As linhas de crédito voltadas à produção de alimentos orgânicos apresentam uma adesão extremamente baixa entre produtores familiares. Dados de uma pesquisa da Embrapa apontam que o problema pode estar na inadequação das políticas de financiamento às necessidades reais dos agricultores.
A falta de financiamento foi citada por 29% dos produtores como principal obstáculo para a adoção do sistema orgânico de produção. E apesar desses créditos existirem, 42% desses agricultores sequer tentou obtê-los.
Outros 50% apontaram o alto grau de esforço envolvido na contratação de um crédito rural.
Os dados do estudo foram publicados nesta sexta-feira (23), na “Revista Desenvolvimento e Meio Ambiente”. Além da Embrapa Cerrados, a Universidade de Brasília (UnB) fez parte da pesquisa.
Crédito para produção de alimentos orgânicos
O objetivo do estudo foi compreender os motivos do baixo acesso de produtores familiares a linhas de crédito do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) — as chamadas Linhas Verdes, específicas para a produção orgânica.
Por meio de um questionário eletrônico, veiculado via WhatsApp a 2.325 produtores do Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estudo revelou a existência de uma lacuna significativa entre as políticas de crédito disponíveis e a realidade dos pequenos produtores.
Os entrevistados correspondem a 8,6% do universo total de produtores de orgânicos registrados. A maioria (76%) se enquadra como produtores familiares, e 65% desenvolve suas atividades com recursos próprios.
Dentre os que conseguiram crédito rural, em diferentes instâncias, como bancos privados, cooperativas de crédito ou bancos públicos, 26% deles afirmam ter contratado operações rurais nas linhas para orgânicos e 74%, em operações em outras linhas. Destes, apenas um relatou utilizar recursos do Pronaf.
Entre os participantes que optaram por linhas de crédito rural não específicas para a produção orgânica, os motivos foram:
- 36% o desconhecimento da opção de crédito
- 18% a percepção de maior burocracia
- 16% a ausência de assistência técnica para fazer a proposta
A percepção de que as linhas de crédito não estão servindo aos produtores de orgânicos é corroborada pelo baixo número de contratações de operações de crédito em unidades federativas com alto volume de produtores orgânicos, levantada também pelo trabalho.
Segundo dados do Banco Central, Distrito Federal e Roraima não têm nenhuma operação contratada, apesar de possuírem 261 e 41 produtores orgânicos registrados no Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos.
Dos que disseram não buscar o crédito, metade citou as dificuldades inerentes ao processo como o principal motivo, e 38% deles apontaram para as características das linhas disponíveis como o maior entrave.
“É crucial que haja uma simplificação no processo, assistência técnica especializada e maior divulgação dos programas disponíveis”, diz Ariel Luiz de Sales Gomes, coautor do estudo.
Para Gomes, os resultados da pesquisa desafiam a noção de que a disponibilidade de crédito é suficiente para promover o desenvolvimento da agricultura orgânica familiar. “Mostramos que é necessário um enfoque mais integrado, que considere também o apoio técnico e a disseminação de informações”.
(Da Agência Bori)




