29 de julho de 2017 - 08:00

Por meio do Facebook, mulher encontra mãe depois de 40 anos

Elas foram separadas ainda no hospital; "além de uma mãe, ganhei toda uma família muito bacana", diz recepcionista

Helson França

, da Redação

helson.franca@olivre.com.br

Divulgação

Valkiria e mãe biológica

 

As incertezas sobre o passado rondaram Valkiria Spigolon por 40 anos. Depois de a mãe lhe dar à luz, não teve contato com a genitora e foi adotada três dias após o nascimento no Hospital de Base, em São José do Rio Preto (SP).

Com a nova família, prevaleceu a harmonia, sabendo, desde criança, que era privilegiada por ter três mães: a mãe do céu, a mãe responsável pela criação e a mãe que a carregou no ventre. “Era a anedota usada pela minha mãe adotiva para explicar que eu era adotada”, explicou.

Maria Helena Spigolon, a mãe adotiva, durante o processo de adoção, conseguiu reunir informações como o nome e o endereço da mãe biológica da filha, no caso de ela, futuramente, querer conhecê-la.

Valkiria cresceu sem mágoas, se casou, teve duas filhas, separou-se, perdeu os pais adotivos e seguiu adiante, trabalhando como recepcionista no Hotel Taiamã, em Cuiabá - emprego que mantém há 14 anos. Um tipo de vazio, contudo, permanecia no coração. Afinal, por que a mãe a deixou? Será que ela ainda estaria viva? E, se estivesse, como será que a receberia? Por medo e por achar que pudesse estrar traindo a família adotiva, Valkiria não conseguia avançar nas buscas. 

As indagações começaram a ir ao encontro das respostas com a ajuda da filha mais velha, Bárbara Spigolon. Em 2014, ciente da história, ela usou a rede social Facebook e, ao digitar o nome informado pela mãe na área de pesquisa de usuários, no mesmo instante localizou uma mulher negra. De sobrenome Olegário e moradora de Carapicuíba, em São Paulo, Maria Madalena demonstrava um sorriso muito semelhante ao de Valkiria.

“Quando a minha filha mostrou a foto dela, percebi que havia boas chances de ela ser a minha mãe. Foi uma emoção muito grande”, disse.

A confirmação
Ao analisar o perfil de Maria Madalena na rede social, Valkiria percebeu que a conta poderia estar quase desativada devido à falta de atualização. Mandou uma mensagem mesmo assim, indo direto ao ponto, porém, não obteve resposta. "Até hoje ela não visualizou a mensagem", contou. Ainda um tanto receosa, a recepcionista deixou a ideia um pouco de lado, até descobrir, pesquisando no perfil de Maria, que ela tinha uma filha.

Em setembro de 2016, Valkiria se encheu de coragem e tentou contato novamente, dessa vez, enviando uma mensagem para Cristiane Olegário, filha de Maria. Mais comedida, a recepcionista inventou uma história de que as famílias poderiam ser, pelas mães, amigas há muito tempo. Uma resposta veio no mesmo dia e, então, ela resolveu abrir o jogo: que no ano de 1975 foi deixada no Hospital de Base em São José do Rio Preto e que, pelas informações da mãe adotiva, tudo levava a crer que Maria Madalena Olegário seria a sua mãe biológica.

Após alguns minutos de nervosismo pela resposta que demorava a chegar, Valkiria pediu desculpas e, quase que no mesmo instante, as mensagens começaram a vir, uma atrás da outra, repletas de efusividade. "A Cris confirmou toda a história com a mãe e na mesma hora passou a me chamar de irmã", disse Valkiria.

Trocaram telefones e, horas depois, a recepcionista ligou para Maria Madalena. "Ela disse que havia estado à minha procura a vida toda e que eu a perdoasse, pois não teve culpa do que aconteceu no hospital", relatou a recepcionista.

Maria Madalena contou que tinha 15 anos quando engravidou. O pai, mais velho, trabalhava em um parque de diversões itinerante e não acompanhou a gestação. Por não aceitar a situação, Maria contou que a família chegou a expulsá-la de casa e que viveu na rua estando grávida de oito meses. Quando deu à luz, a mãe dela imediatamente colocou o bebê para a adoção e, até então, nunca mais haia tido notícias da filha. "Naquela época, era tudo meio bagunçado quanto à adoção. Eu compreendi o lado dela e não senti mágoa alguma, muito pelo contrário, queria logo era ir encontrá-la", revelou Valkiria.

Ednilson Aguiar/O Livre

Valquiria adoção

Valkiria com as filhas: ansiosas para conhecer a avó e toda a nova família

Grupo de WhatsApp
O entusiasmo foi tamanho que, no mesmo dia, Valkiria foi adicionada no grupo de WhatsApp da nova família, recebendo as boas vindas de uma infinidade de tios e primos que desconhecia. "Foram extremamente simpáticos comigo desde o início. Logo percebi que todo mundo era gente boa, como eu", brincou.

Um mês depois, a recepcionista faria a sua primeira viagem sozinha, sendo recebida no aeroporto de Carapicuíba pela irmã, com quem trocou um forte abraço. Pouco depois, após 41 anos, pôde, finalmente, trocar afetos e sorrisos com a mãe biológica pessoalmente. "Não demorou para perceber que éramos muito parecidas uma com a outra, no astral, no modo de ser. Foi mais certeiro do que qualquer exame de DNA", disse.

Foram três dias de muita celebração e conversas até Valkiria voltar para Cuiabá. Desde então, mãe e filha permanecem em contato quase que diariamente e já planejam futuros reencontros. "Minhas filhas querem muito conhecer a avó e vice-versa". Sobre as surpresas da vida, Valkiria é só agradecimento. "De repente, Deus vem e me deu uma mãe de novo, uma irmã, uma família enorme e muito bacana. É uma verdadeira bênção", avaliou.

Quanto ao grupo de WhatsApp, contudo, revelou que achou por bem sair. "Ah, não dou certo com esses grupos. É mensagem chegando a toda hora, né?".

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