A força política dos evangélicos e seu desafios

O grande desafio do movimento evangélico é não se deixar dominar por preconceitos e ódios tribais

(Foto: Agência Brasil)

Quero tratar de outra mudança importante que aconteceu ao movimento evangélico  e que vai demandar dos evangélicos, grupo no qual me incluo, uma resposta. Por muitos anos eles eram minoria.

Os “crentes” – alcunha comum recebida pelo movimento, fossem os participantes protestantes, pentecostais históricos ou não, calmos e racionalmente cordatos, ou emocionalmente histéricos (e me refiro aqui a outra metáfora estereotípica que cerca a sua divisão interna), constituíam uma minoria perseguida e sem influência cultural ou política.

Tradicionalmente, a população católica constituía a maior religião cristã do Brasil, protegida pela elite política, cultural e financeira do país. Os outros eram pobres, ignorantes e de importância minimamente periférica para o futuro do país.

Mas este quadro veio mudando paulatinamente nas últimas quatro décadas. Como minoria, o grupo se via perseguido, amordaçado na grande mídia e sem expressão cultural.   Mas desde a primeira eleição do Lula já havia se tornado evidente que a força política dos evangélicos era como um rio de lava fervente se movendo no subsolo da nação, prestes a aflorar na superfície em forma de uma grande erupção.

Em 2002, Lula representava a moralização do governo e um olhar à pobreza e justiça social, temas sempre caros à população evangélica já então levemente desperta para o mundo político.   Tanto em 2002 como em 2006, denominações evangélicas inteiras declararam apoio aberto a Lula.

“Turma do bem”

Ser PT, na época, era escolher a turma  do bem. Lula recebeu apoio dos lados mais inesperados do movimento evangélico. Desde Caio Fábio, que era então respeitado como um dos mais brilhantes teólogos do país, capaz de transitar entre os “não-crentes” com desenvoltura e peso intelectual, até Silas Malaria e Valnice Milhomens, estes representando o extremo do movimento neo-pentecostal, vistos pela maioria mais moderada como quasi-animistas, guiados mais por sonhos, visões e profecias místicas do que pela Bíblia.

Pode-se dizer então que Lula foi então apoiado bíblica, teológica e misticamente pelos evangélicos.

A história correu e as coisas mudaram. Só o que não mudou foi a força evangélica. Essa influência apenas aumentou. Se antes o apoio à Lula chegava a partir de pastores e líderes até o povo, em 2018 ele veio de baixo. Quem decidiu se politizar foi o povão, as massas, as “tias do zap” como foram tratados pejorativamente os eleitores de Bolsonaro.

Até hoje este fenômeno das massas, das meras “ovelhas” acordando para decidir quem manda no curral, é mal interpretado pelos analistas.

O povo que apoiou Lula  imbuídos de uma  inclinação pró-petista em 2002 e 2006, foi o mesmo que despertou com furor democrático nas eleições de 2018.  Esse povo que se viu logrado por falsas promessas, traído por seus líderes políticos e religiosos, decidiu tomar as rédeas de seu destino político em suas próprias mãos.

Mas o fator que fez toda a diferença para a mudança radical do voto evangélico foi a indignação moral. A nova-moral esquerdista escarnece do “moralismo” do povo. Esse “moralismo” criticado pelos intelectuais foi o que inspirou os evangélicos a rejeitarem o político-corretismo imposto pelo poder hegemônico petista, que era impingido no país à força de lei, não era um sentimento minoritário nem estranho aos brasileiros.

Valores no Planalto

Esse sentimento foi conservado a duras penas e é o resultado de décadas de pregação do Evangelho e do fortalecimento da moral católica que sempre fez parte da cosmovisão brasileira. Desprezá-lo como se fosse um sentimento baixo, insignificante, ou confundi-lo com preconceitos e ódios tacanhos, como sugeriu a campanha petista, foi considerado inaceitável pelos brasileiros.

Hoje, depois de um ano de um governo notadamente comprometido com a vontade do povo contra a histérica e mesquinha elite intelectual e política, o povo ouve o eco de seus valores morais no Planalto. Temos um presidente que apesar de boquirroto e rude quando envolvido no calor do debate público, tem sido honesto com o eleitor. O povo evangélico é julgado o tempo todo por fazer ouvidos surdos aos impropérios que o presidente dirige contra a mídia e a sua falta de polidez.

Mas  para um povo desprezado publicamente, alvo de chacotas constantes, desdenhado por décadas, as explosões do presidente não são incompreensíveis ou condenáveis. O povo evangélico, principalmente o pentecostal, não vive do discurso, mas da experiência. A coerência moral que se demanda dos políticos não se manifesta na perfeição do discurso, mas no julgamento da prática. E aí mora a força de Bolsonaro e seus ministros.

