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A morte do Santa Elina, principal sítio arqueológico de Mato Grosso

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Livre

Ednilson Aguiar/Olivre

Sítio Arqueológico Santa Elina

A arqueológa Suzana Hirooka alerta: parte das pinturas rupestres do Sítio Santa Elina está desaparecendo

Argemiro Ramos Almeida tinha 18 anos quando encontraram “os desenhos”. O jovem peão já trabalhava na fazenda Santa Elina no dia em que um de seus colegas voltou da mata, anunciando a descoberta. Até então, ninguém poderia imaginar que aquele painel de pinturas estranhas no sopé de uma das colinas da Serra das Araras seria um dos mais importantes sítios arqueológicos do continente americano.

Hoje com 82 anos, Argemiro é uma das últimas testemunhas das alterações a que o Síto de Santa Elina foi sendo submetido até que chegasse à situação atual, de completo abandono e esquecimento. “Era bonito lá, aparecia tudo limpo, perfeitinho. Tinha anta, tinha veado, era muito bonito lá, aparecia completinho, mas hoje já está quase apagado”, diz ele, com um sotaque que lembra o tradicional linguajar cuiabano. 

O desconhecimento sobre o Santa Elina não é exclusividade de Argemiro, que viveu toda a vida no município de Jangada, onde o sítio está localizado. A maioria dos moradores não tem ideia de que na região foram encontradas ferramentas de pedra, fogueira e enfeites datadas de 30 mil anos. Na prática, o sítio prova que o homem está na América muito antes do que as teorias propunham. 

Ednilson Aguiar/Olivre

Sítio Arqueológico Santa Elina

Argemiro Ramos Almeida, 82, é uma das memórias vivas sobre a descoberta do Santa Elina – e da sua posterior degradação

A descoberta foi feita por Denis Vialou e Águeda Vilhena Vialou, ambos do Museu Nacional de História Natural da França. Seu Argemiro conheceu o casal de arqueólogos. Os dois visitavam a fazenda com frequência desde os anos 1990, acampavam na sede e realizavam festas para os moradores.

Desde o fim da pesquisa dos Vialou, há cerca de 10 anos, ninguém mais realizou escavações. A Fazenda Santa Elina, com 8 mil hectares, é repleta de pasto, que serve de alimento a um rebanho de 3.500 cabeças. A soja também se espalha e mais de 3 mil hectares já foram plantados na propriedade.

O pasto contra às arvores na falda do morro. A vegetação protegia o paredão onde estão as pinturas rupestres. Mais fungos e mais insetos fazem ninhos nas pedras. A chuva, cada vez mais ácida, escorre pela rocha e ajuda a apagar os registros pré-históricos.

Este tipo de impacto ambiental ainda não foi revertido. A arqueóloga Suzana Hirooka, que visitou o local a convite do LIVRE, diz que a única saída para o Santa Elina é alinhar o turismo a criação de uma faixa verde de isolamento, reflorestando a área próxima que foi desmatada.

“São desequilíbrios ambientais que vão afetando as pinturas. Santa Elina tem um potencial físico muito grande mais ela não tem a atenção nem das autoridades nem da população. Este local, despois de 30 anos de estudo, precisa ser devolvido à população”, criticou ela.

Ednilson Aguiar/Olivre

Sítio Arqueológico Santa Elina-soja

A Fazenda Santa Elina, onde está o sítio arqueológico, tem 3 mil hectares de soja plantada e 3500 cabeças de gado

A pesquisadora, pioneira da arqueologia mato-grossense, cobra uma responsabilidade coletiva pela preservação. Fazendeiros, pesquisadores e poder público deveriam estar atentos ao problema, ela defende. 

“Hoje nós podemos dizer, sem qualquer dúvida, que o Santa Elina está complemente abandonado”, sentenciou ela. Suzana constatou aquilo que Seu Argemiro já adiantava: as pinturas estão desaparecendo e o sítio corre o risco de ser destruído pelo descaso.

Sítio Arqueológico Santa Elina

A importância do Santa Elina está justamente na datação da presença do homem na natureza, pesquisa encabeçada por uma missão franco-brasileira que chegou ao local em meados dos anos 1990, quando a fama dos “desenhos” já havia se espalhado pelo país e pelo mundo.

Ednilson Aguiar/Olivre

Sítio Arqueológico Santa Elina

As pinturas rupestres são feitas com óxido de ferro, resultado da diluição do pó da hematita em água

Depois da Serra da Capivara, no Piauí, o Santa Elina é segundo mais antigo em vestígios de humanos. Nele foram encontrados cerca de 25 mil objetos que indicam a presença humana.

Fósseis também fazem parte do acervo arqueológico do Santa Elina, como é o caso dos “osteodermas” de preguiça gigante, ossos que ficam sobre a pele do animal. Estes ossos eram usados pelos humanos que habitavam a região. Segundo Suzana Hirooka eles eram empregados em rituais ou sobravam de uma refeição.  Estes fósseis também indicam uma relação entre os humanos e a megafauna do período. 

Outro lado

A reportagem do LIVRE tentou contato com o Insituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) para entender quais os motivos do sítio ter sido abandonado, mas até o momento não obteve resposta. 

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