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Centro de triagem de Cuiabá: qualquer semelhança com a ficção não é mera coincidência

Foto de Laura Nabuco
Laura Nabuco

É impossível não fazer a associação. Se você já assistiu algum filme sobre vírus e doenças misteriosas que se espalham pelo mundo e teve que entrar – na condição de paciente – no Centro de Triagem para a covid-19 instalado na Arena Pantanal, em Cuiabá, você se sentiu numa produção hollywoodiana.

Sem todo aquele caos característico desse tipo de filme, é claro. Com exceção da falta de informações sobre que caminho seguir quando se entra no estacionamento do local, a estrutura é muito bem montada e organizada.

Os funcionários não usam os macacões e máscaras dos agentes – pelo menos os dos filmes – do Centro de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos. Mas é quase.

A primeira a me atender – passei por quatro estações antes de chegar à farmácia onde peguei o kit de medicamentos – usava luvas, máscara e um macacão descartáveis, além de óculos de proteção e touca para prender o cabelo.

E a estrutura de concreto e tubulações aparentes da Arena Pantanal é um cenário perfeito.

(Foto: Christiano Antonucci)

Assim como nos longas mais famosos, famílias chegam unidas e, ao longo do percurso – entre uma sessão de triagem e outra – vão se perdendo.

Andar pelos corredores abobadados da Arena Pantanal, que te impedem de enxergar logo de cara para onde se está indo, é a cereja do bolo. Se você já viu filmes o bastante, vai imaginar de imediato a cena de centenas de pessoas se empurrando rumo ao desconhecido.

As cabines são simples, separadas por estrutura de MDF. Uma cadeira, um computador e um atendente. E a cada uma delas, o paciente ganha um papel novo para levar para a próxima.

Primeiro, os dados pessoais são coletados. A partir daí, você deixa de “ser” um número e passa a ser convocado para a próxima estação pelo nome. O que, de alguma forma que não sei explicar por que, me fez me sentir melhor.

Também é a partir daí, no entanto, que você começa sua jornada sozinho. Quem veio junto fica para trás e dificilmente vocês se encontram antes do fim do processo.

Na segunda, além da temperatura e nível de saturação do oxigênio no sangue – que já são medidos antes mesmo de você entrar no Centro – a pressão arterial é conferida. O funcionário pergunta sobre doenças do grupo de risco, como diabetes e hipertensão, e também se você fuma, bebe e se apresentou sintomas.

(Foto: Tchélo Figueiredo – SECOM/MT)

Não era o meu caso. Fui porque tive contato com pessoas que poderiam estar infectadas. E a julgar pela aparência dos demais, imagino que essa é a situação da maior parte das pessoas que estavam lá. Ninguém aparentava apatia possivelmente causada por uma febre, ou tossiu ao longo das quatro horas em que permaneci no local.

Aliás, a espera só é longa antes da primeira cabine. E nesse ponto, bem diferente dos filmes. Todos podem esperar sentados e não há aglomeração. Cadeiras devidamente distanciadas umas das outras foram disponibilizadas ao longo dos corredores.

Depois de aferida a pressão e a saturação do oxigênio, o momento mais esperado: o teste rápido.

E quando os nomes são chamados pela funcionária – que volta com o resultado e todos aqueles papeis que você carregou até a pessoa que fura seu dedo e colhe e seu sangue – é impossível não olhar os rostos tentando adivinhar se foi positivo ou negativo.

(Foto: Christiano Antonucci)

Mas não importa o que está escrito. Você ainda vai ter que passar por um último estágio: a consulta com o médico.

No meu caso, novamente, fui questionada por sintomas e o motivo de estar lá, já que não os tinha. Ela escutou meus pulmões, pediu para olhar – de bem distante – minha garganta e, por fim, achou melhor me receitar os medicamentos, mesmo constatando que eu talvez não tivesse nada.

Pesou para a decisão da médica o fato de meu marido – que também testou negativo – ter apresentado sintomas de um resfriado que, tempos antes da pandemia, qualquer um consideraria comum.

Na farmácia, uma senhora que também havia acabado de passar pela consulta parou ao meu lado e, assim que olhei para ela, me disse: “eu testei negativo, mas o médico acha melhor tomar os remédios mesmo assim”.

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