privadas na intenção de afrontar e acusar a chamada família tradicional como instituição retrógrada, fazendo da ridicularização um método de combate. Hoje em dia, levantar a voz em defesa da “família tradicional”, a depender do território onde se esteja, significa ser um retrógrado, um fascista. Inacreditável! Assim, os complementos criados para classificar modelos familiares em família tradicional ou família moderna ou qualquer outro nome, têm a intenção de antagonizar. A instituição família não deveria ter complemento e a vida privada não precisa de propaganda.

Por que as mentes totalitárias odeiam a classe média?

Exemplo comum de dialética negativa consiste em ridiculizar a classe média. Todos já devem ter visto intelectuais criticando e ridicularizando ardorosamente a classe média. Numa palestra (maio de 2013), disponível a todos no youtube, uma professora de filosofia da Universidade de São Paulo (USP) vociferou ódio ao classificar a classe média como atraso de vida, estúpida, reacionária, conservadora, ignorante, petulante, arrogante e terrorista. E prossegue dizendo que a classe média é uma abominação política porque ela é fascista e também uma abominação ética por ser violenta e, finalmente, ela é uma abominação cognitiva porque é ignorante. Escreve no youtube “ódio à classe média” ou veja o link abaixo (acesso em 11/03/2022).    https://www.youtube.com/watch?=svsMNFkQCHY&ab_channel=TBIAllNewBlog

Em outra palestra (julho de 2013), a filósofa justificou que sua fala decorreu de um contexto particular de uma discussão entre ela e um casal que a teria agredido. Daí os tais xingamentos por ter identificado o casal como pertencente à classe média.

O argumento da filósofa para fundamentar os xingamentos contra uma classe induz os incautos a grave erro. Se se identifica a classe do agressor, significa que a classe merece reprovação ou xingamentos? Identificar a classe do agressor em todas as searas da vida é uma forma de radicalizar a luta de classes. A intenção é gerar discórdias e dividir as pessoas. Veja a seguir como funciona a estratégia.

A velha ideia de uma luta de classes no âmbito econômico que identificava os burgueses como opressores e os proletários como oprimidos nunca surtiu os efeitos desejados. A evolução industrial e o acesso a bens de consumo em geral acabaram neutralizando as pretensões de uma ditadura do proletariado nos países mais industrializados.

Já que não foi possível o socialismo vencer no campo econômico, então, de forma engenhosa, os intelectuais a serviço da causa começaram a explorar exaustivamente os dramas pessoais e os conflitos em geral que ocorrem em todos os grupos sociais. Por exemplo: as desavenças no âmbito familiar começaram a ser politizadas para estimular o movimento feminista e seus simpatizantes a condenarem os homens em geral. O objetivo principal não é acusar o indivíduo agressor e cobrar a devida punição, mas depreciar a classe “homens” (maridos, namorados) com o pejorativo de classe opressora. A propaganda político-ativista consegue transformar uma pequena parte de agressores como sendo a maioria dos homens. A partir daí fica fácil construir e alimentar uma luta de classes identificada como homens X mulheres.

Outro exemplo bastante comum é a depreciação da instituição polícia militar. Muitos militantes da imprensa, do mundo artístico e das salas de aula, estão sempre atentos para qualquer ato ilícito cometido por um policial. Imediatamente a propaganda ativista começa a associar a classe com o fascismo e o racismo. O foco principal não é o policial agressor, mas sim a classe como um todo. As narrativas descarregam o ódio sobre a classe por inteiro, como se todos os policiais fossem criminosos em potencial.

A mesma lógica dos dois exemplos anteriores se aplica em todos os grupos onde for possível identificar pessoas em conflito. Como já mencionado, a meta não é identificar o indivíduo agressor e responsabilizá-lo, mas, sobretudo, identificar a classe à qual ele pertence e se é possível dizer que a sua classe é opressora. Se for uma mulher que tenha atirado no marido, jamais haverá uma narrativa contra as mulheres. Da mesma forma, se for um bandido matando um policial, também não haverá narrativas contra a classe dos bandidos. Pelo contrário, as vítimas ainda podem ser acusadas de provocadoras. O marido porque tinha relacionamento extraconjungal e o policial porque anda armado e tem como função prender ou revidar a ação dos bandidos. E qual é a propaganda que vem a reboque: incentivar o relacionamento conjugal entre mulheres porque os homens são naturalmente violentos e desmilitarizar a polícia.

