15 de abril de 2026 22:40
Opinião

A solidão do empreendedor

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Vanessa Suzuki

Empreender no Brasil costuma ser associado a liberdade, autonomia e realização pessoal. Mas, por trás da vitrine reluzente das redes sociais e dos números do PIB, existe um silêncio profundo: a solidão do empreendedor. Ela acompanha o brasileiro que decide arriscar seu capital, sua energia e até sua reputação em um ambiente de negócios hostil.

O empreendedor carrega uma responsabilidade que não se mede em planilhas. Empregados esperam salários, fornecedores aguardam pagamentos, clientes exigem qualidade, e o Estado cobra tributos mesmo antes do negócio dar lucro. A família, por sua vez, projeta nele a segurança do futuro. Em meio a tantas expectativas, quem sustenta o próprio empreendedor? Quase sempre, ninguém.

O fracasso, longe de ser visto como aprendizado, é tratado como estigma. O empresário que erra, mesmo tendo arriscado para gerar empregos e riqueza, raramente encontra compreensão. Mas há algo ainda mais corrosivo que a burocracia ou a insegurança jurídica: o preconceito contra o sucesso.

No Brasil, o êxito desperta não apenas admiração, mas sobretudo inveja. Em vez de inspirar, a conquista de um empreendedor é muitas vezes recebida com suspeita, ironia ou hostilidade. O pecado da inveja — tão condenado pela tradição cristã — manifesta-se como ressentimento social, como se todo triunfo fosse uma afronta pessoal aos que fracassaram.

Não raro, o empreendedor sente que não enfrenta apenas a concorrência e o peso das responsabilidades, mas também a torcida silenciosa de quem deseja vê-lo cair.

Basta lembrar o caso de um pequeno comerciante que decide ampliar seu negócio no bairro. Ele emprega vizinhos, melhora a fachada, investe em tecnologia e, aos poucos, começa a prosperar. O resultado poderia ser motivo de orgulho coletivo, mas o que se vê muitas vezes é o contrário: comentários maliciosos, acusações de enriquecimento “fácil”, suposições de que só pode estar envolvido com algo ilícito.

O sucesso, em vez de unir, isola. O próprio comerciante, ao perceber os olhares enviesados e o afastamento de pessoas que antes o cercavam, experimenta a solidão como punição pelo crescimento.

O mesmo se repete com o trabalhador autônomo, que arrisca tudo para abrir seu caminho em um mercado saturado. Pensemos no cabeleireiro que decide sair do emprego fixo para montar seu salão, ou no prestador de serviços que, com esforço, conquista clientes fiéis.

Quando começam a prosperar, muitas vezes já não são vistos como “um de nós”, mas como alguém que “se acha demais”. Amizades esfriam, relações se tornam distantes, e a conquista, em vez de gerar apoio, converte-se em motivo de isolamento. A inveja, novamente, age como corrosão invisível, tornando a vitória um fardo solitário.

A rotina de trabalho sem pausas, o esforço para manter a empresa viva e a permanente sensação de estar “apagando incêndios” acabam corroendo vínculos pessoais.

Muitos relatam a dificuldade de compartilhar suas dores com familiares e amigos, seja para não preocupá-los, seja porque poucos compreendem a intensidade da jornada. A solidão, então, não é apenas prática, mas também existencial.

Enquanto exaltamos a coragem de quem empreende, fechamos os olhos para seu sofrimento silencioso. Um país que deseja crescer precisa cultivar a admiração, não a inveja; o reconhecimento, não o ressentimento.

Afinal, por trás de cada CNPJ há uma pessoa que sonha, luta e sofre — quase sempre em silêncio, e muitas vezes contra a torcida cruel dos que preferem o fracasso alheio à superação própria.

(*) VANESSA SUZUKI é jornalista e anfitriã na plataforma Airbnb desde 2019.

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