O ex-secretário do Ministério da Agricultura (Mapa), Neri Geller, admitiu que o leilão do arroz foi “desorganizado” e “atropelado”. Ele disse que o processo poderia ter sido mais comedido, tanto no volume de compra quanto na interlocução com o setor produtivo.
“Foi uma decisão da Casa Civil, junto com o ministro Fávaro, isso é certeza. Agora, como isso aconteceu, eu não sei dizer, porque eu não participei. O ministro puxou esse assunto 100% para o gabinete, o que é normal. Nós orientávamos tecnicamente”, disse ele em entrevista à Band News hoje (12).
Geller foi exonerado ontem (11) da Secretaria de Políticas Agrícolas do Mapa, após o fracasso do leilão do arroz, promovido pelo governo federal para tentar controlar o preço do cereal. A estimativa é que o mercado seja afetado em decorrência da enchente no Rio Grande do Sul, o maior produtor brasileiro.
Geller afirmou que essa hipótese não era a mais provável nas análises de dados. Segundo ele, a avaliação técnica passada pela secretaria sob o seu comando era que se aguardasse a movimentação do mercado Mercosul. Os países produtores poderiam pressionar os preços, mas o Brasil teria mais tempo para negociar a compra de reposição de perda.
“Nós orientávamos que se fizesse a alíquota zero fora do Mercosul, que estava em 12%. Quando você sinaliza uma redução [do imposto], você pode ter mais competitividade fora do Mercosul, e já tinha arroz vindo da Tailândia. Mas decidiram pelo leilão, fizeram um de 100 toneladas, o que era aceitável, inclusive pelo setor [produtivo]. Cancelaram e já começou a dar problema ali”, disse.
Geller disse ainda que o ministério desconsiderou outros fatores, como uma avaliação mais real da perda da produção no Rio Grande do Sul, o tamanho do estoque nos maiores estados consumidores e a logística disponível para retirar a produção estocada do Sul.
“Bode expiatório”
Neri Geller negou que tenha entregado o cargo ao ministro Carlos Fávaro por causa da repercussão do leilão cancelado e as suspeitas de direcionamento da compra a pessoas próximas a ele.
A exoneração teria sido confirmada ontem à tarde após uma reunião de Fávaro com o presidente Lula. Geller não comentou de quem teria partido a decisão de demiti-lo, mas vê a escolha como uma alternativa de desviar atenção do problema real no processo.
“Eu fui tomado por bode expiatório, e isso eu não vou aceitar. Eu não posso tolher o direito de uma pessoa só porque ela trabalhou comigo 4 anos atrás. Eu estou absolutamente tranquilo e defendo que o leilão seja investigado. Eu não vou deixar manchar os meus anos de trabalho”, afirmou.




