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Opinião

Devorar o medo que te devora

Foto de Caroline Rodrigues
Caroline Rodrigues

Medo do quê e como reconhecê-lo? Ele tem tantas caras, e insidiosamente se disfarça com a máscara da ocasião, se justificando. Medo que o dinheiro não chegue até o próximo salário, ou que uma conta esquecida se apresente, repentinamente. Medo da crise humanitária mundial, da guerra, da ameaça atômica, medo de receber uma notícia triste que modifique, instantaneamente, a frágil organização dos próximos dias. Medo da velha ou de uma nova epidemia, da inteligência artificial e medo da burrice natural. Mas o medo da moda, desses últimos dias, é o dos ataques terroristas às escolas.

Tipo de barbárie originada no estrangeiro, vista como algo tão distante ao sentimento comum da cultura de paz do brasileiro, olhamos abismados a notícias inimagináveis ao senso comum. Os ataques às escolas têm sido noticiados de forma crescente e assustadora. Segundo a mídia, o relatório apresentado pelo grupo de transição do governo federal em dezembro do ano passado, indicou que 35 pessoas – entre estudantes e professores – morreram em ataques à escolas brasileiras desde o ano 2000. Porém, a concentração das ocorrências, incluindo as que foram desarticuladas antes de se efetivarem pela inteligência da polícia, vem escalando assustadoramente. Somente no estado de São Paulo foram detectados 279 casos de possíveis ataques entre os dias 27 e 31 de março deste ano, o que dá uma média de 56 casos por dia.

A UFMT – Universidade Federal de Mato Grosso também recebeu ameaças. No Campus de Cuiabá houve duas ocorrências nos últimos 10 dias: uma em 13 de abril, quando as aulas foram suspensas por 2 dias, e outra no dia 20 de abril. Felizmente, nenhuma das duas se concretizou, o que não nos desobriga de pensar sobre esta situação. A divulgação das fake news e boatos sobre possíveis atentados é, sem dúvida, uma forma de desarticular e desmobilizar o ensino público superior, além de incentivar a ocorrência de novos atos terroristas, conforme indicam estudos. Suspender as aulas seria, praticamente, sentar no colo do inimigo. No entanto, esse é um jogo de tudo ou nada: quando há dúvida, não podemos jogar com vidas. E se os ataques houvessem ocorridos? Não é possível minimizar o potencial perigo.

Por outro lado, as articulações devem ser institucionais e coordenadas, ou não funcionarão. O campo de atuação da sociedade civil é impulsionar o debate e manter essa demanda como item de urgência na agenda política do país, pressionando para que as ações de inteligência preventiva sejam rapidamente concretizadas. Cada um de nós pode buscar, ativamente, soluções que já foram implementadas em outros âmbitos e compartilhar nas conversas diárias. A discussão sobre os motivos que levam aos ataques às escolas deve ficar ativa na sociedade, para que boas ideias surjam, que sejam adaptadas a cada situação, e possam combater o problema desde a sua raiz.

A maioria de nós nunca imaginou viver os medos dessa época, desse tempo… Mas estamos. E temos que fazer alguma coisa, não há outra saída. A primeira delas é entender um pouco sobre o medo, entender que ele não deve ser negligenciado e nem tão pouco superestimado: ele não pode nos impedir de pensar nas soluções que realmente vão acabar com o problema. Canta Herbert Vianna, que busquemos deixar de ter medo, após citar uma longa lista de medos contemporâneos. É um desafio. Difícil, mas não impossível.

***Andréa Ferraz Fernandez é jornalista. Tem doutorado na área da Ergonomia da Informação e pós-doutorado em Comunicação Audiovisual, pela Universidade de Málaga, Espanha. É docente da Universidade Federal de Mato Grosso, UFMT, lecionando nos Programa de Pós Graduação em Estudos da Cultura Contemporânea (ECCO), no Programa de Pós Graduação em Comunicação e Poder (PPGCOM) e no Curso de graduação de Cinema e Audiovisual.

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