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Vida democrática delivery

Foto de Cassyra Vuolo
Cassyra Vuolo

Amanhã é dia de prova e Gabriel passou a noite toda estudando, sem dormir e tomando o café que já estava frio no final da madrugada. Eu fingi dormir enquanto desejava voltar aos dias que líamos juntos os resumos para as provas. Ah, essa tal maternidade e o ritmo da vida só conseguem se reunir quando “caetaneamos” o tempo e fazemos um acordo com ele num outro nível de vínculo.

Apesar dessa emoção saudosista, a mãe sabe muito bem que o processo de amadurecimento pessoal exige certos sacrifícios e escolhas que envolvem esforço, dedicação e disciplina. Atitudes que podem fazer a diferença, lá na frente, quando o Gabriel for lidar com coisas mais complexas cujas consequências certamente serão maiores do que ficar de uma prova final.

[featured_paragraph]E como diriam os jovens, vamos combinar que todo esforço tem seu lado bom e gratificante, embora na atualidade se espalhem aos quatro ventos que é possível alcançar seus sonhos, seus desejos e suas metas com quase ou nenhum esforço e conhecimento.[/featured_paragraph]

Vendem-se tantas facilidades e de inúmeras formas que fica difícil não acreditar que seja mesmo esse o processo natural das coisas.

Nesse contexto criado pela sociedade, a disciplina para adquirir conhecimento, o trabalho e o esforço com propósito e clareza tem perdido valor. E esta visão passa da vida privada para a vida pública.

Se olharmos para o processo eleitoral de 2018, tudo está acontecendo ao nosso redor na base da facilidade e de forma simplista. Como se o resultado das eleições não apontasse para aqueles que irão decidir as políticas públicas da Nação para os próximos quatro anos.

Estamos caminhando para outubro com pouco conhecimento, quase ou nenhum esforço pessoal de envolvimento nas discussões dos planos de governo e continuamos sentados no sofá à espera da entrega dos gestores na porta de nossas casas via serviço de “vida democrática delivery”.

Sobre a nossa dificuldade de leitura, em todos os sentidos, o imortal Joao Ubaldo Ribeiro disse: “Não se lê porque não se gosta de ler, porque dá trabalho. Ler é chato porque a pessoa não aprendeu a ler. Ela aprendeu a ficar na frente da TV onde tudo é fornecido”.

Ainda estava pensando nas palavras de Ubaldo quando a porta do quarto se abre. Ofereço ao Gabriel um lanche reforçado e puxo conversa para tirar o foco da ansiedade da prova e todas as questões relacionadas à nota etc.

Com os olhinhos pequenos, mas bem alimentado, Gabriel se levanta e com alegria de quem fez bem a sua parte afirma: “Hoje vou arrasar na prova”.

Então, a nota vai ser boa, acrescentei. E ele respondeu: “Não mãe, a minha vida profissional será.”

[featured_paragraph]Ele saiu correndo pela porta para pegar o elevador e eu continuei ali com as mãos no queixo, olhando para os raios de sol que entravam pela janela e “o tempo ficou bonito como a cara do meu filho…”[/featured_paragraph]

Que esta beleza esteja presente em cada cidadão que dedique o seu tempo e se esforce na construção de diálogos e reflexões sobre o destino do país para que possamos fazer uma boa prova diante da urna eletrônica e não sermos reprovados no decorrer dos próximos quatro anos.

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