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Super-heróis às avessas

Foto de Cassyra Vuolo
Cassyra Vuolo

Quando o feriado se aproxima, as crianças ficam em casa e os pais precisam fazer algumas adequações nas suas agendas para conseguirem cumprir com sua rotina profissional e dar atenção aos pequenos. Quando as coisas se tornam inconciliáveis, o jeito é pedir ajuda para as tias, madrinhas, avós e quem mais puder entrar na ciranda.

O celular tocou e era Mariana, minha sobrinha, pedindo ajuda com Joãozinho que queria ir ao cinema em plena quarta-feira, no meio da tarde. Claro, eles não tinham como levá-lo e me acionaram para a missão.

[featured_paragraph]Ser madrinha de meia idade tem esses privilégios. A gente pode sair em horário comercial, curtir um cineminha com o afilhado e ainda saborear doces, lanches e sorvetes sem uma ordem exata.[/featured_paragraph]

Comprei os ingressos antecipados e pontualmente às 15h peguei Joãozinho para a sessão com os super-heróis.

Já no carro, com cinto colocado, Joãozinho disparou: “Madrinha, não sabia que tinha dia certo para sair com os nossos pais.”

“Dia certo não tem meu querido”, respondi. “Mas às vezes nós temos uns compromissos que
não podemos faltar.”

Ele levantou a sobrancelha, fez uma cara séria e, arrumando seus pequenos óculos, concluiu: “Gente grande tem sempre muito o que fazer, né?. Eu também já tenho minha agenda. Você sabia que faço muita coisa durante o dia e só consigo brincar a noite? Você acredita?”

E sorriu fechando os lindos olhos azuis.

Sacudi a cabeça concordando e pensando como minha infância foi diferente. De fato, na atualidade ter uma agenda de compromisso já é coisa para criança.

Sentamos nas poltronas cheios de sacos de pipoca, refrigerantes, balas e chocolates. Ele com as mãozinhas juntas, perguntou: “Posso comer o chocolate primeiro, dinda?”

“Sim. Sem regras hoje, ok?”

O rosto se iluminou, a luz se apagou e vieram os super-heróis com seus super-poderes. Os astros trabalhavam em equipe para combater as ameaças e grandes males que, em sua maioria, vinham de outro planeta. Enquanto protegiam os humanos, demonstravam um imenso amor e respeito a eles e ao planeta.

Com muitos efeitos especiais e shows de lindas imagens, o filme termina deixando um super-Joãozinho ao meu lado imitando seus super-heróis e falando ao mesmo tempo, ufa!

Já na porta de casa, Mariana o esperava só deu tempo de avisá-la que ele tinha comido o suficiente para não jantar. Minha sobrinha chamou a minha atenção por fazer todo o gosto do garoto. Quem não faria?

Ainda sorrindo dobrei a esquina e me deparei com pessoas deitadas no chão, outros limpando o para-brisa e alguns soltando fogo pela boca para sobreviver. Segui com os vidros fechados e escurecidos para dificultar a visão externa e com a promessa de mandar uma mensagem para Mariana assim que chegasse em casa.

Liguei uma tela menor na sala de jantar e surgiram uma série de “super-heróis”. Alguns antigos, outros novos, tentando convencer a humanidade que possuem super-poderes para resolver males complexos da sociedade quando ainda não deram conta sequer de dar dignidade e organizar as esquinas das ruas e do Poder.

O que eles não sabem é que na vida real, para nos liderar, precisamos de homens de bem, com propostas factíveis, que nos respeitem, ame a planeta e construa conosco uma agenda política para “mudar os tempos, os lugares, as opiniões e circunstâncias. Assim, os grandes heróis se tornarão pequenos e insignificantes homens.” (Marquês de Maricá).

Desligo a tela e ouço Zeca Baleiro nos pedindo para “… ver além do nosso umbigo, do nosso mundinho e escrevermos nosso próprio caminho.”

Passo a mensagem para Mariana: “Em casa programando para levar, em breve, Joãozinho ao
museu”.

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