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Opinião

Ensaio I – Brasil e´ mau com “u”

Humanidade já não se reproduz o suficiente para atingir a taxa de reposição de pessoas no mundo
Foto de Lécio Pery Júnior
Lécio Pery Júnior

Hoje vou explicar o que acredito ser o principal problema do Brasil: não é cultural ou econômico, mas simplesmente um problema de caráter. O problema é que o brasileiro é mau. Por diversas vezes, sentei na roda dos letrados para não dizer “abastados”. Gente com instrução, ou pelo menos supostamente educada já que os recursos permitiram frequentar escolas consideradas boas, e que portanto não podem alegar ignorância para erros crassos. Vejo nesses meios uma natureza malfazeja, uma malícia excessiva primeiro negada, depois confessada e por fim carinhosamente formalizada. Um diz que “o brasileiro é malandro”, enquanto o outro emenda “camarão que dorme a onda leva”. Se quiser ofender um brasileiro, xingue de “otário” e diga que é “ingênuo”. Aqui, é muito mais vergonhoso ser a vítima do que o agressor em quase qualquer situação, pois temos que levar vantagem: é a “lei de Gerson”.

Nessas rodas, o tema das más condições do Brasil é um lugar-comum. Talvez a razão de o peixe não perceber a água seja o mesma motivo pelo qual os mais instruídos não percebem o óbvio. O eterno país do futuro sempre está, segundo os participantes das tais rodas, com “má educação, má saúde, má segurança,. . .” e vai mal em qualquer área que seja concebível. A causa identificada para esse futuro que nunca chega apesar da abundância de recursos, segue também uma fórmula: a do “erro crasso”. É outro lugar comum: nossos governantes erraram nisso e naquilo por décadas e, com péssimas políticas públicas perfeitamente evitáveis, chegamos nesse estado. Os fatos que evocam podem até estar corretos, bem como o levantamento de causas prováveis, mas é a forma mais estéril de analisar cenários pois nada de novo sai de caminhos velhos.

Serei metódico ao buscar um caminho inovador. Direi algo que parece absurdo – e eu gostaria que fosse – mas trarei “atos e fatos” ate´ que comece a parecer plausível e termine pueril. Mau. Simples assim. E praticamente tudo o que fazemos e´ uma tentativa de escamotear nossa maldade pelo método das “suavizações sucessivas”. Começamos dizendo que não é “maldade”, mas “malícia”, evoluímos rapidamente para “esperteza” e terminamos transformando em uma “virtude”. O próximo passo — estou sendo metódico como mencionei — é procurar na cultura casos que substanciem essa afirmação audaciosa. Não casos específicos de um indivíduo que pareça isolado, como algum dos ditos serial killers, mas que demonstrem o comportamento geral da nação.

Falando nisso, é possível verificar o pensamento de um povo através das suas obras de artes, seus livros, suas músicas. Ver a árvore por seus frutos. Uma vez que toda piada sempre tem um alvo, o humor em sua essência, sempre terá um componente agressivo em todas as épocas da humanidade. Assim, prezar pelo humor já pode ser um indicativo de agressividade, basta saber qual limite das nossas piadas. Um caso interessante e´ o do grupo de comediantes “Hermes e Renato”. Quanto aos de limites, parece que eles simplesmente não tinham, pois enquanto o grupo durou valia piada com tudo: coxo, cego, político ladrão, mafioso, menininhas da Rua Augusta ávidas consumidoras de drogas valendo-se da mesada dos pais, favela, riqueza, pobreza, gente inteligente e gente burra.

Assistindo Hermes e Renato, você percebe que ironicamente são irrepreensíveis. O que fazem é, na verdade, uma sátira fidedigna de todas as mazelas da sociedade. Eles não estão criando nem promovendo qualquer realidade, mas apenas mostrando as coisas como já são. Ou melhor, como já infelizmente são. O melhor quadro nesse aspecto revelador era o “Documento Trololó” em que um personagem jornalista relatava o Brasil no mesmo formato do Documento Especial da extinta TV Manchete, como que em uma reportagem ou documentário. E um dos vídeos particularmente interessantes dessa série é o da “cultura quilingue”. O personagem abre o pseudojornal com uma frase que vale a citação, e espero instigar o leitor a buscar o vídeo original: “Em um país que sobrevive à base de pequenos golpinhos, existe uma herança cultural que é passada de pai para filho, de filho para neto, de neto para tataraneto e também para os sobrinhos. Pilantragem? Estelionato? Ou apenas uma inocente carraspana? A cultura quilingue: é o que veremos agora, no Documento Trololó.”

Ainda nesse vídeo eles descrevem o que chamam de quilingue, o típico brasileiro golpista, e mostram pequenos truques e golpes de colarinho branco que tangenciam ou até violam a lei. A representação foi tão fidedigna, reveladora — e também agressiva — que se tornou um fenômeno cultural. Um “meme”, antes mesmo de a palavra meme entrar no vocabulário, chegou a inspirar um incidente envolvendo pichações que seria citado pelo UOL. Aqui temos um exemplo, dentre vários, que derruba um dos maiores mitos brasileiros: o crime vem da pobreza. Essa falsa associação talvez seja uma inversão. Talvez nossa pobreza venha dos crimes praticados, não o contrário. Tem muito criminoso na Classe Média, muito criminoso na Classe Alta, por quê não haveriam muitos criminosos na Classe Baixa?

