A primeira frase do homem na Lua foi outra

A primeira frase do homem ao pisar na Lua foi “good luck, Mr. Gorsky” (boa sorte, senhor Gorsky) e não “é um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade”.

Quem a proferiu foi o astronauta Neil Armstrong, conversando com apenas uma das seiscentas milhões de pessoas que, naquela noite memorável, assistiam ao famoso desembarque.

Na infância, ao buscar uma bola que caíra sob a janela de um vizinho chamado Gorksky, o menino e futuro astronauta ouvira da vizinha a seguinte frase dita ao marido: “sexo oral, você quer sexo oral? Só quando o filho do vizinho pisar na Lua”.

Tinha sido um modo delicado e metafórico de negar, mas ela jamais poderia imaginar que o menino um dia chegaria à Lua.

Fiz uma crônica sobre esta variante e ela pode ser lida no portal do Instituto da Palavra, onde são publicadas todas as colunas que faço aqui semanalmente.

Já estava, então, muito batida a primeira frase proferida na Lua e, mais escritor do que professor, resolvi seguir o conselho: “quando a lenda for mais interessante do que a realidade, imprima-se a lenda”.

A recomendação aparecera em 1962 no filme “O homem que matou o facínora”, do celebérrimo cineasta americano Sean Aloysius O’Fearna ou John Martin Feeney, mais conhecido como John Ford.

Mas as frases talvez não sejam nem do cineasta nem do roteirista Warner Bellah, mas, provavelmente uma variante de “o importante não é o fato, mas a versão”, proferida décadas antes pelo político mineiro José Maria Alkmin, muito esperto, todavia não mais do que o seu conterrâneo Benedito Valadares.

Este, ao repeti-la e atribuir a si mesmo a autoria, ouviu de Alkmin: “eu invento a frase, você a repete e agora todo mundo diz que é sua”. E Benedito Valadares – também presente na expressão “mas será o Benedito?”, porque os mineiros ficaram surpresos pelos murmúrios de que Getúlio Vargas o escolheria para interventor em Minas Gerais – respondeu fechando a questão: “Isso prova que a frase está certa”. Ver texto de Ruy Castro aqui.

Vamos a outra crônica sobre o tema, pois faz cinquenta anos que a Lua e a Humanidade foram manchete em todos os jornais do mundo.

Os homens desembarcavam na Lua pela primeira vez na história de ambos naquela noite de julho. Neil Armstrong foi o primeiro a descer do módulo lunar desprendido da nave-mãe. O segundo foi Buzz Aldrin.

Michael Collins, terceiro astronauta da missão Apollo 11, que vagava por trás da face escura da Lua enquanto os dois colegas do trio perambulavam pela face lunar, foi o mais solitário dos homens naquela noite inesquecível. O que você fazia naquela noite, hein, leitor (a) de mais de cinquenta anos?

Todos nós somos de lua? A Lua também é de lua nos relatos que dela se fazem há vários milênios .“Noite alta, céu risonho, a quietude é quase um sonho”, dizem famosos versos de nosso cancioneiro, uma vez que songbook é visita estranha ao Português.

A Lua pode ser o astro protetor dos amores, mas também pode marcar flagelos para a Humanidade, a começar pelos eclipses. Desabam narrativas controversas, seja quando a deusa irrompe no imaginário mitológico ou religioso, seja quando “o luar cai sobre a mata,/ qual uma chuva de prata,/ De raríssimo esplendor”.

Nos Evangelhos, falados, escritos e documentados desde há dois mil anos, os narradores dizem que a fama de Jesus espalhou-se por ter curado doentes, entre os quais estavam lunáticos, isto é, pessoas que sofriam influências maléficas da lua, que não sabiam se cuidar, e caíam “ora no fogo, ora na água”. Tradutores modernos dizem que se tratava de gente que sofria de epilepsia e de outras doenças nervosas.

Esses enfermos – do Latim infirmus, pouco firme – foram designados nos Evangelhos, escritos originalmente em grego quase todos eles, como influenciados por Selene, um dos nomes gregos da lua. No Evangelho de São Mateus, por exemplo, procuram Jesus os “selêniazoumenous”  ou “selêniazetai”, palavras traduzidas por “lunaticus” em latim, de onde veio o Português lunático, assim definido no Dicionário Aulete:  “Que está sujeito à influência da Lua, que é amalucado, excêntrico, fantasista”.

O mundo da Lua é um mundo de mudanças e marcações. O astro serve desde eras remotas para marcar o tempo, de que são exemplos a noite, a semana, o mês. Mas também a saúde, o ânimo, a disposição etc. O étimo de mês, do Latim mensis, já estava no Grego mene. Mene era variante de Selene e as duas palavras designavam a Lua.

As quatro fases da Lua têm sido observadas há milênios, seja para cortar a madeira ou o cabelo, seja para navegar ou plantar, uma vez que o astro influencia a germinação, o crescimento, a colheita, as marés e, ponto alto, a gravidez humana, que é marcada por semanas e não por meses, embora seja convencional dizer que o bebê nasce de nove meses, menos aqueles mais apressadinhos que nascem antes. Mas, de todo modo, tal designação não é precisa porque a medição é feita por luas ou semanas, e não por meses.

Nos nascimentos, nascer com o bumbum virado para a Lua expressava sorte por quê? Porque, mesmo não tendo nascido corretamente (de cabeça), mas apontando primeiramente o bumbum, ainda assim sobrevivia num tempo em que a mortalidade infantil era estratosférica. Os antigos romanos tinham tantos filhos, que originalmente nem davam nome às meninas, e davam nomes aos meninos até ao quarto. Dali por diante eram todos numerados. Por isso encontramos tantas pessoas chamadas Quinto, Sexto, Sétimo, Oitavo, Décimo.

 Em resumo, o mundo da Lua é repleto de complexas sutilezas, benefícios e malefícios, pois quem tem poder, pode distribuir, repartidos, o bem e o mal, as bênçãos e os castigos. A uns a Lua protege e faz bem, como aos namorados; mas a outros desequilibra. Ou, pior ainda, faz oscilar sobre os indivíduos coisas diferentes conforme as fases: do astro e da pessoa.

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