02 de dezembro de 2017 - 15:30

Lutar contra corrupção "é muito maior que a seleção brasileira", diz Tite

Tite ainda quer que seu grupo na seleção seja usado como uma maneira de passar uma mensagem de que acabou a era dos "malandros"

da Redação

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tite

A luta contra a impunidade e colocar corruptos na prisão é algo "muito maior que a seleção brasileira". A declaração é do treinador Tite, que, um dia depois do sorteio da Copa do Mundo, comentou a situação do futebol nacional, da política, a gestão da CBF e suas expectativas para o Mundial de 2018.

"O fim da impunidade, de prisão para corrupto, é muito maior que a seleção brasileira", disse o técnico em entrevista ao Estado. "Ele é muito maior que o futebol. Ele é histórico, de um País melhor, de um País mais educado", afirmou.

Tite ainda quer que seu grupo na seleção seja usado como uma maneira de passar uma mensagem de que acabou a era dos "malandros". "Tomara que o futebol da seleção seja de vencer sendo o melhor. Que ele passe uma mensagem ao público que nós queremos ser mais competentes. Não queremos ser mais malandros do que ninguém", disse. "E se esse for o papel do futebol, junto com a alegria, que o faça", defendeu.

Evitando falar diretamente dos casos de José Maria Marin nos Estados Unidos e das acusações contra seu chefe, Marco Polo Del Nero, Tite insistiu que não tinha "condições de julgar". "O compromisso que eu assumi é de transparência. Eu venho aqui e coloco os critérios. Eu faço e quero fazer de meu trabalho meu exemplo", apontou.

Em campo, o treinador explicou como vai usar os próximos seis meses para consolidar o time. Mas não fechará portas a novos atletas. "Eu seria burro se fizesse isso", disse.

No sorteio para a primeira fase da Copa, o Brasil descobriu que enfrentará Suíça, Sérvia e Costa Rica. Para Tite, o grupo é forte mentalmente e a seleção terá de se preparar também nesse aspecto, amplamente discutido em 2014. Segundo ele, a camisa da seleção pode "oprimir". Mas aposta que os jogadores hoje estão mais maduros. Eis os principais trechos da entrevista:

Depois do sorteio, muitas seleções e treinadores disseram que o Brasil não era apenas o favorito de seu grupo, mas também da Copa. Por que é que você não se considera favorito ou se considera?

Considero, sim. Um dos favoritos. É inquestionável e por alguns aspectos. Um deles é a história. A qualificação dos atletas individualmente, ela te remete a isso. O momento da seleção. Isso tudo a credencia para ser um dos favoritos. Tu coloca a Alemanha, a França, Portugal, que ganhou o Euro. Daí para transpor isso para dentro de campo, é outra história.

O senhor falou em "consolidar" a seleção. O que significa isso na prática?

Significa, nessa segunda etapa de preparação, enfrentar equipes parecidas com a característica da Suíça. O futebol sul-americano às vezes tem uma característica diferente. Essa é a segunda fase da preparação. Eles foram distribuídos a grosso modo de forma equilibrada. Porém, com algumas características próprias. A grosso modo de novo e teoricamente, Portugal e Espanha são os francos favoritos e as outras equipes não tem o poderio técnico. Diferentemente do grupo do Brasil. Não tem uma equipe que você possa dizer: tem um nível técnico. São todas equipes qualificadas. Inclusive, no ranking e pontuação da Fifa, o grupo mais forte tem Brasil e Suíça. Mais do que Espanha e Portugal.

Fica muito claro no grupo do Brasil que são seleções que se defendem muito bem. No jogo contra a Inglaterra, a seleção teve um pouco de dificuldade para superar isso. Como fazer para se preparar para isso? Suíça e Sérvia tomam poucos gols.

São desafios, em cima das características deles. É uma nova etapa, sim. Começamos a trazer outras escolas. Pegamos o Japão, uma escola asiática, pegamos a Inglaterra, uma europeia, vamos pegar a Rússia para ter uma proximidade maior. Agora, vamos pegar equipes que tenham essas características que Suíça tem, que a Costa Rica tem, enfim, para que possamos nos preparar para uma segunda etapa. O jogo da Inglaterra nos permitiu ver que temos de fazer uma variação maior. Nós temos que ter outras opções e isso vai ser necessário. Mas ela trouxe também um componente muito forte. O técnico da Inglaterra disse: 'Nós não conseguimos agredir o Brasil, não conseguimos encontrar o Brasil exposto, criamos muito mais contra a Alemanha. Fiquei muito mais contente contra a Alemanha, porque o Brasil conseguiu nos neutralizar e retomar a posse de bola'. Então, esse processo de não dar oportunidade foi bem marcante e, em termos ofensivos, criar variantes.

