Economia

Os semáforos da vida: ambulantes nem pensam em deixar a faixa de pedestres

Foto de Caroline Rodrigues
Caroline Rodrigues

Basta parar no sinal vermelho para que as batidinhas nas janelas dos carros comecem. São vendedores de todo tipo de artigo. Água, refrigerante, suco, balas, acessórios para carro e ainda o serviço de limpeza de para-brisa. Tudo acompanhado de uma performance artística com show de malabares.

Um comércio pulsante feito nos semáforos de Cuiabá por empreendedores formados pela necessidade e que, com o tempo, descobriram que a liberdade da rua não tem preço.

Willer Dias, 37 anos, trabalha há 20 anos nas ruas. Ele vende limpadores de para-brisa que variam entre R$ 20 e R$ 30, conforme o modelo do veículo.

No currículo, ele carrega a experiência como cozinheiro, manobrista, mensageiro e taxista. Porém, afirma que, hoje, não aceita mais trabalhos formais como os que já passou, por conta do salário.

Willer Dias diz que trabalho na rua é rentável e vale a pena o esforço de ficar exposto ao sol (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

“Eles querem pagar para uma pessoa com pouco estudo no máximo R$ 1,5 mil. Este dinheiro não dá para nada. Sem contar aquela coisa de cumprir horário, que eu não quero mais”.

Para Dias, a rua é o melhor lugar para se trabalhar e, por dia, ele consegue faturar entre R$ 150 e R$ 200.

A rua transformada em picadeiro

Miogo é o nome provisório do personagem criado por Jefferson. Ele é um profissional da arte da palhaçaria, malabares e frequentemente faz seu show na Avenida Mato Grosso.

Os ganhos do nobre palhaço são menores, não passam dos R$ 50 diários. Porém, ele usa a rua para divulgar o seu trabalho e conseguir outros freelances.

Jefferson é artista de rua e faz da faixa de segurança picadeiro (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Foi no semáforo que conseguiu um contrato para atuar na animação de uma festa de Carnaval em Várzea Grande e também teve a chance de se apresentar em um baile de debutantes que tinha como tema o picadeiro.

“Além de ser um cartão de visita, a rua é o melhor lugar do mundo para um artista testar. Aqui, o público traz sempre a verdade. Quando não tem graça, não tem acordo”.

Miogo diz que, normalmente, as gorjetas são pequenas, mas uma vez chegou a ganhar R$ 100.

“A mulher me entregou bem enroladinho. Ela disse parabéns e toma o dinheiro para tomar um café. Naquela correria do semáforo abrir, eu coloquei no bolso. Pensei que era R$ 2 por causa da cor da nota. Quando fui abrir, nem acreditei”.

Limpeza forçada

Cleomar Rodrigues da Costa, 27, está há 2 anos jogando água com detergente no para-brisa das pessoas e limpando com um pequeno rodo.

“Jogamos sem a pessoa pedir. Se não jogamos, não ganhamos, porque ninguém quer”.

Cleomar Rodrigues limpa para-brisa dos carros no meio da rua (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

A estratégia de “marketing” usada pelo trabalhador de rua, nem sempre é bem aceita pelos motoristas. Ele mesmo relata que muitas vezes enfrenta o mau humor das pessoas e até mesmo é alvo de violência.

“Um cara passou com o carro sobre o meu pé. Fiquei dias deitado na cama com febre, não conseguia nem me mexer”.

Segundo Cleomar, a esposa dele pede para ele mudar de trabalho todos os dias. Ela tem medo que aconteça algo, porque acha a rua muito violenta.

“Eu não quero sair daqui. Posso falar com as pessoas, brincar e, ao mesmo tempo, ganhar meu dinheiro. Todos os dias faço no mínimo R$ 150, mas começo às 8 da manhã e paro depois das 21h”.

Nem todo motorista gosta do comércio

O técnico do SUS, Benedito Queiroz, de 55 anos, não gosta da ação dos trabalhadores no semáforo. Ele acha que eles atrapalham o fluxo do trânsito, brigam entre si e, muitas vezes, usam a coação para conseguir o dinheiro.

“Eles se aproveitam das mulheres. Quando é um homem no volante, mudam o comportamento”.

Motoristas questionam ação dos ambulantes e acham que eles atrapalham o trânsito (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Queiroz é nascido e criado em Cuiabá e diz que o aumento dos trabalhadores de rua aconteceu recentemente, a partir de 2010. Segundo ele, é uma nova realidade para o cuiabano.

“E chegou para ficar. O tempo não volta e teremos que conviver com isso”.

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