A pandemia de Covid-19 e o empreendedorismo no Brasil

(Foto: Reprodução)

Carla Reita Faria Leal*
Waleska M. Piovan Martinazzo*

Na coluna de hoje, abordaremos a situação do empreendedorismo no atual cenário econômico do país.

Conforme mencionamos em uma das colunas passadas, houve um aumento do desemprego no Brasil nos últimos quatro anos. Em relação aos empreendimentos empresariais ativos, a situação não é diferente.

Em recente pesquisa do IBGE, por meio do PNAD Contínua, constatou-se que o Brasil perdeu quase 600 mil empregadores no intervalo de dois anos. Dentre estes, destacam-se os empregadores domésticos e os micro e pequenos empreendedores. Cerca de 80% dos empregadores afetados no período tinham de um a cinco funcionários. Isto gerou, consequentemente, a diminuição dos postos de trabalho, como já destacado nesse espaço, impactando e alimentando, portanto, o ciclo de retração econômica, já que com isso há menos emprego, menos renda, menos consumo, o que acaba afetando ainda mais as empresas e os empregos.

Todavia, atribuir o fechamento de empresas unicamente à pandemia é insuficiente e perigoso, até mesmo para se pensar numa reconstrução do interesse por empreender e para criar novos postos de trabalho. Podemos citar, por exemplo como um dos fatores que complicaram a reestruturação das empresas: o retardamento na implementação de medidas de contenção da COVID-19, o que prolongou o período crítico da pandemia no Brasil. Além disso, a Reforma Trabalhista de 2017, com a flexibilização de muitas garantias do trabalhador, trouxe opções contratuais sub-remuneradas e sub-empregos que restringiram a renda e que, por consequência, reduziram o mercado consumidor.

Soma-se a isso a ausência de políticas públicas federais que estimulem o consumo, bem como a dificuldade de planejar políticas públicas sociais corretamente devido ao cancelamento do CENSO de 2020.

Ressalta-se que, mesmo com a queda do número de mortos diários pela COVID-19 e com a aceleração da vacinação no país, o segundo semestre de 2021 não está trazendo números tão animadores. A variação do índice de volume de vendas do comércio varejista atingiu índice mais baixo do ano em agosto. Houve, também, uma queda contínua da produção da indústria nacional, segundo o IBGE.
Conforme dados do SEBRAE, o empreendedorismo predominante no Brasil atual é o chamado “empreendedorismo por necessidade”, ou seja, surgido quando o empreendedor está, na verdade, desempregado há um certo tempo e não consegue novo emprego. Este empreendedor é diferente daquela do empreendedor por oportunidade, que possui capital para abertura de uma empresa e vê em um nicho de mercado uma oportunidade de negócios. O empreendedor por necessidade pode enfrentar problemas como a informalidade, a falta de apoio e planejamento e, por óbvio, a falta de capital a ser investido.
Com o gradativo controle da pandemia, os países pelo mundo se articulam para implementar planos de recuperação de sua economia. Na Itália e na Espanha, por exemplo, já se estruturaram Planos Nacionais de Reconstrução Econômica Pós-pandemia, aprovados pela União Europeia. No Brasil, o governo federal chegou a apresentar um esboço de programa de recuperação chamado “Pró-Brasil”, isso no ano passado, o qual traria diretrizes para que estados e municípios pudessem retomar as suas atividades econômicas. Contudo, este plano não evoluiu.
De fato, é muito simplista e irresponsável delegar a recuperação da economia do país apenas ao potencial criativo e empreendedor do brasileiro, tão festejado aqui e ali. É urgente e necessário a elaboração de políticas públicas para fomentar a economia e os negócios no Brasil.
Por outro lado, também é necessário pensar em empresas bem estruturadas, fator que, somado à inovação, ao uso da tecnologia, ao planejamento, ao investimento financeiro e ao compromisso ambiental e social, em especial no tocante ao respeito aos direitos e à dignidade do trabalhador, causarão impactos positivos de longo prazo.

* Carla Reita Faria Leal e Waleska M. Piovan Martinazzo são membros do Grupo de Pesquisa sobre o meio ambiente do trabalho da UFMT, o GPMAT.

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