Isso significa que a lista de convocados não está fechada?

Ela não está fechada. Eu tenho um pouquinho de inteligência para não fechar lista num Brasil que te permite surgir um Gabriel Jesus de repente e te afirmar. Não sou tão burro assim para fechar esse tipo de situação. Se eu tivesse quatro anos, e isso seria o ideal de preparação, talvez essas oportunidades seriam maiores. Mas eu não consigo. Entre o real e o ideal. O que é o meu real? Fortalecer a equipe, criar as variáveis ofensivas, ela se consolidar, maturar. Mentalmente, esse nosso grupo é muito forte. A Suíça mentalmente é muito forte. Nível de enfrentamento é alto.

Isso foi uma questão na Copa de 2014. Isso pode se repetir? Como preparar essa ansiedade, depois do que ocorreu em 2014?

Faz parte do que aconteceu em 2014, assim como ocorreu em 2002, falando especificamente da Alemanha. Agente traz esse marco. Ele é um fato real. Temos que administrar isso, jogar. Historicamente, tudo o que acontece faz parte. Agora, o que tem é uma nova etapa. Talvez até uma etapa de maturidade dos atletas que se prepararam para essa Copa de estarem muito mais habituados a essas pressões e expectativas altas, que quando você coloca a camisa da seleção brasileira te traz. Da mesma forma que você é um postulante ao título, ela pode te oprimir. Se eu for cobrar resultados deles de jogo - e claro que eu quero vencer -, é muito raso. O que eu tenho de cobrar é desempenho. O Marcelo da seleção tem que ser o Marcelo do Real Madrid. O Alisson tem que jogar como o Alisson da Roma. Trazer essa performance dos seus clubes. O Douglas Costa tem que ser o Douglas Costa da Juventus. O Paulinho, o do Barcelona.

E o Neymar?

O Neymar da seleção, o Neymar do PSG, porque ele trouxe uma movimentação que ele já fazia. Ele ampliou a área de atuação. E o Neymar, quando tiver necessidade, do Barcelona. Às vezes, jogar um pouquinho mais aberto, um contra um. Às vezes, numa zona mais criativa, dependendo da circunstância.

A Copa acontece um ano de eleições no Brasil. Como blindar das pressões ou da movimentação política no País?

Todo o aspecto social, de igualdade, de educação, de chega de impunidade, de prisão para corrupto, ele é muito maior que a seleção brasileira. Ele é muito maior que o futebol. Ele é histórico, de um País melhor, de um País mais educado. O futebol é da paixão. Tomara que o futebol da seleção seja de vencer sendo o melhor. Que ele passe uma mensagem ao público que nós queremos ser mais competentes. Não queremos ser mais malandro do que ninguém. Não queremos tirar vantagem, não queremos simular coisa. Inclusivo por existir a tecnologia. Não queremos. Queremos ser mais competentes. Ter o melhor drible, finalizar melhor e ser melhor. E se esse for o papel do futebol, junto com a alegria, que o faça. Mas os aspectos sociais, de educação, de punição a corrupto, eles transcendem e estão em uma dimensão maior.

Nesse aspecto, a crise política na CBF te atrapalha? Marco Polo Del Nero sendo citado em Nova York, Marin nessa situação, Ricardo Teixeira, o passado da CBF. Como você vive isso e como pode ser evitado para os jogadores?

Eu não tenho condições de fazer o julgamento, de julgar. O meu julgamento e minha situação é dos atletas, da seleção brasileira, do compromisso que eu assumi, de transparência. Eu venho aqui e coloco os critérios. Vocês estão abertos. Vocês já fizeram entrevistas comigo dentro da CBF. O que é o trabalho de sete horas? O que é que tu faz? Vamos traduzir isso para não ficar só no papo, para que quem está nos ouvindo saiba. O que é de democratização? Eu faço e quero fazer de meu trabalho meu exemplo.

Pode ser um exemplo para a direção da CBF?

R - Eu não tenho condição de fazer esse julgamento. Eu tenho condições de fazer julgamento da seleção. Isso me permite. Esse controle dessa variável eu tenho.

Vocês escolheram Sochi (como casa da seleção no Mundial). As distâncias na Copa podem afetar a seleção?

Não era uma variável que poderíamos controlar. O importante era ter um lugar bom e Sochi é considerado como a melhor base.

Pode haver uma mudança na sede?

Não, acho que não. Só se encontrarem um local espetacular. Mas acho que não.

(Com Agência Estado)