04 de abril de 2017 - 17:37

A outra história de Maria Taquara

Eugênia de Castilho, poetisa, artesã e doceira, foi vizinha da mulher que virou lenda em Cuiabá

Maria Angélica Oliveira

, da Redação

maria.angelica@olivre.com.br

 

Ednilson Aguiar/O LIVRE

Eugênia de Castilho

 Dona Eugênia conta a história não oficial da lavadeira que virou lenda cuiabana

 

Mendiga, prostituta e ousada. Nenhuma dessas descrições de Maria Taquara corresponde à história que conta Eugênia de Castilho, poetisa, artesã e doceira, além de ex-vizinha da mulher que virou lenda em Cuiabá.

“Ela não é nada meu, de sangue, mas a gente fica sensibilizado porque o povo que não conheceu Maria Taquara fala dela”, relata. “Então, quando posso, eu desfaço essas histórias.”

Com a fala mansa e sotaque cuiabano, Eugênia, 73 anos, começa a conversa deixando bem claro: Maria Taquara não pedia esmolas, não fazia programas e nem vestia calças com o objetivo de empunhar alguma bandeira feminista. Era apenas uma mulher solteira e independente, de pouca conversa, que lavava roupas e vendia lenha para se sustentar.

O apelido
A poetisa hoje mora no Ribeirão do Lipa. Na juventude, no entanto, viveu na rua Marechal Floriano Peixoto, no bairro Duque de Caxias. Ela conta que perto dali, no terreno onde hoje está localizado o Shopping Goiabeiras, ficava o rancho de Maria Taquara.

A família da lavadeira era da zona rural, de região de Nossa Senhora do Livramento. Quando o pai morreu, a mãe se mudou com ela e uma irmã para Cuiabá, mas não se se adaptaram à cidade. Maria Taquara começou a construir um casebre de pau a pique com dois cômodos e resolveu ficar na capital, sozinha.

A avó de Eugênia também era da região de Livramento e conhecia a família de Maria Taquara. Quando se mudaram para Cuiabá, retomaram o contato. Aos 12 anos, a poetisa catava marmelada no terreno da vizinha, conhecido como Taquaral, e de vez em quando a visitava junto com a mãe.

“Ela não conversava muito, era fechada. Quando as pessoas perguntavam onde morava, respondia muito rápido, com a voz para dentro: no Taquara. Daí ficou o apelido”, conta, fazendo uma voz gutural e contradizendo quem atribui a alcunha ao fato de que a lavadeira era magra e alta.

Ednilson Aguiar/O Livre

 Praça Maria Taquara

Praça Maria Taquara, no Centro de Cuiabá

 

A lenda da calça comprida
Para entender bem essa história, é preciso primeiro imaginar a Cuiabá dos 50 e 60: uma cidade lenta, empoeirada, de poucos carros e muitas matas, com córregos abundantes e onde todos – absolutamente todos – se conheciam.

“Você olhava a plateia do cinema e conhecia todo mundo. Dava para falar o nome de cada um ali”, lembra Aníbal Alencastro, então um jovem projetista do Cine Teatro Cuiabá e hoje um historiador conhecido.

Só que Maria Taquara não frequentava o cinema. Talvez seja por isso que ninguém saiba direito o verdadeiro nome dela.

“Ela não vestiu a calça. Vestiram a calça nela”

Daquela avenida do cinema, a Getúlio Vargas, Maria só frequentava a calçada. Subia e descia a cidade todos os dias com as mudas de roupa na cabeça.

Era aquela época em que as pessoas observavam a vida passar diante dos olhos – não pela tela do celular. Nas portas das casas e do comércio, viam o caminhar da Maria silenciosa e séria. E foi numa calçada dessas que surgiu a lenda da calça comprida.

“Ela não vestiu a calça. Vestiram a calça nela”, conta dona Eugênia, subvertendo a história oficial. A artesã diz que Maria Taquara não menstruava e, talvez por isso, não se preocupava em usar roupas íntimas. Também gostava de tomar uns tragos na Praça Alencastro, onde havia vários bares. Bebia tanto que não conseguia voltar para casa. Acabava caída na rua e ali ficava até curar o porre.

Numa bebedeira dessas, subindo a Getúlio Vargas, Maria foi desabar bem na porta do Hotel Excelsior. “Nesse dia, o vento estava soprando muito forte, de lá para cá”, relembra dona Eugênia. Da sacada do hotel, algumas mulheres flagraram a cena: Maria Taquara jogada no chão, o vestido revirado para cima e nada por baixo. O puritanismo ordenou que alguém logo desse jeito naquilo.

"Cataram uma calça de um dos homens e vestiram nela. Ela acordou, pegou as coisas e foi embora. Só que gostou da calça.”

Ednilson Aguiar/O LIVRE

Eugênia de Castilho

 

Maria Taquara, Maria meu bem
Também é preciso dizer que Maria Taquara não ligava para o que falavam dela - ou pelo menos fingia bem. Passou a usar calças e retrucava quando ouvia piadinhas sobre sua vida pessoal. É que o rancho dela – mulher solteira e independente na Cuiabá dos anos 60 - ficava ao lado do 16º Batalhão de Caçadores, cheio de jovens soldados confinados.

“Eles só saiam à noite, para fazer as rondas. Sabiam que estava sozinha e começaram a “lutar” com ela. Não sei se aceitou de bom grado, mas eles iam e ficavam com ela. Não [acho] que cobrasse por isso ou ficasse com outros homens”, relata dona Eugênia.

Algumas noites depois, Maria já ouvia provocações quando passava ao lado do quartel com as trouxas de roupa. “Até que um dia ela se encheu disso e respondeu: ‘É, de dia Maria Taquara, e de noite Maria meu bem’”.

A lavadeira que entrou para a história como Maria Taquara se chamava, na verdade, Maria Conceição, conta a ex-vizinha, sem se lembrar, porém, do sobrenome da mulher que conquistou o imaginário dos cuiabanos. 

Na semana de aniversário de Cuiabá, o LIVRE publica perfis de personagens históricos que emprestam o nome a avenidas e monumentos da capital. Confira a primeira reportagem da série: Fernando Corrêa da Costa, o homem por trás da avenida

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