29 de setembro de 2017 - 10:04

Grupo do MPE faria denúncia "inverídica e distorcida" contra Orlando Perri

Afirmação faz parte do depoimento da principal testemunha dos inquéritos conduzidos no TJ, o tenente-coronel da Polícia Militar José Henrique Soares

Laura Nabuco

, da Redação

laura.nabuco@olivre.com.br

Tribunal de Justiça

Desembargador Orlando Perri

Orlando Perri: relator do caso dos grampos no TJ, ele chegou a ser gravado por oficial da PM

Um grupo de promotores de Justiça estaria disposto a atuar em prol dos membros do esquema de grampos ilegais em Mato Grosso, conduzindo uma investigação com base em denúncias supostamente falsas contra o desembargador do Tribunal de Justiça Orlando Perri, relator dos inquéritos que apuram o que ele próprio chama de “grampolândia pantaneira”.

A afirmação é do tenente-coronel da Polícia Militar José Henrique Soares, principal testemunha das investigações acerca das interceptações telefônicas, em depoimento prestado à delegada Ana Cristina Feldner.

Soares preferiu não citar nomes. Afirmou, no entanto, que pessoas ligadas ao grupo que realizava os grampos ilegais o orientaram a procurar o Ministério Público Estadual (MPE) para fazer uma denúncia contra Perri.

Na oportunidade, ele teria que apresentar uma gravação – que o tenente-coronel não especifica ser em áudio ou vídeo – que ele próprio teria feito, com duração de aproximadamente duas horas. Apesar disso, ressalta que o teor da denúncia “não condiz com a verdade”, se tratando de fatos “totalmente distorcidos”.

O conteúdo da acusação contra Perri, ainda de acordo com ele, seria entregue a um promotor de Justiça a ser indicado num segundo encontro – que acabou não ocorrendo –, entre ele e as pessoas do esquema de grampos ilegais.

As orientações iniciais, segundo o policial, davam conta de que um grupo de promotores estaria “ligado aos interesses” dos envolvidos nos grampos. “Aí a gente deduz quem sejam [os promotores]”, completa, mas também sem citar nomes.

Soares afirma que o plano também envolvia profissionais da imprensa. A ideia era divulgar o máximo possível o fato de que o desembargador que investiga os grampos também era alvo de um inquérito para apurar supostas irregularidades cometidas por ele.

“Além do Ministério Público, alguém da imprensa iria entrar em contato comigo. Eu deveria dar entrevista, ir em programa de televisão, usar tudo quanto é ferramenta de comunicação em massa para divulgar essas informações”, disse ele, à delegada.

Testemunho
Soares é a principal testemunha dos inquéritos conduzidos por Feldner e relatados por Perri. De acordo com a decisão do desembargador que culminou na deflagração da operação Esdras, na última quarta-feira (27/9), ele chegou a integrar o grupo que realizava os grampos ilegais, após sofrer ameaças.

Ele teria sido coagido a colaborar com o esquema para não ter expostas informações quanto a sua condição de dependente químico e sócio de uma empresa, situações que poderiam culminar em procedimentos disciplinares contra ele, dentro da Polícia Militar.

Em dado momento, no entanto, Soares passou a reunir informações contra os membros do grupo que realizava os grampos. Os dados foram usados para embasar os mandados de prisão cumpridos nesta semana contra oito pessoas, entre elas os secretários de Justiça e Diretos Humanos, Airton Siqueira Júnior, e de Segurança Pública, Rogers Jarbas, além dos ex-secretários-chefes da Casa Civil, Paulo Taques, e da Casa Militar, Evandro Lesco.

Outro lado
Em nota emitida ainda na quarta-feira (27/9), o procurador-geral de Justiça, Mauro Curvo, afirmou ter buscado informações e descoberto que entre os membros do MPE que supostamente auxiliariam os integrantes do esquema de grampos estariam ele próprio e o promotor de Justiça Marcelo Ferra de Carvalho, hoje sub-procurador-geral de Justiça.

No texto, Curvo afirmou se tratar de uma “canalhice e de total despropósito com a finalidade de enfraquecer a instituição”. Segundo ele, “qualquer membro do Ministério Público está à disposição para ser investigado de modo a espancar qualquer dúvida sobre sua idoneidade”.

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