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Opinião

A galinha do Pantanal

Foto de Caroline Rodrigues
Caroline Rodrigues

Os ventos são favoráveis, é o que indica a nota Preços e Mercados Agropecuários de maio, divulgada pelo IPEA, CONAB e CEPEA. O documento, que faz o acompanhamento dos preços domésticos e internacionais, das perspectivas e do balanço de oferta e demanda dos principais produtos agropecuários – safra 2022-2023 – aponta para um possível recorde na produção de várias commodities agrícolas no Brasil. Ótimo contraponto para balancear a queda de 4,22% no PIB do agronegócio brasileiro, sentida em 2022 e causada – principalmente – pelo aumento dos custos de produção, como fertilizantes, defensivos, combustíveis e outros.

As questões políticas e geopolíticas tem um grande impacto. Como serão as negociações ou bloqueios aos grãos da Ucrânia para outros países consumidores? Ou, qual será a estratégia de importação do governo para os insumos? O andamento destas questões será decisivo para o resultado no setor. Em tempo: no último mês de abril, cinco países da Comunidade Europeia (Polônia, Bulgária, Eslováquia, Hungria e Romênia) proibiram a importação de grãos da Ucrânia para proteger a economia e sustento de seus agricultores. Ainda que negociações posteriores reverteram o impedimento para 4 produtos (trigo, milho, colza e semente de girassol), o fato é que se começa a observar um movimento internacional de questionamento das excepcionalidades comerciais justificadas pela guerra.

Diante da boa expectativa, há produtores que desejam aumentar a área de plantio, transformando o pasto de hoje no cultivo de amanhã, através de drenos. Vale a discussão, já que esse ponto pode, a médio prazo, incidir na manutenção das excelentes taxas de produtividade brasileira, das propriedades estabelecidas nas áreas inundáveis. O estado de Mato Grosso possui 903.357 km² e, destes, quase 11% são áreas alagáveis, constituídas por pântanos, charcos, turfas ou água natural ou artificial, permanente ou temporária, estagnada ou corrente, doce, salobra ou salgada.

Para além da definição, a questão que realmente importa é que o solo destas áreas chama-se Plintossolo e é constituído de material mineral, proveniente do ferro, que atua como agente de cimentação. Traduzindo em miúdos, uma vez drenado, este tipo de solo se transforma em uma laje pétrea – sim, esse é o nome técnico – e terá baixa fertilidade natural, acidez elevada, constituindo-se num entrave, com sérias restrições ao uso agrícola.

Plintossolo em Niquelândia – GO. Fonte: Acervo da Embrapa Solos

A ideia de drenar áreas pantanosas não é nova, nem no Brasil nem fora dele. Talvez o exemplo mais conhecido seja o caso Everglades – Flórida – uma planície alagada de 610 mil hectares. A região foi drenada e transformada em plantações e assentamentos em 1882 mas, rapidamente, deu sinais que a operação não havia ido bem com graves casos de contaminações na água e impactos gerais na economia. Em 2000, o governo dos EUA iniciou um projeto de restauração parcial do ecossistema, e a conta para salvar 2/5 do território, está avaliada em $10.5 bilhões de dólares. Segundo os especialistas, recuperar é muito difícil e muito mais caro ainda. E restaurar, impossível.

 

Isso não é uma fábula: que ninguém corra o risco de matar a própria galinha.

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