07 de junho de 2017 - 17:44

Presidente da Academia Mato-grossense de Letras fala de literatura, feminismo e liberdade

Entrevistada por Augusto Nunes, Marília Beatriz é daquelas figuras que transforma um bate-papo em uma viagem

Mikhail Favalessa

, da Redação

mikhail.favalessa@olivre.com.br

Band MT/Reprodução

Professora Marilia Beatriz

 


Quando a advogada e escritora Marília Beatriz de Figueiredo Leite assumiu a cadeira 02 na Academia Mato-grossense de Letras, posto antes ocupado por um homem, recebeu olhares estranhos. Por capricho do destino, o homem era seu pai e ela acabou, pouco mais de um ano depois, assumindo a presidência da instituição que busca preservar a literatura e cultura de Mato Grosso.

“Eu dou graças a Deus que meu pai ainda é o meu amparo. Mas este estigma do gênero feminino é hoje uma coisa terrível, não só na academia de letras, mas na academia universitária, nos empregos, não é?", disse, em entrevista do programa O Livre, apresentado pelo jornalista Augusto Nunes, que foi ao ar na última terça-feira (06) pela Band Mato Grosso – veja os vídeos no fim desta matéria.

Marília Beatriz é filha do desembargador Gervásio Leite, morto em 1990. Do pai ela recebeu, além da cadeira, o nome de batismo em homenagem a Marília de Dirceu, personagem de Tomás Antônio Gonzaga, herói da Inconfidência Mineira. Já da mãe, Nilce de Figueiredo Leite, ficou a homenagem à Beatriz da Divina Comédia do poeta Dante Alighieri.

Vôos e viagens
A presidente AML é uma daquelas figuras que faz um pequeno bate-papo se transformar em uma viagem. Ao falar de sua história, que envolve literatura, teatro e outras artes, ela também fala um pouco sobre a história da cultura de Mato Grosso da segunda metade do século XX para cá, sob grande influência de outros centros urbanos.

“Depois que eu comecei a ler Saint Exupéry e essas coisas maravilhosas, lá quando eu era bem garota e sem ser miss, que eu nunca fui... Porque toda miss leu O Pequeno Príncipe, e eu achava terrível isso. 'Mas não é possível, só tem isso?' E não tinha outra coisa. Mas eu realmente fiquei encantada com aquilo e dizia para o meu pai ‘olha, eu quero voar’ e ele dizia ‘espera um pouco, você vai voar’. E foi terrível, porque eu voei”, relembra Marília Beatriz.

Carioca, ela contou ainda como veio alçar voos em Mato Grosso. “Quando eu me formei, eu andei no Rio de Janeiro fazendo coisas que até Deus duvida. Por exemplo, eu fui sócia, naquela época, de uma boate com um sujeito que se chamava Jesus. Imagina, ser sócia de boate”, disse. “Então eu entendi quando meu pai disse que eu iria voar. Porque nessa boate, vinham meus amigos, e amigo não quer pagar, e justamente eu comecei a voar no dia que o Jesus falou ‘cai fora porque você está me dando um baita de um prejuízo’. Eu tomei o avião e vim para Cuiabá, e aqui realmente eu voei”, comemorou.

Além de presidente da AML, ela é uma das fundadoras do curso de Direito da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e mestre em Comunicação e Semiótica. Marília Beatriz ainda falou sobre a superficialidade da era digital, sobre a festa que montou para comemorar o centenário do pai, sobre autores a serem lidos e sobre outros assuntos contados com irreverência.

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