30 de novembro de 2017 - 07:35

Violinista cuiabana ganha bolsa para estudar nos Estados Unidos

Como tem que arcar com os custos da viagem, Carol realiza campanha na internet em plataforma de crowdfunding

Lidiane Barros

, da Redação

lidiane.barros@olivre.com.br

Divulgação

Carol Kelly

Um CD de música clássica que veio como brinde em um pacote de massa para bolo e galhos de uma goiabeira do quintal, por anos foram os únicos signos que aproximaram a musicista Carol Kelly dos planos de ser violinista. “Nunca tive dúvidas de onde eu queria chegar”.

A menina que nasceu em Cuiabá, morou por muitos anos em casa humilde dos pais no bairro Dom Aquino e sempre estudou em escola pública. É notório que as origens de Carol não oportunizariam a materialização do sonho de se dedicar à música de concerto. Somado a isso, haviam poucos professores na cidade e a família não tinha condições de comprar um instrumento.

No entanto, sua perseverança e fé nadaram contra a maré e a musicista que começou sua história com o violino já aos nove anos se prepara agora para ir para os Estados Unidos. Tudo por conta do talento nato e dedicação.

Em junho deste ano, Carol foi uma das convidadas por um dos maiores nomes do violino no mundo, o russo Levon Ambartsumian para fazer o “International Exchange Program”, na Universidade da Geórgia, já no início do próximo ano. O convite se deu a partir da participação da musicista no I Encontro de Violinistas e Violistas, realizado em Florianópolis. O evento é idealizado pelo professor Oliver Yatsugafu, coordenador do programa de extensão da UFMT e que foi muito importante na formação de Carol, como professora e instrumentista, ajudando-a inclusive, na preparação para a apresentação feita a Levon. "Agradeço muito o apoio de Oliver. Quando me foi apresentada esta oportunidade de ir à Florianópolis, senti que seria uma grande oportunidade".

Como Carol é uma jovem musicista que vive exclusivamente da música em Cuiabá, ela não tem como custear a viagem. Daí, resolveu se inscrever em uma plataforma de crowdfunding para apelar ao apoio de “benfeitores”.

“Durante o curso de um mês, vou fazer aulas práticas em orquestra e master classes. Mas apesar, de ter ganho a bolsa, os custos com transporte, alimentação e hospedagem são por minha conta. Tudo isso chega ao montante de R$ 15.000,00 e desta quantia, estou pedindo a colaboração com qualquer valor para que eu consiga ao menos 50% dos custos desse investimento, que seria de R$ 7.500,00. Me ajude a realizar esse grande sonho”, descreve na plataforma.

Para reforçar, no dia 8 de dezembro, com apoio dos amigos do grupo UFMT em Cordas e o pianista Artur Scharneski, ela realiza um concerto especial, cuja a renda que resultará da venda de ingressos será revertida para os custos da viagem. 

Concerto Carol Kelly

O início

Toda a história começa aos nove anos de idade. “Uma amiga começou a fazer aulas no colégio São Gonçalo. E eu insisti com minha mãe para que assim como ela, eu estudasse violino com o professor Paulino, porém, quando completei cinco meses de aula, tive que parar porque não tínhamos condições”, relembra.

“Depois disso foi um período de mais de 6 anos sem aula de violino e isto para mim, foi desolador, pois fiquei sem orientações e sem perspectiva alguma de continuar estudando”.

É nessa época que entram em cena os galhos de goiabeira e o CD ganhado da tia. “Eu ficava procurando um jeito. Eu brincava de tocar violino. Simulava que estava tocando o violino com as mãos e braços. O galho da planta era o arco”, sorri.

Mais tarde, a tia comprou a massa de bolo da marca Dona Benta, que vinha com um CD. “E eu ficava escutando o tempo todo enquanto fingia que estava tocando, ficava imaginando em que ponto deveriam estar minhas mãos”.

No disco, havia seleção impecável, com grandes obras, entre as quais, Hallellujah, de Handel, Cantata de Haydn e a abertura da Flauta Mágica, de Mozart.

A família toda acompanhava aquele movimento e sabia o quão importante o disco era para ela. “Um dia uma prima discutiu comigo e pegou o CD e o pisoteou até quebrar. Chorei muito, porque era a única coisa que eu tinha e na inocência de criança, nem cogitava que eu poderia ter outro. Doeu bastante”.

Mas eis que logo, ela descobriu o Bazar do Livro. E lá, começou a comprar CDs usados, a um custo melhor.

“Mas um belo dia, quando eu estava com 14 anos, recebi uma ligação do maestro Murilo Alves – que sabia do meu interesse -, para fazer aulas no Projeto Ciranda Música e Cidadania, onde enfim, tive a oportunidade de voltar a estudar, desta vez, gratuitamente”. Carol Kelly é da primeira turma do instituto.

Na mesma época, a mãe, vendo que o interesse da filha só crescia, fez diárias como empregada doméstica para conseguir comprar o instrumento.

“E logo, fiz minhas primeiras participações em orquestras”. A primeira foi na do Departamento de Artes da UFMT, dirigida pela professora Flávia Vieira e depois, a Orquestra Jovem do Estado de Mato Grosso, dirigida pelo maestro Murilo Alves. Entre um ano e outro pude tocar em orquestras de festivais de música como o Londrina, de Brasília e o Festival Del Sol, na Bolívia. Fui convidada a integrar a Orquestra Jovem do Brasil em um concerto em comemoração aos 100 anos da queda do muro de Berlim. Na ocasião tocamos a Nona Sinfonia de Bethoveen”.

Paralelamente às novas conquistas, Carol foi convidada a participar dos Concertos Didáticos da Orquestra do Estado de Mato Grosso, em 2008. Logo, o maestro Leandro Carvalho a convidou para tocar em um concerto oficial. “Estava muito nervosa. Era a obra Pássaro de Fogo, de Stravinsky. Difícil de tocar, muito complexa”. Mas a partir daí surgiram novos convites e ela integra atualmente, o corpo de músicos da OEMT.

Hoje, formada em Música - Licenciatura Plena pela Universidade Federal de Mato Grosso - onde cursa Bacharelado em Violino – Carol desponta como um dos grandes talentos mato-grossenses da música e se empenha para fazer o que já tem feito há anos: superar mais um desafio.

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