05 de abril de 2017 - 15:08

Archimedes: da glória à morte na mesma avenida

Jornalista, empresário e advogado, Archimedes Pereira Lima tem um legado de contribuição para Mato Grosso

Noelma Oliveira

, da Redação

noelma.oliveira@olivre.com.br

Nenhuma grande avenida de Cuiabá guarda uma história tão sui generis quanto a avenida jornalista Archimedes Pereira Lima, antiga Estrada do Moinho. A singularidade revela uma trajetória de vanguarda e tragédia particular do homem que, como poucos, contribuiu para o desenvolvimento de Mato Grosso e, porque não, da região Centro-Oeste.

Reprodução

O jornalista, advogado e empresário Archimedes Pereira Lima

 

Foi Archimedes quem abriu a avenida na década de 60 para implantar a primeira fábrica de cerveja de Mato Grosso, a Companhia de Cervejaria Cuiabana S/A, próxima do rio Coxipó. No dia 21 de outubro de 1993, ele morreu num acidente de carro na via que implantou. Naquele mesmo ano, por meio de um projeto do ex-vereador Roberto Nunes, a avenida passou a chamada de Jornalista Archimedes Pereira Lima.

Archimedes trabalhou até o último da sua vida. Morreu aos 85 anos no trajeto que fazia diariamente de casa para o escritório. O acidente aconteceu pela manhã, quando um veículo bateu na traseira do carro que dirigia. Uma pancada na região do coração lhe tirou a vida. Quando a família chegou à Santa Casa de Misericórdia, o jornalista já estava morto.

Para quem circula pela avenida, talvez seja difícil imaginar o legado deixado por Arquimedes, mais ainda sua conexão com o local. O neto dele, engenheiro Arquimedes Pereira Lima Neto, fala com emoção da convivência com o avô. Relata que a avenida foi aberta devido à iniciativa da fábrica. Abrir uma empresa com a marca S/A era algo inédito para os padrões da época. 

O engenheiro relembrou o olhar visionário para o empreendimento, que buscou lastro na Superintendência de Desenvolvimento Amazônia (Sudam), mas diz que o avô não chegou a imaginar o alcance da importante via de acesso, que corta dezenas de bairros até chegar perto da saída de Cuiabá para Rondonópolis.

A avenida proporcionou a abertura de novas frentes de investimento nas proximidades da fábrica, hoje uma das regiões mais prósperas de Cuiabá, cravada entre a avenida Fernando Correa da Costa e avenida das Torres, no Coxipó.

Antes mesmo de chegar a ser dono da indústria, um marco nesta área em Mato Grosso, Arquimedes já merecia grandes homenagens. Segundo reportagem da jornalista Alecy Alves publicada no centenário de seu nascimento, em 2008, ele tinha orgulho de ter sido o primeiro jornalista a obter registro profissional pelo Estado. Foi fundador dos impressos Diário de Mato Grosso e Estado de Mato Grosso.

Archimedes também teve vasta experiência no serviço público: ocupou cargos de secretário de Estado em Mato Grosso e Goiás e atuou no governo Getúlio Vargas, de quem era amigo. Nascido em Campo Grande, também era advogado.

Apesar da carreira de empresário e da trajetória no serviço público, Archimedes preferia ser reconhecido como jornalista, diz o neto. Em 1995, o jornalista e historiador Pedro Rocha Jucá publicou o livro "Exemplo e a palavra de jornalista: em memória do jornalista Archimedes Pereira Lima". Archimedes também ocupou a cadeira 13 da Academia Mato-grossense de Letras (AML) e fez parte do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso.

Reprodução/Facebook

Archimedes com Onofre Ribeiro

Governador José Garcia Neto (à direita) e do chefe da Casa Civil (*Jornalista Archimedes Pereira LIma), amigos queridos. E ao centro o jornalista Onofre Ribeiro, então diretor do Depto de Divulgação do Governo de Mato Grosso, antes da divisão do Estado de 1977

 

O jornalista e articulista político Onofre Ribeiro citou em um artigo que o Dr. Archimedes, como o chamava, "foi empresário, político e jornalista, tudo ao mesmo tempo". "Construiu imagem e reputação sóbrias. Deixou uma história de trabalho e de realizações oportunas nos momentos oportunos. Modesto, partiu ao seu modo, no dia e na hora em que achou oportuno”, escreveu o articulista.

O acervo do jornalista está guardado na casa do filho Archimedes Pereira Filho, há um espaço onde está guardado todo o acervo: documentos históricos, livros e artigos publicados. A família está regularizando a documentação para criação de um instituto, como também providencia a digitalização da ampla documentação, que também conta um pouco da história de Cuiabá.

 

Na semana de aniversário de Cuiabá, o LIVRE publica perfis de personagens históricos que emprestam o nome a avenidas e monumentos da capital. Clique para ler o que já publicamos:

- Fernando Corrêa da Costa, o homem por trás da avenida
- A outra história de Maria Taquara

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