O diretor-clínico do Hospital e Pronto Socorro de Cuiabá, Carlos Augusto Araújo, foi exonerado do cargo depois de denunciar supostas irregularidades na unidade, tida como referência para o tratamento de covid-19 na Capital. Entre as falhas apontadas estaria a falta de manutenção nos respiradores mecânicos usados nos pacientes.
As supostas falhas foram descritas em um ofício encaminhado à Prefeitura de Cuiabá, ao Conselho Regional de Medicina (CRM) e a outros órgãos de controle.
O documento foi protocolado na quinta-feira (4), por volta das 16h. O ofício é subassinado por outros 10 médicos que compõem o corpo clínico do hospital.
Cerca de duas horas depois, a exoneração foi assinada.
Até então, Carlos ocupava o cargo de diretor-clínico, ou seja, o representante dos demais médicos perante a direção da instituição e o de cirurgião vascular.
Entre as funções dele está comunicar aos superiores o funcionamento de aparelhos, equipamentos e abastecimento de insumos e medicamentos.
Na atribuição da função, Carlos relatou – entre outras deficiências – a falta de medicação básica para o atendimento aos pacientes e o mau funcionamento de respiradores que, segundo o ofício, já chegaram a parar de funcionar acoplados a pacientes.

A lista de supostas irregularidades também contém:
- ausência de exames básico para o atendimento aos pacientes com covid-19;
- falta de cateter
- déficit de profissionais para cobrir as escalas das UTi, na pediatria, e de outros profissionais, como: ecocardiografista, endoscopista, broncoscopista, ginecologista, cirurgião torácico e otorrinolaringologista;
- falta de laudos de tomografia computadorizada
- problemas com régua de energia nas UTIs
“Tudo que eu recebia de reclamação, era informado. Posso informar o que está errado, mas não tenho poder de compra, não posso contratar, pagar. Quando a cobrança chega em cargos que são de confiança são barradas”, afirma Carlos.
Com a exoneração, ele continua no cargo de diretor-clínico e deixa de exercer a função de cirurgião. Segundo o médico, a função era exercida em um plantão de 24 horas. Por causa da pandemia, ele cumpria a carga horário na modalidade de sobreaviso.
“Querem que fiquemos de plantão dentro de um hospital que recebe paciente com covid-19 e que sejamos contaminados também?”, questiona.
O que diz a Prefeitura?
Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) alega que o então diretor-clínico tinha dois vínculos empregatícios com o município, sendo um deles cargo comissionado. Segundo a Prefeitura, o profissional só exercia a função de um deles e, por isso, foi exonerado.
Além do desligamento, a Prefeitura entrou com pedido de devolução do salário durante o tempo em que ele esteve no cargo e não trabalhou.
Sobre as irregularidades, a SMS afirma que os ventiladores pulmonares foram revisados antes de receber pacientes com covid-19.
Quanto aos problemas na pediatria, a Prefeitura alega que “há meses a UTI infantil do antigo PS não tem pacientes, porque estão sendo atendidos no HMC [Hospital Municipal de Cuiabá]”.
CRM vai investigar
O CRM informou que deve investigar o caso através de uma sindicância.
Em nota, a presidente da instituição, Hildenete Monteiro Fortes, reforça que o código de ética assegura ao profissional o direito de apontar falhas em normas, contratos e práticas internas das unidades em que trabalhe.




