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O trabalho da mulher no contexto da pandemia de covid-19

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Carla Leal

Carla Leal

Sabrina Bianchi

 

Em lembrança ao Dia Internacional da Mulher, dia 08 de março, data fixada pela ONU em 1975, trataremos sobre o trabalho desenvolvido por esta no contexto da pandemia de covid-19.

Inicialmente, muito embora alguns vinculem a data ao horrível acidente de trabalho ocorrido em Nova York em 1911 quando quase 150 mulheres morreram em um incêndio em uma indústria têxtil por falta de segurança no trabalho, cabe registrar que o Dia Internacional da Mulher, na verdade, é fruto de inúmeros protestos que se iniciaram no final do século 19 em países da Europa e nos Estados Unidos, nos quais as mulheres clamavam por melhores condições de trabalho, melhores salários e menores jornadas.

Com o tempo, as reinvindicações passaram a abranger outros direitos, sendo hoje uma data destinada a celebrar as conquistas políticas e sociais alcançadas, mas, principalmente, para lembrar que a desigualdade de gênero continua a existir, para fomentar reflexões e para buscar soluções para os problemas gerados por esse tratamento desigual.

Essa desigualdade, muito embora vedada por documentos internacionais, pela Constituição e pela legislação infraconstitucional, pode ser detectada em várias áreas da vida em sociedade, contudo, sem dúvida alguma, o trabalho é um dos contextos em que ela aparece com maior relevância e apresenta maior discrepância.

Dados do IBGE demonstram que no Brasil as mulheres estão em menor número no mercado de trabalho, apesar de serem a maior parte da população brasileira. Em 2019, 54% das mulheres com mais de 15 anos estavam empregadas ou procurando emprego, ou seja, pertenciam à força de trabalho. No mesmo ano, 73% dos homens estavam na mesma situação.

Por outro lado, no mesmo ano as mulheres receberam salários para os mesmos cargos que eram, em média, 23% menores daqueles recebidos pelos homens, mesmo possuindo, em geral, maior escolaridade que estes. Ainda, quando conseguem chegar nos cargos de chefia, o que é bem mais difícil, recebem cerca de 40% menos que seus colegas nos mesmos postos de trabalho.

Para completar o quadro, a pandemia do covid-19 fez com que as desigualdades de gênero ficassem ainda maiores, na verdade elas foram potencializadas e escancaradas. O ano de 2020 foi aquele em que a força de trabalho feminina teve o menor índice de participação no mercado de trabalho desde 1990.

Tal situação deve-se ao fato que as atividades geralmente ocupadas por mulheres, como os serviços domésticos, o comércio e a prestação de serviços em geral, foram as mais afetadas, enquanto as atividades que são desempenhadas majoritariamente por homens, como a construção civil, conseguiram ser mais resilientes a essa realidade.

A suspensão das aulas das escolas e das atividades das creches também trouxe empecilhos para a permanência da mulher no mercado de trabalho. Os números demonstram que a exclusão do mercado de trabalho das mulheres com filhos menores de 10 anos foi maior do que a sofrida pelos homens, já que a estas tradicionalmente é atribuída a responsabilidade com os cuidados com os filhos, os idosos e as pessoas com deficiência da família.

Para aquelas que conseguiram manter seus vínculos laborais, a pandemia também acarretou inúmeras dificuldades. Segundo pesquisa do Datafolha, 57% das mulheres que passaram a trabalhar remotamente disseram ter acumulado a maior parte dos afazeres domésticos. A carga de trabalho, então, foi aumentada consideravelmente, visto que hoje precisam conciliar trabalho profissional, trabalhos domésticos, cuidados com os filhos e acompanhamento da escola para aqueles que conseguiram manter as aulas remotas.

Assim, nesse momento de reflexão mundial, faz-se necessário reconhecer as dificuldades enfrentadas pelas mulheres em todos os contextos da vida, intrinsicamente relacionadas às desigualdades de gênero, e entender que o trabalho da mulher precisa estar no núcleo mais sensível de proteção, sendo essencial a adoção de medidas destinadas a elas, em especial em razão de todas essas vulnerabilidades, agravadas pela pandemia.

Espera-se, então, que todos os dias do ano, e não apenas o 8 de março, sejam dias de concretização dos direitos das mulheres!!!!

 

*Carla Leal e Sabrina Bianchi são membros do grupo de pesquisa sobre o meio ambiente do trabalho da UFMT, o GPMAT.

 

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