A hora e a vez do Distributismo

Abramos nossa inteligência e vontade para investir, com toda perseverança e fortaleza, nas ações coletivas

(Foto de Toa Heftiba on Unsplash)

Já não era sem tempo. Após quase cem anos de discussões teóricas e tentativas tímidas de ação, toneladas de retórica e alguma boa vontade, surge, por um feliz desígnio das circunstâncias, uma oportunidade de ouro: a “coronacrise”.

Oportunidade de ouro não somente para os fabricantes de álcool em gel e filmes on demand, mas também para aqueles que se entusiasmam e enxergam elementos de verdade na filosofia econômica divulgada inicialmente na Europa, no início do séc. XX, por intelectuais do calibre de G.K. Chesterton e Hilaire Belloc.

Falo do Distributismo, um conjunto coerente de ideias que se propõe a derrubar os grandes Golias que têm assombrado a vivência material humana: o capitalismo e o socialismo. Nele, busca-se o equilíbrio entre propriedade e trabalho, sem outorgar a alguma elite – seja política, seja financeira – o direito de enriquecer e concentrar poder às custas dos esforços de milhões de pessoas absolutamente jogadas para escanteio nas decisões produtivas.

Digo que este é o momento e esta é a hora por um motivo tanto claro quanto trágico: o doloroso efeito colateral que as medidas de prevenção contra o coronavírus acabaram gerando – e que ainda vão gerar.

Os enormes prejuízos para as pequenas empresas, muitas das quais talvez cheguem a fechar, terão como provável resultado um favorecimento ainda maior que o atual de alocação de recursos produtivos nas mãos daqueles que disponham de maior resistência financeira a crises, o que é sinônimo de mais concentração de produção e renda.

Como arma contra esse cenário de perdição, podemos contar com a aplicação de um dos princípios distributistas: a subsidiariedade. A ideia é simples: toda iniciativa que possa ser tomada em pequena escala deve sê-lo pela própria comunidade por ela atingida, sem esperar a vida inteira por ações estatais, que talvez nunca cheguem.

Em termos de convivência urbana, por exemplo, é o grupo de moradores de determinado bairro que combina uma ação coletiva de capinar, limpar e fazer leves reformas nas ruas próximas durante os tempos vagos, podendo transformar o espaço urbano de maneira espantosa (em Várzea Grande (MT), isso já acontece há alguns finais de semana).

Em termos de economia, é a criação de pequenos grupos cooperativos, que dividem lucros e prejuízos e investem seu trabalho e recursos de maneira organizada, o que os ajuda a depender menos de empregadores pouco generosos e os fortalece perante o mercado.

Nesta época de dificuldades, ganharão muito aqueles que se unirem a outros profissionais do mesmo ramo, empreendendo cooperativas de costureiras, cozinheiras, pedreiros, mecânicos etc. Aliás, profissões de várias naturezas se prestam a tal modelo organizacional, como médicos, dentistas, fisioterapeutas e outros, até mesmo na área financeira.

Cuiabá completou por agora 301 anos, e já chegou o momento de percebermos que todos os cidadãos podem e devem gerar riqueza. A melhor maneira de alcançar esse objetivo, em tempos de crise, é inovar: abramos nossa inteligência e vontade para investir, com toda perseverança e fortaleza, nas ações coletivas, tanto para o cuidado com as cidades, quanto para a sobrevivência de nossas famílias.

_________________________

REFERÊNCIAS

CHESTERTON, G.K. Um esboço da sanidade. Campinas: CEDET, 2016.

CORÇÃO, G. Três alqueires e uma vaca. Rio de Janeiro: Agir, 1961.

Distributismo. Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Distributismo.

Use este espaço apenas para a comunicação de erros





Aceito que meu nome seja creditado em possíveis erratas.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Artigo anteriorGrupo Verdão doa parte dos lucros à APAE
Próximo artigoÍndio yanomami de 15 anos morre com coronavírus em Roraima

O LIVRE ADS