A ECONOMIA DE CUIDADOS E OS SEUS TRABALHADORES

Carla Reita Faria Leal

Vitor Alexandre de Moraes

 

A Economia dos Cuidados, um termo bem abrangente, pode compreender muitas ocupações, como os serviços dos trabalhadores domésticos, aqueles prestados por cuidadores de idosos, de doentes e de pessoas com deficiência (dentro ou fora do âmbito hospitalar), além dos relativos à educação em creches e berçários. De um modo geral, quaisquer trabalhos em que sejam exercidos cuidados das necessidades dos outros, sejam remunerados ou não.

De acordo com um relatório divulgado pela Organização Internacional do Trabalho, em 2018, dois terços da população global em idade ativa gastam 16,4 bilhões de horas por dia em atividades relacionadas ao cuidado não remunerado, o que seria equivalente a 2 bilhões de pessoas trabalhando 8 horas por dia sem remuneração. O organismo internacional alerta que, se esses serviços fossem avaliados com base no valor do salário mínimo calculado por hora, eles representariam 9% do PIB global, ou seja, US$ 11 trilhões.

Por outro lado, a maior parte das ocupações com cuidados, até mesmo quando remuneradas, são vistas como trabalhos menores ou um não trabalho, o que leva à desvalorização social das pessoas que o exercem, sendo comum os baixos salários e a informalidade nessa área, apesar de sua importância.

Contudo, o que se observa é que a situação piora quando as tarefas com cuidados não são remuneradas já que são invisíveis ao mercado, i.e., excluídas das estatísticas. Ademais, quando se analisa pelo viés de gênero, constata-se uma grande disparidade, pois as mulheres realizam 76,2% do total de horas de afazeres de cuidados não remunerados, o que resulta em mais que o triplo feito por homens.

Em uma nota técnica publicada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), ligado ao Governo Federal, apontou-se que no Brasil, em 2018, mulheres trabalhadoras, inseridas nas mais diversas ocupações, dedicavam, em média, 21 horas semanais ao trabalho não remunerado de cuidado, como cozinhar, lavar roupas e vasilhas, passar roupas, limpar a casa, cuidar dos filhos, de idosos e de pessoas com deficiência, enquanto os homens trabalhadores dedicavam cerca de 11 horas semanais em atividades como realização de pequenos reparos nas residências, os cuidados com o jardim e os carros, pagamento de contas ou o lazer com os filhos.

O Instituto de Pesquisa também apontou que a situação das mulheres trabalhadoras piorou com a pandemia, como já mencionamos, pois observou-se um aumento na carga de trabalho relacionado aos cuidados nos lares em razão da suspensão de uma série de atividades e de serviços em decorrência da necessidade de isolamento social, como fechamento de creches, escolas e paralização de atividades complementares voltadas para crianças, idosos e pessoas com deficiência.

A ocupação das mulheres com atividades não remuneradas torna-se o principal obstáculo para o ingresso dessas na economia formal, o que gera desperdício da força de trabalho, afeta a sua trajetória pessoal de crescimento, impacta a produtividade empresarial e o clima organizacional e causa a rotatividade de pessoal. Além disso, afeta saúde das trabalhadoras, gera menor renda para as mulheres, precarização e exclusão do sistema previdenciário e também aumenta os riscos de surgimento de trabalho infantil.

O mencionado relatório da OIT destaca que, se investimentos em educação, saúde e assistência social fossem duplicados até 2030, quase trezentos milhões de novos empregos poderiam ser criados, isso diante da projeção do crescimento do número de crianças e idosos que surgirão até lá, ou seja, poderiam gerar muitos postos de trabalho.

Para alterar essa realidade, é necessário envidar esforços para fomentar uma cultura de equidade na distribuições das atividades de cuidados entre homens e mulheres. Da mesma forma, é imprescindível que os governos ampliem os investimentos em serviços públicos de cuidados, como a implantação de creches e escolas e de locais de acolhimento de idosos e de pessoas doentes ou com deficiência, o que não só fomentará a economia de cuidados gerando postos de trabalho, mas também permitirá que as mulheres possam ter acesso e que permaneçam no mercado de trabalho.

 

*Carla Reita Faria Leal e Vitor Alexandre de Moraes são membros do Grupo de Pesquisa sobre Meio Ambiente do Trabalho da UFMT, o GPMAT.

 

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