Voltando ao caso da filósofa, que não abre mão da boa remuneração que recebe da USP, e cuja renda a coloca no seio da classe média, ela foi aplaudida por uma plateia também pertencente à classe média.

A classe média foi violentamente acusada e as pessoas que dela fazem parte aplaudem. Se isto não é dissonância cognitiva, então não sei o que é. Basta que uma autoridade universitária crie uma tese para ser seguida como uma verdade absoluta?

A rigor, a classe média não é uma classe propriamente dita, pois ela não tem identidade política e nem homogeneidade. Há no grupo “classe média” indivíduos com inúmeras diferenças que jamais permitirão o totalitarismo da igualdade. São vários graus de renda, tipos diferentes de religiosidades, objetivos e valores culturais variados, graus de instrução e tipos diversificados de profissões. Entretanto, é o fator renda que criou a ideia de classe média. Seus componentes estão acima da pobreza, mas abaixo da grande riqueza.

A classe média é fruto do desenvolvimento do capitalismo, daí o desprezo de vários intelectuais. Apesar de criados no seio da própria classe média, eles veem o capitalismo como um regime opressor, como se em épocas anteriores pobreza e miséria fossem condições sociais desconhecidas. Aliás, não havia meio termo: ou os indivíduos viviam na pobreza/miséria ou faziam parte de um pequeno grupo de nobres, portanto, impossível a mobilidade social.

Ainda que o modelo de economia de mercado tenha falhas, não há dúvida que é o único modelo socioeconômico que possibilita a mobilidade social. Cabe ao estado garantir a liberdade econômica e fazer as compensações para corrigir as falhas de mercado. Também cabe ao estado monitorar e impedir a formação de monopólios e oligopólios que impedem a concorrência. Em outros termos, impedir a formação do capitalismo de compadrio.

Muitos que se dizem pensadores e são escritores e palestrantes não entendem que as suas próprias existências, enquanto intelectuais foram proporcionadas por conta do progresso do sistema que eles próprios abominam. Um gigantesco número de pessoas que tanto critica a economia de mercado ganha dinheiro escrevendo livros, peças teatrais, roteiros de filmes, lecionando, produzindo músicas e por aí vai. Fazem o que gostam e vivem confortavelmente. E muitos até se tornam ricos. Se a economia de mercado, com todas as suas falhas, é ruim, então não sei o que seria melhor. Quem vivia confortavelmente em tempos pretéritos apenas dando palestras e escrevendo livros? O sistema que alimenta os intelectuais é ridicularizado e “criminalizado” pelos próprios beneficiários e outros igualmente beneficiários ainda aplaudem. De novo eu pergunto: se isto não é dissonância cognitiva, então não sei o que é.

Mas por que tanto ódio e desprezo à chamada classe média? Porque é o tamanho deste grupo que determinará o avanço ou o recuo de pessoas com ideias totalitárias e defendem políticos que se acham salvadores da pátria. Não estou falando do totalitarismo clássico que nos remete ao Hitler ou Stalin, mas de outras formas de totalitarismo onde o dominado aplaude quem o ridiculariza e ainda se acha uma pessoa esclarecida e que é ela a porta voz da verdade para os amigos ignorantes.

Infelizmente uma parcela da classe média já foi cooptada e conspira contra ela própria. Quando ela for quantitativamente pouco representativa e mais da metade da população depender exclusivamente do estado para sobreviver, então significa que o totalitarismo já está próximo ou até mesmo implantado e a classe média não decide mais as eleições. Os estômagos vazios é que tomarão as decisões eleitorais. Criação de programas sociais em grande escala não deveria ser motivo de orgulho para os governos, pois é uma demonstração da incapacidade de criarem condições para geração de empregos. A manutenção da pobreza serve para avolumar as vozes que apontarão os culpados de sempre: os imperialistas, os fascistas, os neoliberais e qualquer outra abstração que couber nas mentes dos doutrinados.