Esqueleto exposto

Considerando-se a história do Brasil, o momento político é praticamente inédito. Mas não posso deixar de refletir que os evangélicos têm que passar no teste do sucesso. De minoria oprimida passamos a status quo.

O esqueleto moral dos evangélicos está exposto na vitrine como peça principal, para que toda a nação veja. O grande desafio agora, para que o movimento continue a ser relevante, é não se deixar dominar por preconceitos e ódios tribais.

Não podemos cair na tentação de exigir do governo uma abordagem teocrática e pretender cooptar a função do Estado de gerente/administrador da vida pública, para que se torne força moralizadora de cima para baixo, como fizeram os governos de esquerda.  O Estado tem que continuar sendo um mero servo da coisa pública. Ele não vai e não pode substituir a Igreja em seu papel essencial de educar o sentimento moral da nação.

O grande teste evangélico desta década é continuar diferenciando religião e Estado. Não podemos confundir autoridade política humana com vontade divina, e de maneira nenhuma celebrar uma casamento sórdido entre a força religiosa e o poder público, que não tem nada a ver  com o Evangelho de Cristo.

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2 COMENTÁRIOS

  1. “O grande desafio agora, para que o movimento continue a ser relevante, é não se deixar dominar por preconceitos e ódios tribais.”

    Concordando plenamente.

    Parabéns pelo artigo tão lúcido e esclarecedor.

  2. Atribui-se ao mineiro dono do antigo Banco Nacional, Magalhães Pinto, a ideia de que política é como nuvem, você olha é uma coisa, você olha de novo já mudou. A sequência do artigo e seus componentes é conhecido de estudos da evolução do protestantismo no Brasil. Em linhas gerais é isso mesmo.

    O final do artigo seu último parágrafo me chamou a atenção: (a) Diferenciação entre religião e Estado: (b) Confusão entre autoridade política humana com vontade divina; e (c) o casamento sórdido entre força religiosa e o poder público. Segundo Bráulia, isso tudo aí nada tem a ver com o Evangelho de Cristo.

    Talvez Bráulia esteja pedindo o oposto de Magalhães Pinto, uma nuvem com um formato permanente. Os três pontos que ela fez seriam uma nuvem estática. Desconheço na história do Mundo Ocidental um único momento (movimento) em que se poderia dizer que este formato ‘estático’ existiu. 100 anos depois da morte de luminares como Lutero e Calvino o ‘protestantismo’ não se tornou uma fragorosa derrota, de modo algum, mas ele simplesmente desintegrou-se, dividiu-se, multiplicou-se como ameba em todos os sentidos. Passou a ser em grande parte uma ‘força’. Seus ‘movimentos’ não durariam mais do que 100 anos. Queriam muito!

    Como isso aconteceu?
    Tenho comigo que Bráulia, como uma herdeira protestante como ela mesma declara, comete o mesmo erro ao mencionar os três pontos: “Isso aí [os 3] nada tem a ver com o Evangelho de Cristo”.

    ‘Evangelho’ é igual a ‘povo’, ambas são construto. Ambas não existem, exceto no pensamento, muito embora estão presentes. Todas as vezes que “dois ou três se reunirem em meu nome [evangelho]”, estou parafraseando Mat. 18:20, “ali [confusão] estarei”. E por ‘confusão’ me refiro ao sentido teológico da palavra em Latim, ‘confusio’. Não de desordem, tumulto, mas de naturezas que se misturam. Por exemplo, água e vinho ou água no leite, e não água e óleo (que não se misturam). Em teologia, ‘confusio’ é a palavra que se usa para afirmar que a natureza do Pai não se confunde (mistura, se perde, desaparece) com a do Filho, um descaracterizando o outro.

    No artigo Bráulia está advertindo contras 3 perigos, usando uma impossibilidade: não existe evangelho como não existe povo, como não existe ‘Cristo’, a não ser quando esses termos e outros em diferentes áreas, se ‘materializam’ em realidades objetivas, igrejas, por exemplo, instituições políticas, como os três poderes.

    O apelo de Bráulia além de inócuo, porque todos, sejam cristãos ou não, desejam o que ela deseja (basta trocar os termos), no caso brasileiro carece daquilo porque já passaram uma boa parte dos herdeiros do protestantismo: tempo, séculos, o teste das ideias no tempo, as instituições, as desgraças, como guerras, etc. Quando os protestantes no Brasil começaram a produzir astros teológicos (Caio Fábio), a Holanda (hoje mudou de nome, Países Baixos, já tinha 8 séculos de teologia e de teólogos. Politicamente só teve um astro, durou uns 30 anos.

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