A carabina do padre

Circulou em várias redes sociais essa semana a imagem de um bilhete da rifa que acompanha este artigo. Não sei a origem, pois o recebi de vários amigos diferentes. Como se pode ver, trata-se de uma antiga rifa em prol da construção de uma igreja na Linha da Esperança. O “inusitado” é que o que estava sendo rifado era uma carabina semiautomática calibre .22 e mais dez caixas de munição. Resolvi fazer, então, uma pesquisa durante essa semana para tentar encontrar mais informações sobre essa curiosa rifa.

Comecemos pela arma e como ela chegou ao Brasil. Ao contrário do que possa parecer, a marca J.C. Higgins não tem origem inglesa e, sim, americana. Era a linha de artigos esportivos e recreativos que incluía bicicletas, tacos de golfe, revolveres, espingardas e fuzis, pertencente à gigante rede de loja de departamentos Sears. A carabina semiautomática provavelmente era a modelo 30, calibre .22LR, com capacidade de 18 cartuchos e fabricada para a loja de departamento pela High Standard. Levando-se em conta que a Sears se instalou no Brasil em 1949, chegando a ter onze lojas pelo país até a década de 1980, a carabina, muito provavelmente, saiu de uma dessas lojas. Sim, o Brasil já vendeu armas em lojas de departamentos como mostrei no artigo “Armas à venda na Havan”.

Como mostra a rifa, o responsável era o Padre José Orestes Preima, que pertence à Ordem de São Basílio Magno, surgida na Ucrânia. Foram exatamente os ucranianos os colonizadores da chamada Linha da Esperança, comunidade rural que se situa no município de Prudentópolis, no Paraná. A construção da nova igreja, de acordo com um estudo regional feito pela professora Cecília Hauresko da Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO), iniciou-se em 1943 por ordem do Superior Provincial dos Padres Basilianos – o Padre José Romão Martenetz – e só terminou em 1959. Sua inauguração solene, com a bênção do templo e o rito da dedicação do altar, foi oficiada por Dom José Romão Martenetz, no dia 8 de dezembro de 1959. Os sacerdotes que dirigiram a obra foram Padre Orestes Karpliuk, em seguida Padre Benedito Melnyk e finalizada pelo Padre José Orestes Preima, que assumiu a direção em 1949.

A ideia de rifar uma carabina parece hoje algo bastante inusitado, mas não era incomum em uma época onde as armas de fogo não haviam – ainda – sido demonizadas. O fato de se tratar de um padre e da construção de uma igreja só causa espanto para aqueles que, caindo na lábia marxista da CNBB, acreditam que os cristãos, em especial os católicos, devem manter distância das armas de fogo. Já falei disso em diversas ocasiões, incluindo uma palestra ministrada na Paróquia Santa Generosa, em São Paulo, a convite do meu querido amigo e escritor Rodrigo Gurgel; uma excelente entrevista para TV Católica, Rede Século 21 e o artigo “Armas e o cristianismo”, publicado na minha antiga coluna.

O interessante aqui foi como uma carabina ligou os Estados Unidos, a Ucrânia, o Brasil, a nossa colonização, a quinta maior rede de lojas de departamento do mundo e chegou até nós por um pedacinho de papel que alguém, há seis décadas atrás, guardou cuidadosamente. Eu adoraria saber de onde veio essa imagem e quiçá se a carabina ainda existe, embora eu duvide muito disso no país sem memória, onde se passa com rolos compressores em objetos históricos ou se deixa queimar museus.

Bene Barbosa é especialista em segurança, escritor, presidente do Movimento Viva Brasil, palestrante e autor do best-seller Mentiram Para Mim Sobre o Desarmamento.

Redes sociais do colunista:

Twitter – Instagram – Facebook