06 de novembro de 2017 - 14:14

Haitiano supera as barreiras do preconceito e da língua e vai medicar em Cuiabá

Primeiro médico haitiano de Mato Grosso busca espaço no mercado de trabalho

Lidiane Barros

, da Redação

lidiane.barros@olivre.com.br

Bem-vindo à Marly-Gormont, ou seria Cuiabá? Duas histórias reais. A primeira, virou filme e integra o catálogo da Netflix, narrando a trajetória do médico nascido no Congo, Seyolo Zantoko. Recém-formado na capital de seu país, Kinshasa, segue com a família em busca de oportunidade em uma pequena aldeia francesa.

O longa-metragem revela a todo momento que algumas pessoas precisam ter ainda mais perseverança do que outras, especialmente por conta de sua origem e do tom da pele. Trata com leveza a temática racial e revela como atitudes preconceituosas podem ser cômicas, bastando para isso avaliá-las sob outra perspectiva.

Em Cuiabá, uma história chama atenção pela semelhança. Nesta manhã de segunda-feira (6), o haitiano Jean Richard saiu de casa cedo em busca do primeiro emprego em uma outra “aldeia” e o medo é o menor dos sentimentos. Jean é uma pessoa determinada e que possui uma autoconfiança invejável.

Assim como outros milhares de haitianos que viram em Cuiabá uma cidade acolhedora e lugar de oportunidades, ele vai buscar em hospitais cuiabanos uma vaga no mercado de trabalho. Na quarta-feira (1º), conquistou o CRM, um número de registro indispensável à prática da medicina, que o profissional adquire ao entrar com pedido para liberação do exercício da profissão, junto ao Conselho Regional de Medicina.

Ednilson Aguiar/Olivre

medico Jean Richard

Jean Richard Ileus é o primeiro haitiano a conquistar registro junto ao Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso

Para chegar até aqui, Jean passou por avaliação realizada pela Universidade Federal de Mato Grosso, que revalidou seu diploma de médico e, depois, por prova da Celpe-Bras, aplicada pelo Ministério da Educação, para provar que estava apto a se comunicar em português.

Ele sabe que pode não ser tão fácil, mas nada que abale a sua serenidade. Afinal, sabemos que o preconceito pode ser a primeira barreira, antes mesmo do desafio de conquistar o primeiro emprego. “Eu estudei muito para isso. Acredito em minha competência e tenho 1.000% de autoestima. Não tenho medo algum, não tenho medo de nada”, declarou, com firmeza.

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Jean Richard Bilhete

O Dr. Jean Richard tem uma receita infalível para ser feliz

 

Diferencial ele tem: estudou medicina na República Dominicana, participou de conferência de medicina familiar em Cuba, já morou em oito países diferentes e fala sete línguas: as nativas, creole e francês; inglês, espanhol, papamiento, patuá e o idioma que aprendeu mais recentemente, o português.
Quando questionado sobre a possibilidade de enfrentar mais desafios por ser negro e por ter origem haitiana, ele respondeu: “Racismo é falta de educação ou coisa de gente muito frustrada na vida”.

Mas confessou que um episódio foi determinante para que ele tentasse conquistar seu registro, especificamente em Mato Grosso. “Eu estava conversando com um amigo haitiano que deve ser o próximo a conquistar o CRM regional, quando ouvi outras duas pessoas conversando. Era um haitiano e uma brasileira. O haitiano nos apontou para ela e disse: ‘está vendo aqueles dois ali? Eles são médicos’. E ouvi ela respondendo: ‘O quê? Médico? Negro? Haitiano? Quem vai querer consultar com esses dois?’”. Ele relembra que foi nítido o desânimo do rapaz.

“Mas eu estava de viagem marcada para ver minha família, que hoje mora nos Estados Unidos e pensei comigo: 'vou voltar para cá, vou validar meu diploma e é aqui que eu vou trabalhar'”.

“Na cabeça não tenho medo, só tenho livros”

“Sou uma pessoa que acredita muito em Deus, peço a Ele saúde e capacidade para estudar cada vez mais. A vida já é muito difícil, mas especialmente para uma pessoa negra. Mas eu não deixo essas coisas agirem em mim, eu só conservo coisas boas”.

Esse acontecimento o fez lembrar de um amigo haitiano que também é médico. Ele atua em um hospital em São Paulo. Certa vez, uma enfermeira começou a vociferar contra o amigo, dizendo que um haitiano não podia trabalhar no Brasil.

