29 de julho de 2017 - 07:00

Ídolo do Operário, Mosca sonha voltar ao futebol

A história do meia habilidoso que marcou época no gramado do antigo Verdão

Rodrigo Vargas

, da Redação

rodrigo.vargas@olivre.com.br

Rodrigo Vargas/O Livre

Mosca

Ex-jogador e técnico de futebol, Carlos Henrique Pedroso, o Mosca, ídolo do Operário de Várzea Grande

O ano era 1971 e a equipe da Ponte Preta, após disputar uma partida em Cuiabá contra o Mixto Esporte Clube, estava no avião aguardando a decolagem do Aeroporto Marechal Rondon.

Geralmente tímido e contido, o jogador Carlos Henrique Pedroso, então com 21 anos, surpreendeu os colegas de equipe ao se levantar e bradar em meio aos passageiros: "Se um dia chegar à seleção brasileira e a final da Copa do Mundo for em Cuiabá, peço dispensa", declarou.

Não havia sido um caso de amor à primeira vista. Para aquele jovem paulistano, o calor infernal e a falta de estrutura que encontrou na capital de Mato Grosso haviam sido um choque difícil de assimilar.

Arquivo pessoal

mosca

Mosca em ação pela Ponte Preta: meia habilidoso que marcou época

Mal sabia ele, porém, que seu destino estava definitivamente ligado àquela terra. Seis anos depois da promessa, ele retornaria àquele mesmo aeroporto, em busca de novos rumos para a carreira. E acabaria por encontrar muito mais do que isso.

Antes, porém, é preciso contar sua história. Pedroso começou a chamar a atenção por sua habilidade com a bola nos campos de pelada da região do Ipiranga, na capital paulista. Franzino e veloz, ganhou o apelido de Mosquito.

Anos mais tarde, ao ser contratado pelo Nacional de Itumbiara, seu primeiro clube profissional, um repórter de rádio cometeu um deslize ao vivo e, sem querer, rebatizou o jogador com a alcunha que o acompanharia até hoje.

"Ele errou e, na hora da entrevista, me chamou de mosca. Eu era tímido, não estava acostumado a dar entrevistas e não corrigi. Ficou assim, de mosquito virei mosca", relembrou ele, em entrevista ao LIVRE.

O bom desempenho no Itumbiara o levou ao Vila Nova, também de Goiás. E, depois, ao time da Ponte Preta, onde se firmaria como uma das referências da equipe.

Tanto que, em maio de 1971, ganhou destaque na capa da revista Placar, juntamente com outras quatro promessas do futebol brasileiro. "Mosca tem boa visão de jogo, bom controle de bola e sabe se infiltrar muito bem nas defesas adversárias quando tem a bola dominada", dizia o texto.

Reprodução/Placar

Mosca

Na reportagem, Mosca dizia que sua meta era jogar em "clube grande", principalmente o Corinthians, seu time de coração. "Já imaginou eu jogando no Corinthians? Vai ser uma alegria sem tamanho", disse, em outro trecho da reportagem.

Em 1974, o sonho virou realidade e o jogador veio por empréstimo ao Parque São Jorge. Foi uma curta passagem, prejudicada por uma contusão e também pela recusa da Ponte Preta em cedê-lo em definitivo após o fim do contrato de empréstimo. Disputou 10 jogos pelo Campeonato Brasileiro daquele ano e marcou um gol.

"Quando estava me firmando, ganhando a confiança da torcida, tive que voltar", lamenta ele, sem esconder a insatisfação com a forma como a diretoria do time de Campinas lidou com a situação.

Contrariado, topou conversar com um representante do Operário de Campo Grande, que à época era um time forte e estruturado. Ou, ao menos, era o que ele imaginava. "Quando descobri que era o Operário de Várzea Grande, vizinha de Cuiabá, lembrei na hora daquela promessa no avião", sorri.

Arquivo Pessoal

Mosca

A desconfiança foi vencida com muita conversa, mas também dinheiro. Para seguir em direção aos confins do Brasil, ele exigiu salário equivalente ao que ganhava no Corinthians, luvas e garantia de passe livre após o final do contrato.

"Fiz tudo para dificultar a negociação. Na verdade, eu não queria vir mesmo. Mas o representante cobriu todas as exigências que eu fiz. Então embarquei", conta.

Já instalado no centro de treinamentos do Operário, em Várzea Grande, Mosca tentava se adaptar aos novos tempos quando conheceu a estudante Edna Joselina da Silva, então com 19 anos, e nunca mais a perdeu de vista.

"Foi na hora, uma coisa muito forte mesmo. Naquela época, não tinha essa liberdade que temos hoje, de chegar junto e paquerar, mas logo estávamos namorando e, três anos depois, nos casamos", conta.

Com propostas para deixar Mato Grosso, Mosca chegou a cogitar a volta a SP, mas foi convencido a ficar pela diretoria do Operário, que aumentou seu salário e lhe prometeu uma casa, e também pela noiva e sua família.

No Operário, jogou e fez história entre 1976 e 1979 e de 1982 até 1986, quando pendurou as chuteiras. Até hoje, é reverenciado como um dos meias mais habilidosos que já pisou o gramado do antigo Verdão.

Como técnico, iniciou a carreira em 1999, pelo Diamantinense. Dirigiu o Operário, o Mixto e diversas equipes do interior, como o União de Rondonópolis. Nesta fase, as maiores conquistas foram os títulos da Copa Governador com o Operário e a Luverdense.

Aos 67 anos, o veterano afirma ainda ter muito a contribuir com o futebol de Mato Grosso, mas lamenta a falta de espaço e oportunidades. "Na Europa, vemos técnicos com 70 anos trabalhando. Por aqui, por causa de um trabalho ruim, já dizem que o técnico está decadente. Isso não existe, porque não é um trabalho físico", diz.

Nesta sexta-feira (28), Mosca foi o convidado especial do quadro "Cê Qué Vê, Ixcuta!", do programa POP Show, da Band-MT. Em meio a relatos e imagens de sua carreira, o jogador foi surpreendido e se emocionou com declarações de sua mulher, filhos e neta.

Ao LIVRE, disse que não se arrepende de ter descumprido a promessa que fez há 46 anos, no corredor do avião que o levaria para longe de Mato Grosso. "Poderia ter tido uma carreira em grandes clubes, mas decidi ficar e não me arrependo. Me sinto amado por toda a minha família. Isso não troco por nada."

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