Ainda na seara da dissonância cognitiva, outro exemplo corriqueiro são os discursos de políticos que, quando estão fora do governo criticam as situações econômicas criadas por eles próprios quando estavam governando. Por exemplo, criticam os banqueiros, mas foram responsáveis pelo oligopólio do sistema financeiro aqui no Brasil. Criticam os grandes empresários, mas os favoreceram com empréstimos a juros módicos e assim por diante. Os doutrinados conseguem estabelecer justificativas para fundamentar tais contradições. São especializados em relativizar tudo que possa interessar à causa progressista.

A retórica contra o capitalismo

Conforme o leitor já deve ter percebido, a fase histórica atual do que se denomina socialismo (progressismo) não é mais a luta contra o capitalismo, embora a militância desinformada pense que isto está sendo feito. Após a lição aprendida com o fracasso das experiências econômicas na URSS e no Leste Europeu, a reinvenção do sistema, que apenas almeja o poder, encontrou mecanismos para alcançá-lo por meio daquilo que os próprios seguidores dizem que estão combatendo.

Nas democracias ainda não amadurecidas existe uma estratégia de líderes políticos “invisíveis” para cooptarem grandes capitalistas. Oferecem vantagens em troca de permanente apoio político e econômico para a perpetuarem no poder de um determinado grupo político. Estou falando do capitalismo de compadrio (já mencionado) ou do capitalismo de estado, modelo que aniquila a concorrência.

Os bilionários não gostam da concorrência, dá muito trabalho e é preciso constante vigilância para não perderem mercados para o concorrente. É mais cômodo deter um monopólio ou fazer parte de um oligopólio, coisas bem diferentes da essência do verdadeiro capitalismo: a concorrência. Nem sempre o grande capital se afasta dos políticos desprovidos de quaisquer valores morais que fazem de tudo para chegarem ao poder. Cabe ressaltar que, em busca de lucros fabulosos, grandes empresas se renderam ao regime nazista alemão. Mas este é um tema para outro artigo.

Novamente apelo para a chamada classe média, produto do capitalismo concorrencial. Por ser conservadora, no sentido de não se aventurar por caminhos desconhecidos, este grupo tende a se afastar de candidatos que representam ameaças as suas conquistas, pois os pais querem transmitir seus bens aos filhos. Se este grupo representar mais da metade da população que, mesmo pagando altos impostos pouco uso faz dos serviços estatais, neste caso, significa haver obstáculos aos aventureiros que se apresentam como salvadores da pátria. Daí a estratégia de desconstruir a classe média e transformá-la em algo repugnante, pelo simples fato de seus membros terem conquistados direitos inerentes à propriedade (imóveis, veículos etc.).

Foi o caos econômico e a pobreza generalizada na Alemanha antes da Segunda Guerra Mundial que proporcionou a ascensão de um regime totalitário que todos sabemos no que deu. Não haverá salvadores da pátria se a classe média constituir a maioria da população. Seria impossível o surgimento de um totalitário neste cenário.

Quando há uma enorme classe de proprietários, aventuras políticas são dificultadas. Mas quando o lugar comum é a pobreza, basta garantir aos pobres a comida e alguns bens de consumo duráveis para que os corruptos e ditadores se perpetuem no poder. E a pequena classe média fica espremida, apenas pagando impostos, sem reação e sendo demonizada.

Mais dissonância cognitiva

A intensificação das ridicularizações e atribuições pejorativas são os primeiros passos para substituir, a passos largos, o modus vivendi de uma sociedade por algo que não se sabe a quem irá beneficiar.

Já é perceptível, para quem é mais atento, o processo de ridicularização de quem é hétero, sempre que aparece um evento que possibilita associar violência à heteronormatividade (termo pejorativo para se antagonizar de forma hostil a qualquer outra sexualidade diferente do hétero).

Desde cedo os jovens são bombardeados diariamente nas instituições de ensino em geral por militantes que se apropriaram das virtudes. Apresentam um pacote de opções sexuais como se a sala de aula fosse um grande armário que expõe as roupas da moda. Acham que estão fazendo um bem defendendo valores individuais. Mas, intencional ou não, estão fazendo propaganda sexual de práticas que só interessam à vida privada. Muito diferente de se cobrar respeito ao ser humano, independentemente de seus gostos privados.

