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O dono do circo

Foto de Cassyra Vuolo
Cassyra Vuolo

Carlinhos acordou mais cedo que de costume para se preparar para o programa de sábado a tarde: a sessão do “Circo Babilônia” que se instalou na cidade naquela semana. A lona colorida em formato de circunferência, armada na parte alta da cidade, parecia um castelo imponente com suas luzes piscando a preencher o horizonte.

[featured_paragraph]A paixão pelo circo era alimentada por seu pai, José, que não perdia um espetáculo e fazia questão de levar toda a meninada nessa viagem ao imaginário infantil. E não importava o tamanho e nem a fama do circo, se era montado no chão empoeirado ou no asfalto, os ingressos estavam sempre garantidos.[/featured_paragraph]

E lá estava Carlinhos, seus primos e vizinhos empoleirados no último lance de madeira da arquibancada montada na base de pregos e parafusos. E o show seguia com palhaços, malabaristas, monociclo, contorcionismo e equilibristas em cima de cavalos emplumados. Um intervalo para o algodão doce, a pipoca e a montagem das grades para as esperadas feras se apresentarem.

Nesse dia, Carlinhos cismou que queria ver os cavalos de perto. E tanto insistiu que seu Zé foi pedir ao dono do circo. Um senhor franzino, de meia estatura e sorridente levou-os ao celeiro improvisado, repleto de palha.

Após o jantar, o menino voltou-se para o pai em tom de desabafo: “Pensei que o dono do circo fosse o homem alto e forte que arremessava as facas. Como ele dá conta de montar o circo inteiro?”, indagou.

“Seo” José, percebendo o desapontamento do filho, trouxe-o para seu colo e calmamente começou a falar como se estivesse contando uma estória: “Carlinhos, no circo vivem muitas pessoas. Os artistas que treinam para fazer um bom espetáculo e outras pessoas igualmente talentosas, que não aparecem, mas usam sua técnica e dão o melhor de si para que as apresentações aconteçam. O dono do circo é parte dessa equipe. Se ele é alto ou baixo, forte ou franzino, não faz a menor diferença. Aliás, nem lá, nem em qualquer outro lugar. O que importa é que ele ame a arte, reúna os artistas, tenha coragem, alegria e disposição para sair por aí encantando as pessoas.

Carlinhos, segurando as bochechas com as mãos, num jeito moleque e meio bicudo balbuciou: – Hum! Estou tentando entender.

Sem desistir, seu Zé prosseguiu: “Meu filho, no circo, na vida e onde quer que estejamos, o que somos por dentro é que importa. E, neste caso, se tamanho fosse importante, o elefante é que seria o dono do circo”.

Sorrindo e com um beijo na testa exclamou: “Vamos dormir Carlinhos! Já passou da hora do senhor ir para a cama”.

E assim, no colo da vida, bem cedo e com simplicidade, belas lições foram transmitidas. Não se deve julgar pela aparência. Ser, é mais importante do que ter. É necessário talento, técnica e trabalho para se alcançar a excelência. Numa equipe todos são igualmente importantes. E, finalmente, é preciso colocar amor naquilo que se faz.

Em tempos de resultados negativos, de variadas crises, de total desconfiança e também de escolhas, de decisões importantes que podem mudar os rumos de nossas vidas, estas reflexões podem ajudar.

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