15 de junho de 2017 - 07:30

Será que o VLT anda mesmo? Vai ter passe livre?

O LIVRE separou curiosidades da história do interminável VLT

Helson França

, da Redação

helson.franca@olivre.com.br

Desde 2009, quando ficou certo que Cuiabá sediaria os jogos da Copa do Mundo com mais 11 cidades, a população convive com a expectativa de ter à disposição um novo sistema de transporte. Pensado para o mundial, o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) segue estacionado.

Três anos após o evento e com os vagões do VLT já adquiridos, as obras, paralisadas há mais de dois anos, encontram-se sem qualquer previsão de retomada ou conclusão. Diante das imprecisões, despontam especulações que fazem do metrô de superfície quase uma lenda urbana: há quem desconfie que ele vá funcionar e aqueles que juram que já o viram em movimento.

Enquanto o impasse se mantém, O LIVRE separou algumas das principais curiosidades envolvendo o VLT ao longo dos últimos anos. Confira:

Em movimento

Quem vê as dezenas de vagões do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) parados há três anos no Centro de Manutenção próximo ao Aeroporto Marechal Rondon pode duvidar que um dia eles serão colocados em movimento. O que muitos não sabem – ou sabem e se esquecem – é que uma parte do VLT já andou – mais de uma vez.

Em outubro de 2014, o governo do Estado chamou a imprensa para testemunhar a primeira composição do modal (composta por sete módulos) em funcionamento por 1,3 km, do Centro de Manutenção até a estação do aeroporto. Em um dos testes, o governador de Mato Grosso à época, Silval Barbosa (PMDB), experimentou três vezes a sensação de andar no VLT.

Atento a detalhes importantes, como o procedimento de abertura e fechamento de portas, sensores sonoros, luzes internas e externas, disposição dos assentos e demais especificações técnicas, Silval se mostrou satisfeito com o trem de superfície, como mostra o vídeo abaixo:

Resta torcer para que, depois de R$ 1,4 bilhão de dinheiro público investido e da possibilidade de que mais R$ 922 milhões sejam consumidos para terminar a obra, como crê o governo atual, o VLT possa entrar em movimento pelos trilhos de Cuiabá e Várzea Grande – agora a serviço da população.

Tour na Europa

Em 2011, diante ainda da indefinição pela escolha do sistema de transporte pensado para Cuiabá para a Copa do Mundo de 2014, uma comitiva formada por lideranças políticas de Mato Grosso viajou à Europa para conhecer de perto o funcionamento de um metrô de superfície.

Liderado por Silval Barbosa, o grupo, composto pelos deputados estaduais José Riva (cumpre liberdade provisória e já foi condenado a cerca de 44 anos de prisão em primeira instância), Sérgio Ricardo e Guilherme Maluf (ainda no cargo), além do ex-secretário de Estado Eder Moraes ficou seis dias entre Londres, na Inglaterra, e Porto, em Portugal.

Rui Farinha/Metrô do Porto

Teste VLT Porto

Riva, Silval, Sérgio Ricardo, Eder Moraes e Guilherme Maluf: unidos pelo VLT.

Na cidade portuguesa, a comitiva foi ciceroneada pelo então presidente do Metrô do Porto, António Ricardo Fonseca. Depois de experimentar o VLT, o governador decidiu adotar o modal em Mato Grosso. Alguns detalhes, entretanto, foram desconsiderados. Entre eles, o fato de que o sistema dá prejuízo devido aos altos custos operacionais desde o primeiro minuto de funcionamento.

Na primeira década ativo, de 2002 a 2012, por exemplo, o sistema português acumulou 10 balanços anuais negativos. A dívida era de R$ 7,7 bilhões, conforme dados do próprio Metrô do Porto (um boletim divulgado no ano passado constatou que, em 2015, o prejuízo foi de € 193 milhões), empresa que administra o VLT. O sistema é subsididado 40% pelo Estado. Por lá, o preço do bilhete varia de ‎€ 1,20 a € 5,15, dependendo das zonas.

O detalhe, porém, não abalou o otimismo das lideranças políticas favoráveis ao VLT. Para o governo de Silval Barbosa, o prejuízo no sistema do Porto era consequência da crise econômica lusitana, já que o poder público português não estaria honrando a sua parte no subsídio ao modal. Em Mato Grosso, com a economia pujante no início da segunda década do século 21, não havia razões para se preocupar. Tudo seria diferente.

