03 de abril de 2017 - 12:22

Fernando Corrêa da Costa, o homem por trás da avenida

Na semana de aniversário de Cuiabá, o LIVRE publica diariamente perfis de personagens mato-grossenses históricos

Bruno Abbud

, da Redação

bruno.abbud@olivre.com.br

Fernando Corrêa da Costa

Fernando Corrêa da Costa, ex-governador e ex-senador de MT

Quando o trânsito se abre e começa a fluir na avenida Fernando Corrêa da Costa, ninguém se lembra de como se abriram os caminhos do homem por trás do nome estampado na placa. Filho de Pedro Celestino Corrêa da Costa, que governou Mato Grosso por duas vezes, e por duas vezes se elegeu senador, entre 1908 e 1926, Fernando Corrêa da Costa via o pai assumir o mandato no Senado enquanto formava-se, aos 23 anos, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Da Câmara dos Deputados ao Palácio Paiaguás, das prefeituras à Presidência do Senado, ele tinha parentes espalhados pelos mais variados degraus do poder. Isso o ajudou a se eleger prefeito de Campo Grande em 1947, aos 44 anos, e logo em seguida sair candidato da União Democrática Nacional (UDN) às eleições de 1950 para o governo do Estado. Facilmente, seu caminho na política começou a se abrir – e, como o pai, Fernando foi duas vezes governador de Mato Grosso e duas vezes senador pelo Estado.

Quando a roda do carro acerta um buraco na avenida Fernando Corrêa da Costa, ninguém pensa nos percalços da vida política de Fernando Corrêa da Costa. Em 1950, ele concorreu ao governo de Mato Grosso contra Filinto Müller, ex-chefe de Polícia durante o governo de Getúlio Vargas e cacique do Partido Social Democrático (PSD). Em 3 de outubro daquele ano, as urnas apontaram 42.313 votos para Fernando Corrêa contra 38.805 para Filinto - uma vitória apertada. Como um buraco, foi apenas um susto, um percalço passageiro. "E uma curiosidade", diz o historiador Sebastião Carlos. "Ambos eram primos".

Quando a chuva despenca e provoca alagamentos na avenida Fernando Corrêa da Costa, ninguém nota que houve momentos em que Fernando Corrêa da Costa esteve submerso. No trabalho, no caso. Depois de eleger-se governador pela primeira vez, Fernando Corrêa mergulhou na vida política e econômica ao organizar a extração de minérios para alimentar a indústria nacional e criar núcleos rurais para colonizar partes remotas do Estado.

Entre outras coisas, abriu estradas, construiu escolas e ambulatórios de saúde mental, ergueu usinas hidrelétricas e usinas de açúcar. Foi diretor do Hospital de Campo Grande e professor da Faculdade Mato-Grossense de Odontologia e Farmácia. E instaurou a Secretaria de Educação, Cultura e Saúde, a Faculdade de Direito de Mato Grosso, o Banco do Estado de Mato Grosso e o Instituto de Previdência de Mato Grosso.

Foi também durante o seu governo que ficou instituído o Tribunal de Contas do Estado (TCE) – Fernando Corrêa empossou os primeiros conselheiros do órgão. “Dr. Fernando era um médico reconhecidíssimo”, diz o historiador Sebastião Carlos. “Ele realmente tinha uma preocupação social humanitária, era um homem absolutamente dedicado à população”.

Quando o viaduto inaugurado em dezembro de 2013 deformou o trajeto da avenida para sempre, ninguém se atentou a um defeito permanente na trajetória de Fernando Corrêa da Costa. Em 30 de março de 1964, um dia antes da ditadura militar depor o presidente João Goulart do comando da República, Fernando Corrêa, então governador de Mato Grosso, aliou-se ao movimento político-militar.

Ao lado de governadores como Nei Braga, do Paraná, José Magalhães Pinto, de Minas Gerais, Ademar de Barros, de São Paulo e Carlos Lacerda, da Guanabara, Corrêa jamais terá essa mancha apagada da biografia. Doze dias depois, o Congresso elegeu o general Humberto Castelo Branco à Presidência. O novo poder instituído entregou o governo de Mato Grosso a Fernando Corrêa até a instauração do bipartidarismo, quando se filiou à Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido do regime. Entre 1967 e 1975, cumpriu o segundo mandato de senador, até deixar de lado a atividade política para se dedicar à pecuária.

Quando alguém percorre atualmente a avenida Fernando Corrêa da Costa de ponta a ponta, não percebe o homem por trás do nome estampado na placa. Fernando Corrêa também ligou os pontos da própria vida. Casou-se e teve dois filhos. Nasceu em Cuiabá, mas foi morrer, "pobre", em Campo Grande, em 10 de dezembro de 1987. “Durante muito tempo, a oligarquia que fazia política em Mato Grosso fazia por gosto ao poder, não pelo dinheiro”, conta o historiador Sebastião Carlos. “As pessoas se dedicavam à política pelo gosto de ter o poder na mão. Hoje, entre o poder e o dinheiro, as pessoas preferem o dinheiro”, continua. "Tanto é que todos os governadores desse período terminaram pobres. O Dr. Fernando, que era um homem de posses, terminou tendo que vender fazendas e uma chácara em Campo Grande". Pouca gente vai se lembrar disso quando passar pela avenida Fernando Corrêa da Costa. A História, certamente, não se esquecerá.

Na semana de aniversário de Cuiabá, o LIVRE publica perfis de personagens históricos que emprestam o nome a avenidas e monumentos da capital. Amanhã, conheça a história de Maria Taquara, a lavadeira negra que revolucionou os costumes femininos em Mato Grosso.

 

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