“Vendo a cena, um médico brasileiro foi lá falar com ela e perguntou o que estava acontecendo. Ela dizia que não entendia nada, que ele não sabia português, que ele mal podia escrever uma receita médica e que o trabalho dela ficava comprometido por isso”.

O médico, por sua vez, verificou a receita e percebeu que estava tudo certo. “O problema é que você não está entendendo a letra dele, ‘você sabe como é letra de médico’, brincou. Você está dizendo que ele não sabe português? Este moço aqui fala cinco línguas. Quantas você fala? É assim que você retribui os esforços de uma pessoa que está ajudando o seu país?”, disse o médico brasileiro à enfermeira. 

Sabe-se que nascer em solo haitiano já é um grande desafio. O país sofre com catástrofes naturais e problemas sócio-políticos derivados de uma inconstância da qual ninguém pode se proteger. “A capital Porto-Príncipe sempre foi uma das mais atingidas. É lá que estão as pessoas que trabalham para garantir uma vida melhor para os familiares das cidades do interior, mas muitas delas, quando não morreram, passaram a conviver com deficiências físicas em decorrência dos terremotos”, explica. Ele conta que, fora as cicatrizes, nas pessoas e nas cidades, já morreram mais de 500 mil pessoas.

Não fosse por estes desafios tão fortuitos, o Haiti teria grandes chances de estabilidade. “Para você ter uma ideia, começamos a ir à escola aos dois anos e desde então aprendemos o inglês e espanhol. Ao todo, são 14 anos de estudo”, conta.

O médico já fez outros cursos técnicos, como informática básica e relacionamento humano. Este último, a propósito, foi um dos grandes motivadores ao desenvolvimento de uma empatia admirável, especialmente em relação a pessoas preconceituosas. “Racismo tem em todos os níveis. De branco contra negro, de negro contra branco e até de negro contra negro e branco contra branco. Mas no final das contas, se você cortar a pele, o sangue tem a mesma cor para todos”, resume.

Jean Richard nasceu em Porto Príncipe há 33 anos. Começou a estudar em 2007 e em fevereiro de 2013 concluiu os estudos. Foi presidente da Faculdade de Medicina no período, uma espécie de porta-voz do Comitê Estudantil em Santo Domingo. Em um ano de internato, a residência médica do país, fez cirurgias, atuou como psiquiatra, médico de emergência e traumatologista, entre outros.

Em 2014, depois do terremoto e sabendo que muitos haitianos estavam vindo para o Brasil, resolveu apostar. Passou um tempo em São Paulo até chegar a Cuiabá, voltou para os EUA de novo para ver a família, e depois do ocorrido com a mulher que duvidava que um médico haitiano seria aceito em Cuiabá, dedicou-se a uma nova fase de seu desafio.

Em 2015, buscou orientação da UFMT e, à época, não falava português muito bem. Teve que estudar, mas, sem dinheiro, aprendeu por conta própria. “Nunca fiz curso de português, comecei lendo sozinho livros em português e, mais tarde, comprei livros de medicina”. Em seis meses ele já estava preparado para a prova de proficiência. “Na minha cabeça não tem lugar para desânimo, para medo. Só tem livros”, brinca.

Foco e fé

Preparando-se dia e noite, ele só tem um foco: conseguir uma vaga em uma clínica ou pronto-atendimento em Cuiabá. “Quero ajudar Cuiabá, quero ajudar Mato Grosso, quero ajudar, sobretudo, o Brasil. Eu me preparei para isso e tenho as mesmas condições que qualquer outro profissional. Mas eu tenho paciência”. E essa virtude faz a diferença. “Deus está trabalhando por mim, sei disso. Sempre O coloco à frente de tudo que faço”, diz o médico, que tem ainda muita vontade de atuar em favor das comunidades indígenas no Brasil.

Em uma das cenas de Bem-Vindo à Marly-Gormont, o protagonista, que buscava aceitação da comunidade do interior da França, diz ao filho: “Apenas educação importa, especialmente quando você é negro”. E o filho lhe pergunta: “Por quê especialmente quando se é negro?”. Talvez porque a comprovação das condições de aprendizado e de capacidade intelectual seja uma cobrança feroz da sociedade, que precisa rever seus conceitos.

Mas já que na vida real a história do médico do Congo teve um belo desfecho, esperamos nós que este seja mais um episódio de uma série de conquistas. Assim como Seyolo, o médico haitiano é determinado. Bem-Vindo a Cuiabá, Jean Richard.

E você? tem uma história inspiradora como esta para nos contar? Envie um e-mail para a gente!

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