E´ nesse momento que fica evidente a fonte das nossas mazelas: a vontade de levar vantagem. Ainda no vídeo da “Cultura Quilingue”, temos um personagem que faz papel de especialista e declara: “o pensamento do quilingue funciona assim: ele não tem medo de se dar mal, apenas tem medo de que alguém se dê melhor do que ele.”. Bingo! É essa a situação atual do Brasil. Quer alegrar, por exemplo, o dono de um restaurante? Não faça com que ele se torne rico e dono de uma franquia internacional, apenas leve o vizinho à falência. Enriquecer é útil, mas não é divertido. A destruição alheia é divertida e prazerosa, e pensar assim não é apenas uma ocasião, mas estilo de vida.

Tomando outro exemplo mais antigo no mundo artístico, temos um acidente que ficou conhecido como a Lei de Gérson. Um jogador de futebol nos anos 70 apareceu em um comercial de televisão com um sotaque tipicamente carioca — e portanto bem regional, bem nacional — dizendo: “O importante e´ levar vantagem em tudo, certo?”. Essa frase tem uma conotação dúbia por si só, mas se tornou uma referência, um “meme” antes da palavra meme existir, e servia para indicar que alguém estava tentando ganhar a qualquer custo. Pela Lei de Gérson, a única imoralidade é perder. Qualquer similaridade com pais dizendo “se apanhar na rua, vai apanhar em casa” não é mera coincidência. Um brasileiro pode entrar em uma briga por quaisquer razões excusas, desde que ganhe. Perder é imoral.

Só pequenas expressões populares, manifestações artísticas de grupos de comédia e situações de maldade confessa, no entanto, não são suficientes. Precisamos também de alguma ocorrência comum, rotineira, um mal — ou mau — tão cotidiano que possa ser chamado de “mal/mau normal”. Não basta, também, que seja a normalização da estatística da violência, pois se trata de algo que ainda e´ alvo de protestos e tentativas de mudança. O que precisamos, nessa receita, e´ que um mal que seja aceito pelo povo, como o “bandido herói quilingue” denunciado pelo grupo “Hermes e Renato”. Melhor ainda: algo que nem seja visto como crime pois, para o brasileiro legalista, se a lei permite então não é crime e só passará a ser o dia que a lei for reescrita. Não ocorre ao brasileiro que o hábito só não é crime porque na realidade a lei não é bem redigida, enxergando os exploradores das brechas como “espertos” ao invés de “vis, maus”.

Há um fenômeno chamado litigância de má-fe´. É até crime, em sentido estrito, mas a lei não consegue abarcar todos os casos. Então desde o respeitado veículo independente de informação sobre Direito denominado Conjur até o veículo de mídia formal CNN, já houveram claras exposições sobre o fenômeno. O brasileiro processa demais, muitas vezes indevidamente. Dessa última sentença, já dá para deduzir então que muitas das causas ganhas correspondem a lucros indevidos. Seriam “lucros quilingues” na visão do “Hermes e Renato”. Aqui, acabo de dar uma demonstração de como fenômenos que já receberam inúmeras explicações científicas podem ser explicado de maneira muito mais simples: maldade. Se vem de um mero fator cultural ou se tem algum componente genético pouco me apetece: o efeito já é devastador suficiente. E´ quase impossível iniciar um empreendimento honesto no Brasil quando ate´ as pessoas ditas de bem, sem antecedes criminais, apelam constantemente à litigância exacerbada que não pode ser comprovada como de má-fé devido às habilidosas gambiarras jurídicas de advogados que vivem disso.

A resposta do empresariado é igualmente vil. Em um mundo selvagem, vence o mais violento. Para compensar a judicialização excessiva, o patrão se antecipa e tenta obrigar seus funcionários a trabalharem muito mais que o contratado. Mas infinitamente pior e´ a resposta legislativa: os projetos de Lei 5900/2016 e 6160/2019 tentaram parar esse processo tentando acabar com a gratuidade do litígio. A defesa dessa tese jurídica foi ate´ tema acadêmico em universidade4. A tentativa de refutação também. Em um mundo onde todos tentam ser mais espertos que os outros, ganha quem tem a melhor retórica e ninguém busca a verdade, a moral ou os valores mais elevados. Na realidade, relativiza-se a verdade e não surpreende que essa briga tenha evoluído ao nível acadêmico, lugar propício para isso.

Em todo caso, segundo os projetos de lei a solução para a ferramenta não é o uso responsável, mas a proibição, já que o brasileiro é mau demais para fazer a coisa certa. Surpresos? E´ claro que anteciparam a brecha que isso abre onde o pobre pode ser eternamente injustiçado porque não terá como pagar nem mesmo a entrada do processo, como já não consegue pagar um bom advogado. Vai ver, as consequências negativas não foram consideradas um “preço a se pagar” pelos idealizadores. Vai ver, especulo, e´ a verdadeira intenção desde o primeiro dia. Chega, já estou ficando paranóico. Algo bem menos especulativo, no entanto, são as origens do fenômeno galvanizados em inúmeros ditados populares: “puxar a sardinha para o próprio peixe”, “esperto e´ o gato, que já nasce de bigode”, “farinha pouca, meu pirão primeiro”, “cada um por si e Deus por todos”, “quem chega primeiro, bebe água limpa” e lembre-se que essa lista não é exaustiva.

Cheguemos logo à verdadeira conclusão: todas as análises sobre as várias mazelas do Brasil podem ter seu nível de validade, pois frequentemente são baseadas em fatos, mas apenas tratam das consequências e escamoteiam a causa. As exceções são as análises sobre o caráter. A causa profunda do Brasil ser como e´ se reduz ao mau caráter onipresente em todas as classes sociais, que flui como um rio e deságua na corrupção, na sede de sangue, no desvio de finalidade, na esperteza excessiva, na inveja daquele que consegue escapar de tanta violência, mesmo que seja por um minuto de sucesso. Aqui, a boa pessoa que não morreu é porque se tornou má..

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