“A necessidade faz”: indígenas venezuelanos acampam na rodoviária de Cuiabá

Eles sonham ter uma parada definitiva, onde possam reconstruir a vida

(Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

Vinte indígenas venezuelanos da etnia Warao se instalaram desde 1º de janeiro em um dos canteiros do viaduto de acesso a rodoviária de Cuiabá. Eles estão em um acampamento improvisado, onde a cobertura é feita por lonas a partir da sustentação de caibros.

Dentro do espaço, esticaram redes que se tornaram o único espaço individualizado. O restante da área está ocupado por sacos plásticos com roupas doadas e algumas cestas básicas, também fruto da solidariedade dos cuiabanos.

A situação é para lá de precária e eles ficam entre as moscas, que rondam um local destinado ao lixo e a poeira do chão.

Ao lado da grande barraca, as mulheres lavam as roupas e as estendem em varais presos às árvores.

Acampamento, feito de lonas, fios e redes, abriga 20 indígenas venezuelanos  (Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

Entre eles estão cinco crianças, sendo que uma delas já nasceu em solo brasileiro.

Gilda Alessandra, 23 anos, conta que eles estão na estrada há muito tempo e vieram se deslocando aos poucos.

Saíram de um sítio no Estado de Monagas, na Venezuela, onde moravam com toda a família. Lá, não tinha mais comida, remédios ou roupas e as pessoas estavam passando fome.

Por este motivo, eles resolveram reunir o grupo e seguir em busca de trabalho.

Indígenas e não-indígenas

Gilda diz que eles procuram um lugar onde possam fazer uma morada fixa e que esperam que este lugar seja Cuiabá.

Quando questionada sobre os motivos de não recorreram a Pastoral do Imigrante ou outra instituição assistencial, ela conta que existe uma rivalidade muito grande entre os venezuelanos indígenas e não-indígenas.

Famílias vieram para o Brasil fugindo da fome e querem ficar definitivamente (Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

O preconceito acompanha os venezuelanos desde o país de origem e, agora, se agravou. Os não-indígenas se recusam a ficar no mesmo ambiente que os indígenas e chegam a ameaçá-los quando isso acontece.

Neste momento, onde todos lutam pela sobrevivência, muitas vezes, os conflitos acontecem nos semáforos ou em pontos estratégicos da cidade, usados para pedir doação.

“Nós somos todos venezuelanos e devíamos viver bem”.

Rotina difícil

Semáforos e canteiros de Cuiabá são pontos cobiçados pelos pedintes. No caso da família de Gilda, existe um rodízio.

Pela manhã, um grupo sai em busca do sustento e outro fica no acampamento com as crianças e cuidando das coisas.

A tarde, as funções são trocadas.

Muitas doações chegaram e solidariedade ajuda os venezuelanos que não têm nada (Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

“Esperamos um grupos chegar para comprar lenha para cozinhar e um frango. Quando vai chegando a hora das crianças comer e ninguém aparece, ficamos preocupados”.

Faltam panelas, facas e talheres e as famílias improvisam com o que tem. Chegaram algumas cestas básicas e, sozinhas, elas matam a fome quando não há “mistura”.

No entanto, não há como ficar sem a lenha.

E apesar de todas as privações, Gilda diz que a família tem dois desejos: ter um lugar fixo para se instalar e uma forma de transportar parte dos alimentos que eles ganharam para a Venezuela.

“Lá, eles estão passando fome e queríamos poder dividir”.

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