09 de agosto de 2017 - 13:47

Silval confessou propina de R$ 18 milhões da CAF Brasil por obra do VLT

Ação se baseou em delações do ex-governador Silval Barbosa e do ex-secretário Pedro Nadaf

Mikhail Favalessa

, da Redação

mikhail.favalessa@olivre.com.br

Ednilson Aguiar/O Livre

VLT Veículo Leve sobre Trilhos

Vagões do VLT armazenados em Várzea Grande

A Operação Descarrilho, deflagrada na manhã desta quarta-feira (09) pela Polícia Federal, se baseou em informações prestadas pelo ex-secretário Pedro Nadaf e pelo ex-governador Silval Barbosa (PMDB) em delação premiada fechada com o Ministério Público Federal.

VEJA A ÍNTEGRA DA DENÚNCIA

Silval confessou que houve um acerto de propina com a CAF Brasil, fabricante dos trens do Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT), no valor de R$ 18 milhões. No entanto, Nadaf relatou à Justiça um valor maior: disse que o então governador lhe confidenciou que a propina era no valor de 8 milhões de euros, o equivalente hoje a R$ 29,4 milhões. Silval também teria consultado Nadaf sobre a possibilidade de utilizar uma conta na suíça para ocultação dos valores.

Em seu depoimento, Silval afirmou que não houve direcionamento na licitação referente à implantação do VLT porque a propina já estava nos planos, não importava o resultado.

"Independentemente de quem vencesse, o grupo político procuraria o consórcio vencedor para negociar um 'retorno", o que de fato foi feito, de acordo com o ex-governador", diz um trecho do inquérito da Polícia Federal.

"Independentemente de quem vencesse, o grupo político procuraria o consórcio vencedor para negociar um 'retorno', o que de fato foi feito, de acordo com o ex-governador"

 

O retorno foi acertado com a CR Almeida, integrante do Consórcio VLT Cuiabá-Várzea Grande, e com a CAF Brasil. Silval relata que o retorno dos R$ 18 milhões foi combinado com um diretor da CR Almeida de quem ele não se recorda o nome, além do presidente da CAF Brasil, Renato de Souza Meireles, e Agenor Marinho Contente Filho, Diretor Geral da empresa no Brasil.

Propina para pagar dívidas de campanha

Silval pediu a Maurício Guimarães, ex-secretário Extraordinário da Copa do Mundo (Secopa), que procurasse o Consórcio para viabilizar o pagamento da propina. O ex-governador precisava de recursos para o pagamento de uma dívida com o Banco Rural, feita por intermédio do empresário João Carlos Simoni, da Todeschini Construções e Terraplanagem, a pedido do grupo político de Silval. A dívida era fruto da campanha eleitoral de 2010.

Depois do contato de Maurício Guimarães, um diretor da construtora CR Almeida, integrante do Consórcio VLT, procurou o ex-governador. Na reunião, Silval reiterou a necessidade de um "retorno", condição que foi aceita pelo representante da CR Almeida.

Foi definido que 3% dos valores pagos pelo governo do Estado pelas obras de infraestrutura do VLT retornariam em propina ao ex-governador. Dos R$ 600 milhões pagos à construtora, Silval admite ter acertado o recebimento de R$ 18 milhões no esquema.

Ednilson Aguiar/O Livre

Veículo Leve sobre Trilhos (VLT)

Trecho de obra dos trilhos do VLT em Várzea Grande

A Todeschini Construções e Terraplanagem foi subcontratada pelo Consórcio VLT, com um superfaturamento de 3% que seria repassado a cada medição realizada.

A análise bancária revela que um dos principais destinatários de valores da CR Almeida e da Santa Bárbara foi a empresa Cohabita Construções LTDA. Entre janeiro de 2012 e março de 2014, a Cohabita recebeu R$ 16,2 milhões "com destaque para diversos pagamentos, em valores altos e 'fechados', conforme ilustrado na informação policial anexa". A empresa tem como sócios, Aline Berghetti Somini e Bruno Simoni, filhos de João Carlos Simoni.

Silval contou que viajou, ao lado de Maurício Guimarães, a Curitiba (PR) para se reunir com Marco Antonio Cassou e Arnaldo Manoel Antunes, ambos diretores da CR Almeida, em 2013. O ex-governador afirma que a empresa tinha ciência do valor maior a ser repassado a João Carlos Simoni, que então pagaria a dívida com o Banco Rural. A reunião teria como objetivo tratar dos atrasos na obra, que tinha previsão de entrega para 2014, e também dos repasses de propina.

"O ex-governador precisava de recursos para o pagamento de uma dívida com o Banco Rural, feita por intermédio do empresário João Carlos Simoni, da Todeschini Construções e Terraplanagem, a pedido do grupo político de Silval"

O contrato de empréstimo citado por Silval já havia sido investigado na Operação Ararath. O empréstimo foi contraído em 2012 pela Todeschini no valor de R$ 29,5 com o Banco Rural S/A, tendo como avalistas, além do próprio João Carlos Simoni, Wanderley Facheti Torres e sua empresa, a Trimec Construções e Terraplanagem.

Contudo, a gestão do ex-governador chegou ao fim antes do final da obra - até hoje inacabada - e o pagamento da propina também não teria sido feito por inteiro.

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