Desfile

Pouco mais de dois anos depois de receber autorização do governo federal para dar início à implantação do VLT (o contrato original previa repasse de recursos da União), o governo de Mato Grosso começou a importar os vagões da Espanha. Assim, no dia 8 de novembro de 2013, o primeiro vagão, composto por sete módulos, foi apresentado à população da Grande Cuiabá, sendo recebido com entusiasmo.

Na ocasião, após deixar o Porto Seco, no Distrito Industrial, o vagão foi levado para a Praça das Bandeiras, onde permaneceu parado por uma hora para ser admirado. Para dar continuidade à exibição, o governo preparou um trajeto especial, fazendo com que as três carretas que transportavam os módulos passassem pelas principais avenidas da cidade, até chegar ao destino final, o Centro de Manutenção, situado ao lado do Aeroporto Marechal Rondon.

Secom-MT

vagões VLT

Primeiros vagões do VLT desfilaram pelas principais ruas e avenidas da Grande Cuiabá.

 No caminho, buzinaços, urros de aprovação, fotografias e filas de motociclistas que se formavam atrás das carretas. Pela primeira vez em muitos anos os congestionamentos foram tolerados. Todos queriam registrar o acontecimento, a materialização de um sonho que parecia distante. O governo parecia estar realmente falando sério.

À medida em que o tempo passava e a obra de implantação do modal não evoluía, a empolgação da população com a chegada do restante dos 39 vagões mudou. Buzinaços, urros de aprovação, fotografias e filas de motociclistas atrás das carretas passaram a ser cada vez mais raros, até deixarem de existir.

As lembranças dos dias otimistas, contudo, permanecem.

Paineis pela cidade

O ex-deputado estadual José Geraldo Riva (PSD) foi um dos maiores responsáveis pela articulação política e comoção popular que resultaram na escolha do VLT como o modal de transporte pensado para a capital. Como presidente da Assembleia Legislativa à época, Riva teve embates com o ex-governador Silval Barbosa, que havia se decidido pelo corredor exclusivo para ônibus, o BRT, um sistema mais simples e quase três vezes mais barato que o VLT.

Criou-se no período uma polarização entre os a favor e aqueles contra o modal. Pela cidade, paineis com a imagem de Riva junto ao VLT foram espalhados. Silval optou em não comprar briga com a Assembleia Legislativa liderada por Riva. Detalhes técnicos acabaram subestimados e vieram os vagões, a desfilar pelas ruas de Cuiabá e Várzea Grande.

Divulgação

outdoor riva vlt

 Defensor do VLT, Riva colou sua imagem ao modal e foi condenado.

 A estratégia de Riva de explorar os outdoors não foi bem vista pela Justiça. Em 2015, o juiz Ciro José de Andrade Arapiraca, da 1ª Vara Federal de Mato Grosso, condenou o ex-deputado por improbidade administrativa, devido à autopromoção ilegal. O magistrado determinou a perda dos direitos políticos por 3 anos, além do pagamento de multa de R$ 60 mil.

Passe Livre

Uma das principais dúvidas referentes ao funcionamento do VLT em Cuiabá e Várzea Grande diz respeito ao preço da tarifa. Desde que a implantação do modal foi definida, em 2011, até hoje, ainda não há consenso sobre o assunto. Tampouco há um projeto executivo completo para o empreendimento, apesar de ser a obra de mobilidade urbana mais cara da história de Mato Grosso.

Seja lá qual for o valor da passagem, se o Estado vai mesmo subsidiar, ou quando o VLT deve começar a funcionar, uma coisa é certa: se depender de boa parte dos deputados da Assembleia Legislativa, o sistema deverá ser utilizado gratuitamente por estudantes. Em fevereiro de 2014, a partir de um Projeto de Lei do ex-deputado estadual Luiz Marinho, aprovado, a previsão é de que o benefício contemple também idosos, policiais, agentes carcerários, portadores de doenças e desempregados. À época, a proposta de Marinho foi classificada como “piada” por determinados vereadores de Cuiabá.

AL-MT

AL/MT

 Aprovado, Projeto de Lei que prevê passe livre para VLT ainda não foi sancionado.

“Não cabe aos deputados apresentar projetos de interesse do município”, declarou Domingos Sávio, que atualmente ocupa o cargo de Secretário de Estado de Ciência e Tecnologia. “Como aprovam algo que nem existe? Temos que esperar para saber quem vai gerir o modal. Se o governo do Estado não subsidiar o VLT, a passagem vai custar R$ 10. Devem estar achando que a população é boba. Aprovar uma gratuidade para algo que nem existe, e ninguém sabe se vai existir, é brincadeira”.

O Projeto de Lei de Marinho ainda não foi sancionado.

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