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Opinião

O que a Nova Zelândia nos ensina sobre deixar nossos filhos “se virarem”

Foto de Marcia Amorim Pedr´Angelo
Marcia Amorim Pedr´Angelo

Na Nova Zelândia, dados do Ministério da Saúde local (New Zealand Health Survey) apontam uma realidade que parece utópica para nós, pais brasileiros: 43,5% das crianças de 5 a 14 anos usam transporte ativo, caminhando, pedalando ou usando patins, para ir e voltar da escola.

Por lá, existe uma filosofia cultural e pedagógica fortíssima chamada free-range parenting — uma criação baseada na liberdade, onde a comunidade é segura e o jovem é incentivado, desde cedo, a se virar e ocupar o espaço público com autonomia.

No Brasil, a realidade é muito diferente: segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, 12,5% dos estudantes de 13 a 17 anos faltam à escola por medo no trajeto casa-escola, refletindo a insegurança que torna essa realidade neozelandesa tão distante para pais brasileiros.

Essa dualidade complexa em nosso país nos obriga a hiperproteger. Por um medo totalmente justificável, muitos pais não deixam seus filhos pegarem um ônibus sozinhos ou irem até o mercado da esquina.

Criamos uma redoma necessária para resguardar a integridade física deles, mas que, colateralmente, acaba limitando a independência prática. Nossos jovens chegam aos 14 ou 15 anos altamente conectados com o mundo digital, mas travados na mobilidade e nas decisões do mundo real.

É por isso que, quando desenhamos a experiência internacional para os alunos do 9º ano do Colégio Unicus rumo à Nova Zelândia, o foco principal foi justamente escolher um ambiente onde eles pudessem quebrar essa redoma com total segurança.

Mudar de país por algumas semanas é uma oportunidade que vai muito além do aprendizado acadêmico.

Muitas vezes, a primeira justificativa que nos vem à mente é pragmática: o idioma. Queremos o inglês fluente e a preparação para o mercado global. Mas preciso ser muito franca: a língua é apenas a ponta do iceberg.

O idioma é só uma das partes a serem aprofundadas. O verdadeiro ganho de uma vivência como essa reside no amadurecimento socioemocional que ela provoca, somando habilidades fundamentais para a transição em direção à fase adulta.

É o que chamamos na psicopedagogia de desenvolvimento da autoeficácia, a certeza interna de que “eu dou conta”.

Ao pegar o ônibus sozinho em uma cidade neozelandesa ou entrar no supermercado para administrar o dinheiro e comprar o próprio lanche, o aluno do 9º ano não está apenas se deslocando geograficamente. Ele está aprendendo a gerenciar o próprio tempo, a lidar com a frustração de não ser compreendido de primeira e a assumir responsabilidades.

Se ele erra o ponto do ônibus, precisa pedir informação em inglês, resolver o problema por conta própria e descobrir que o mundo não desabou por causa disso.

Para nós, pais, ver esse processo de longe exige um exercício profundo de coragem. Exige respirar fundo e confiar na estrutura que preparamos.

Eles embarcam como nossos meninos e meninas, protegidos pela nossa redoma, e desembarcam de volta no aeroporto com o olhar transformado.

Voltam mais maduros, mais seguros de suas próprias capacidades e prontos para o protagonismo que a vida adulta vai exigir. Dominar o inglês é excelente. Mas aprender a ter autonomia e resiliência em um mundo imprevisível é a verdadeira bagagem que queremos entregar a eles.

* Márcia Amorim Pedr’Angelo é psicopedagoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Colégio Unicus, e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

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