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Brasil: o país que canibaliza seus heróis

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Braulia Ribeiro

Muitas culturas indígenas brasileiras praticavam o canibalismo. Convencionamos chamar a prática de antropofagia para nos distanciarmos da percepção de barbárie que o termo canibalismo traz consigo. Mas não há diferença. Até recentemente antropólogos documentaram vários tipos de canibalismo em várias culturas indígenas.

Alguns estudiosos tentam justificá-lo como um recurso inevitável para suprir a escassez de proteína animal, mas geralmente estes argumento é facilmente desmontado quando se faz com a comparação de grupos debaixo das mesmas circunstâncias. Se fosse apenas falta de proteína todos os grupos humanos nesta condição de escassez seriam levados de uma maneira ou outra à pratica do canibalismo, e não é isto o que acontece.

No Brasil, os grupos que praticavam ou ainda praticam o fazem em rituais específicos que incluem explicações elaboradas de sua visão de mundo.

A antropóloga Aparecida Vilaça tem um trabalho interessante sobre o canibalismo na tribo Wari. Ela explica que o fim do corpo físico é muito importante para marcar a transição da pessoa para uma outra natureza. Para isto o “comedor” a pessoa, tem que se tornar comida.

O funeral Wari portanto tem que incluir o consumo simbólico do cadáver pelos parentes para que a passagem seja considerada final. O canibalismo Tupi ao contrário do término inclui um processo de apropriação da pessoa. O guerreiro inimigo era consumido e assim sua coragem e força eram apropriados pelo consumidor.

Nosso Brasil europeizado que se vê distante de suas raízes indígenas  continua no entanto mantendo rituais canibalizadores. Obviamente não estou falando da prática concreta, mas de uma predileção  para a canibalização de símbolos culturais positivos, uma prática bem semelhante ao costume Tupi.

Nossa cultura tem a característica de ser uniformizante. Destacar-se é quase um pecado. Quando alguém se destaca acima da manada já suspeitamos logo. O que ele esconde? Quem roubou? O que há de errado nele que eu não sei? Qualquer sinal ou símbolo positivo que pode apontar para fora do cadinho que nos funde a todos numa única massa humana, pessimista e dada ao autoflagelo, são sistematicamente consumidos para que percam o seu poder.  Oswaldo de Andrade conclui em  seu manifesto de 1930, que “só a antropofagia nos une.”

Ele está certo. Estamos atrelados ao espírito ancestral que canibaliza aquele a quem admiro, aquele que eu percebo ser maior do que o meu eu-coletivo. O canibalismo Tupi ritualizava  a inveja. Quero a força e a coragem dele, portanto eu o como. A linguagem de poder canibal está presente no Brasil moderno para dar nome também às relações sexuais também. Este indivíduo mal resolvido não faz amor com o outro, ele “come” o outro. E não me entrego ao outro, ao contrário eu me apodero de seu corpo, de sua beleza, eu como para me apropriar para me sentir maior do que ele ou ela,  para possuí-lo. Meu eu é tão pequeno, tão inferior que só no canibalismo me sinto inteiro.

A cultura americana ao contrário da brasileira sempre me incomodou pela sua crença feliz em seus heróis culturais. No começo eu como boa brasileira não entendia a fixação americana com o heroísmo.  São muitos os heróis históricos, que tem seus nomes em bibliotecas, monumentos. Os “pais-fundadores” da nação são honrados constantemente, e em todos os momentos históricos os americanos encontram heróis para reverenciar.

Existe uma missão social que todos parecem abraçar tacitamente de honrar a memória daqueles que se destacam ao  representar seus valores. No Brasil, ao contrário, temos um comichão para destruir, achar buracos nas biografias, desonrar, puxar para baixo, ou simplesmente ignorar aqueles que percebemos virtuosos. A falta de heróis aponta para a anomia.  Virtude? Aqui não! Nada é bom o suficiente, nada nos norteia a não ser a nossa falta de norte. Heróis são faróis que apontam para um destino. Nós não queremos um destino claro nem um norte claro, não queremos espírito, queremos corpo. As palavras de Oswaldo de Andrade  continuam descrevendo a doença de nossa alma:

“Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros

O instinto Caraíba.

Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Cosmos ao axioma Cosmos parte do eu. Subsistência.

Conhecimento. Antropofagia…

Oswaldo não quer ser indivíduo, não quer roteiros que o apontem virtudes, não quer sistemas de construção de conhecimento. Mas será que, quase 100 depois, já não sabemos que este tipo de construção social antropofágica não nos leva a lugar nenhum? Será que queremos continuar patinando na lama? O problema atual que envolve o ministro Sérgio Moro mostra que sim o país quer andar para frente. Mas existe um grupo elitista que quer ver destruída a verdadeira revolução popular que é o governo Bolsonaro e quer assassinar os novos heróis.

O mais importante deles é Moro. Querem comê-lo pedacinho a pedacinho destruindo seu legado virtuoso ao se apropriar do símbolo moral que ele representa.  Esta gente não é justa, nem se posiciona a favor do bem. Agem de maneira ilegal e suja, mas ao inverter a narrativa canibalizam o ministro. Eles, com seus grampos fraudulentos, seu repórter estrangeiro, sua clara inversão moral, querem agora se apropriar da aura de virtude que cerca Moro e posar de heróis. Mas apesar dos ataques o bem permanece de pé, porque eles não são mais a maioria.

O Brasil decente quer roteiros. Ao contrário do que disse Oswaldo, o Brasil do bem quer deixar a antropofagia e ser catequizado. Se o “ser catequizado” significa aprender a construir uma sociedade onde o mal é mal e o bem é bem, onde bandidos são presos e heróis são honrados, e onde nossos filhos podem olhar com orgulho para sua história, a maioria do povo brasileiro hoje quer sim esta catequese.

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26 de abril de 2026 08:56