Sem argumentos plausíveis para justificar os gastos nababescos com emendas parlamentares destinadas a áreas não essenciais da Administração Pública — como eventos culturais, campeonatos, times de futebol, contas dos próprios Poderes Constituídos e até eventos privados financiados com recursos públicos — a Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) divulgou uma matéria institucional alegando que mais da metade das emendas dos 24 deputados estaduais foi destinada à saúde.
Segundo o release oficial, disponível no portal da ALMT, os parlamentares teriam destinado R$ 319,8 milhões à área, de um total de R$ 618,9 milhões apresentados até agora.
Portal da Transparência expõe a discrepância
Uma consulta ao Portal Transparência do Governo do Estado, porém, revela outro cenário. Ali, o total de emendas apresentadas em 2025 já soma R$ 765.132.247, dos quais R$ 720.960.653 foram liquidados e R$ 693.259.250 já foram pagos.
Os números apresentados pela Assembleia não batem nem com os dados estaduais nem com a realidade das destinações.
Saúde pública colapsada e a elite política longe do SUS
Enquanto isso, a saúde pública de Mato Grosso continua desastrosa, ineficiente e sem resolutividade — tão ruim que as próprias autoridades, suas famílias e até a primeira-dama buscam atendimento em grandes centros como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.
O caso mais emblemático ocorreu após a queda sofrida pelo governador Mauro Mendes no Parque Novo Mato Grosso. Ele até procurou os primeiros socorros na Santa Casa, numa tentativa de reafirmar confiança na rede pública. Porém, três dias depois, pegou um avião e tratou-se no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, um dos mais caros do continente.
Fundo Estadual de Saúde não confirma discurso da ALMT
Ao consultar as emendas destinadas à saúde no Portal Transparência, o que aparece é apenas o Fundo Estadual de Saúde (FES), responsável por repassar valores aos Fundos Municipais de Saúde das 142 cidades.
Mesmo assim, o montante não condiz com os números divulgados pela Secretaria de Comunicação da ALMT, que fala em:
R$ 177.607.526 empenhados
R$ 172.142.526 liquidados
R$ 159.796.684 pagos
Quanto realmente chega aos municípios
Se divididos entre as 142 cidades do Estado, os valores representariam:
R$ 1.220.757 empenhados por município
R$ 1.212.271 liquidados
R$ 1.125.328 pagos
Ou seja: valores irrisórios diante das necessidades reais da saúde municipal.
Quanto isso representa por habitante
Com uma população estimada em 3.893.659 habitantes, os valores destinados à saúde via emendas correspondem a:
R$ 45,62 por habitante (empenhado)
R$ 44,21 por habitante (liquidado)
R$ 41,04 por habitante (pago)
Segundo a própria ALMT, seriam R$ 82,14 por habitante, ainda assim insuficientes para pagar sequer um exame de sangue completo.
Comparativo com o orçamento da saúde
A proposta de orçamento estadual para a saúde em 2026 prevê R$ 4.240.959.334 em recursos. Ainda assim:
R$ 2,51 bilhões vão para despesas correntes
R$ 375,8 milhões para investimentos
R$ 1,35 bilhão para pessoal
Dividido pela população, isso representa R$ 1.089,20 por habitante — insuficiente para garantir qualidade mínima em um sistema que deveria atender quase 4 milhões de pessoas.
A farsa dos 50%
A obrigação de destinar 50% das emendas à saúde surgiu como resposta ao uso político dessas verbas e à enxurrada de ações no STF contra irregularidades.
Mesmo assim, muitos deputados continuam priorizando festas, rodeios, cinema na praça e eventos culturais.
Importantes? Sim.
Prioridade em um Estado com filas intermináveis por cirurgias? Não.
Enquanto isso, a população sofre
Com quase metade das emendas destinadas a áreas que não são essenciais, o discurso parlamentar de “priorizar a saúde” se mostra frágil e desconectado da realidade.
Autoridades seguem com planos de saúde nacionais e internacionais.
Já mães, idosos e crianças dependem da sorte — ou de liminares judiciais — para conseguir atendimento básico no SUS.