Obviamente que, de forma geral, a maioria dos jovens passa incólume pela escola. Mas e aqueles que assimilarem os discursos que ridicularizam os héteros? O que pode ocorrer mais adiante? Talvez nada. Talvez uma tomada de consciência de se reconhecerem o quanto foram ridículos em busca de pertencimento a um grupo. Talvez o gatilho de uma crise existencial ou de uma depressão. Talvez algo pior. Cada pessoa tem uma resposta diferente diante daquilo que lhe é ardilosamente apresentado de forma exaustiva como uma opção de escolha, sobretudo quando o ardil tem foco na criança e no adolescente.

Toda sociedade é fruto do acúmulo de séculos de conhecimentos e tradições. Por isso, as gerações presentes não devem ridiculizar seus antepassados. Têm a obrigação de compreender seus contextos de tempo e aperfeiçoar costumes e instituições, e transferir para as gerações futuras toda a riqueza de conhecimentos acumulados ao longo dos séculos. Esta é a única forma de se impedir aventuras ditatoriais e totalitárias na política.

Apagar a linha do tempo que liga o passado ao presente é uma engenharia social fabulosa. E já se percebe isto claramente no corpo discente nestas primeiras décadas do século XXI. É por isso que não se lê mais clássicos da literatura nacional ou mundial. Valoriza-se o linguajar errado e ridiculariza-se quem preza pela norma culta da Língua. O aluno que colou sem o professor perceber é valorizado pelos colegas, mas o CDF honesto é um bobo. Valoriza-se quem defende o criminoso e ridiculariza-se quem o condena. Quando já se percebe claramente tais condutas, que tipo de sociedade estamos construindo?

O fato é que estamos lidando com uma ideologia altamente flexível, que faz uso das liberdades promovidas pelo liberalismo para atacá-lo ferozmente. Trata-se de uma ideologia que está sempre se reinventando a cada fase da história e que já construiu dissonância cognitiva suficiente em busca de um só objetivo: tomar o poder e nele se perpetuar.

A narrativa da igualdade social, por exemplo, nada mais é do que um espantalho para enganar os incautos. São apenas métodos para se chegar ao poder. Socialismo, comunismo, esquerdismo e agora progressismo, são apenas nomes diferentes da mesma embalagem para camuflar o conteúdo que está muito além da compreensão dos próprios militantes.

Assim, no atual contexto histórico, a democracia é apenas mais um conjunto de regras que pode ser adaptado aos propósitos de ocasião. Agora, as armas para se tomar o poder são completamente diferentes das usadas nas Revoluções Russa (1917), Chinesa (1949) e Cubana (1959). A desinformação é arma mais poderosa do que as bombas e os canhões, porque os dominados não oferecem resistências. Eles trabalham voluntariamente pela causa e ainda chamam os outros de fascistas justamente para ocultarem o que eles realmente defendem sem saberem o que estão de fato defendendo. Se o leitor perguntar para um militante do baixo clero o significado do termo “fascista”, que é vomitado constantemente, terás uma surpresa. Faça a experiência e verás que a banalização do significado das palavras já passou dos limites. Pois as pessoas não acreditam nos próprios olhos, preferem acreditar no que os outros falam, mesmo que eles desconheçam o assunto.

Infelizmente muitas pessoas “instruídas” não enxergam obviedades primárias. É incrível, por exemplo, que os súditos justifiquem os fuzilamentos promovidos por Che Guevara dizendo que se tratava de um homem do seu tempo, aliás, o mesmo tempo que foi instaurado o regime militar no Brasil (década de 1960).

É incrível, ainda, os súditos dizerem que o verdadeiro socialismo nunca existiu. Jamais se admite os erros e as mentiras. Apenas mudam as narrativas. Trata-se de um regime cujos líderes dizem que o asfalto é branco e os súditos acreditam, e ainda repetem exaustivamente. Mais adiante dirão que o asfalto nunca foi branco, mas azul. E novamente os súditos acreditarão. Não importam o que eles veem, mas o que escutam de seus ídolos.

“Chegará o dia em que teremos que provar ao mundo que a grama é verde”. (Chesterton – 1874-1936 – dramaturgo inglês). Grande profecia! Este tempo já chegou.

  

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